16/10/2018

Da cultura do yes man

Pierre Clastres, antropólogo e etnólogo francês, na sua obra maior A Sociedade Contra o Estado, publicado em 1974, fruto do seu trabalho junto de tribos indígenas da América do Sul, entre 1962 e 1974, entende que "desde que há homens, houve também rebanhos humanos (associações raciais, comunidades, tribos, povos, Estados, Igrejas) e muitos a obedecer, em relação ao pequeno número dos que comandavam". Ou seja, que a obediência foi exercitada e cultivada duradouramente ente os homens, o que nos leva a pressupor que hoje, de um modo geral, há em cada indivíduo uma predisposição inata para isso, como um modo de consciência formal que ordena: "deves fazer incondicionalmente certas coisas e não fazer incondicionalmente outras".  

Capítulo 11 do livro digitalizado pelo coletivo Sabotagem.

[Imagem sacada na net]

27/09/2018

The revolution will not be televised

O assistencialismo mediático ou o espetáculo da caridade é definido como uma prática de legitimação social executada através dos meios de comunicação social de massa, hoje conhecido por redes sociais. Em termos reais, esta prática ajuda muito pouco, trazendo apenas benefícios pontuais e superficiais, mas sem transformar a sociedade. Trata-se, portanto, de um culto de personalidade e de criação clientelista com uma longa história nas ilhas, reatualizado pelos caciques partidários no pós-anos de 1990. Nos casos mais próximos de uma suposta emancipação social, resulta na criação de cidadãos inócuos... e o pior é quando se associa a sua pratica a um suposto ativismo político revolucionário. Adaptando Gil Scott-Heron há coisa, the revolution will not be televised...

[Imagem apanhada na net]

24/09/2018

Sobre a criminalidade e afins


Enquanto que nas ilhas, até onde sei, país normalmente posicionado nos lugares superiores do topo dos rankings de transparência, democracias e afins em África e arredores, a malta passa pelo governo e cargos administrativos estatais de topo, onde praticam descaradamente associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato, branqueamento de capitais, etc e tal, não só no pasa nada como saem com estatuto de empresários, homens de sucesso ou pretos e mestiços honrados e de bem.  

[Na imagem membros dos Yakuza, 1985. Fofo: AP]

20/09/2018

Bombtrack

Terminado o teatro, PR ratifica a coisa. Ideologicamente coerente com o sistema partidário cabo-verdiano pós-pós-moderno e num contexto completamente diferente de março de 2015. Numa sociedade cada vez mais focada no ativismo self, um Bombtrack dos Rage Against the Machine, ideologicamente bem demarcada, talvez sirva para uma espécie de reflexão. 

[Imagem sacada na net]

31/08/2018

Criminologia contra-colonial

W.E.B. Du Bois, entre o final do século XIX, início do século XX, enumera cinco pontos necessários para se compreender e solucionar aquilo que na altura se chamava de problema negro: 1) o desenvolvimento histórico do problema afro-americano; 2) a emergência de estudos afro-americanos; 3) uma revisão crítica dos estudos sociais científicos sobre os afro-americanos pós-1987; 4) a criação e/ou identificação de uma teoria e metodologia que deveria ser empregue nos estudos afro-americanos em oposição aos estudos eurocêntricos; 5) a necessidade deses estudos serem desenvolvidos por pesquisadores negros.  

Atualmente, a criminologia negra proposta nos anos de 1990 por Katheryn Russel-Brown, com o objetivo de abordar a relação entre a questão racial e o crime, no que se refere ao envolvimento de negros com o sistema judicial e criminal a partir de uma perspetiva histórica e a criminologia feminista negra, que problematiza a presença das mulheres negras no sistema carcerário, são as perspetivas criminológicas que mais se aproximam da pesquisa crítica proposta por Du Bois.

Contudo, no caso do continente africano, o livro Counter colonial criminology: a critique of imperialism reason, de autoria do criminólogo nigeriano Biko Agozino, editor da revista online African Journal of Criminology and Justice Study, pode ser considerado a maior referência atual na literatura sobre o crime no mundo africano global. Através daquilo que designa de criminologia contra-colonial, epistemologicamente comprometida e empiricamente objetiva, Agozino entende que esta perspetiva além de trazer à discussão os crimes do passado colonial e suas consequências atuais, irá contribuir significamente para o desenvolvimento de uma criminologia descolonizada e pan-africana.