07/08/2018

(Re)qualificação urbana e qualidade de vida

Nunca se falou tanto em requalificação (ou qualificação) urbana, contudo, quando se assiste a um conjunto de atentados urbanos (públicos e ambientais) na Praia em nome da qualidade de vida, as questões pertinentes a colocar são: que tipo de qualidade de vida e para quem? Quem está a refazer a cidade? Como a está a refazer? Em nome e às custas de quem?  

[Imagem sacada na net]

03/08/2018

Escravatura como estado de espírito

No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ocupavam uma posição de poder à escala global sem precedentes orientados por planos cuidadosamente desenvolvidos para organizar o mundo. A cada região foi atribuída uma função e determinou-se que África seria confiada à Europa, que poderia tirar partido da sua reconstrução. Contudo, mais recentemente, intensificado pela administração Obama, os Estados Unidos decidem que também deveriam integrar a estratégia de tirar partido do continente africano, juntamente com a China (In: Noam Chonsky, Quem Governa O mundo?, 2016).   

Se entende assim a posição norte-americana em relação ao colonialismo europeu em África, bem como em relação à luta armada e, hoje, nós por cá, do PAICV ao MPD, amarrados neste estado de espírito do escravo bom, candidatamos novamente ao lugar de capataz do império, lugar que a bem verdade nunca largamos. Foi assim com a parceria especial com a UE no tempo da outra senhora e continua a ser assim com o SOFA no tempo da nova senhora.  

[Na imagem "Capataz, Com Chapéu" by Alan, 2018]

31/07/2018

The Vietnam War

The Vietnam War (2017). Realizado por Ken Burns e Lynn Novick, a série retrata a carnificina da guerra do Vietnam (1961-1973) em busca de respostas sobre o que realmente aconteceu, o porquê da invasão norte-americana e da resistência em abandonar uma guerra sem sentido, destacando as razões vietnamita em iniciar uma luta armada contra a colonização francesa (colonização essa apoiada mais tarde militarmente pelos Estados Unidos), as mentiras compulsivas da administração norte-americana baseada numa suposta conspiração comunista global liderado por Moscovo e Pequim (conspiradores com quem o anti-comunista Nixon acabou por se aliar), as desigualdades de tratamento dos soldados negros na estrutura militar instalada no Vietnam, os violentos protestos anti-guerra, o escândalo watergate e os crimes de guerra em nome do "bem" perpetuados pelos militares norte-americanos.  

Algo que complementado com a leitura de "Quem governa o mundo?" de Noam Chonsky poderia servir de ponto de partida para uma discussão assumidamente ideológica acerca do SOFA e da crônica amnésia histórica dos dois maiores partidos políticos cabo-verdianos, suas claques e aficionados.

05/07/2018

5 de julho

Quantitativamente os dados do INE são elucidativos em relação aos ganhos da independência, mesmo sendo ela meramente simbólica. Ainda assim, qualitativamente, há 3 anos, enquanto o poder instituído celebrava os 40 anos da independência, uma parte da juventude praiense insistia na retórica da celebração dos 40 anos da dependência. Um parte dela hoje na rua. Há 7 anos (e não há 2 anos), Praia teve a maior enchente na rua e por detrás da coisa estavam gente ligada ao MPD, alguns hoje Ministros (sem esquecer o incentivo direto de UCS). Portanto, vir agora falar de partidarização amarela da manifestação, se não um exercício ignorante é de certeza desonesto. Não esquecer que em Cabo Verde o Estado é total. Ou melhor, o Partido é total. Ou melhor ainda, o partido é uma mera ferramenta nas mãos de grupos de interesses baseados em relações familiares e/ou de afinidades (o que torna interessante os processos de reconversão de capitais) com vista o acesso e a acumulação de recursos e, consequentemente, de poder. Assim, em Cabo Verde, bem como em muitos outros lugares que achamos ser culturalmente superiores, quem controla o Partido dominante controla o Estado e por extensão os recursos e, naturalmente, o poder. Isto vem acontecendo ao longo da história e não tem muito a ver com luta de classe tout court, a não ser quando enquadrado num exercício intelectual marxista importado. 

Em termos de manifestações de protesto pós-2008 em Cabo Verde, é evidente que o maior beneficiário foi o MPD. E muito por culpa do vazio deixado pela dita sociedade servil. Mesmo assim, como tenho dito e escrito, a vitória verde em março de 2016 apenas serviu para adiar o inevitável: uma provável explosão político-social. No entanto, há uns tantos desavisados que não perceberam que isto é um processo com início na segunda metade de 2000 (com raízes bem mais profundas) e não no pós-2016. O problema é que algumas análises ditas sociológicas, na maioria das vezes baseadas numa sociologia portátil, estão elas próprias partidarizadas. A sociologia, bem como todas as outras ciências sociais (inclusive as ditas exatas), para lá dos discursos de objetividade e neutralidade axiológica, sempre esteve ao serviço de ideologias coloniais e institucionais. Erro ou reprodução de uma cultura de mediocridade, como salientou certa vez Edgar Morin, é não ter consciência disso. 

[Imagem sacada no INE-CV twitter]