31/05/2018

Planetary Gentrification

Nos dias que correm, para além dos discursos da economia do conhecimento, os discursos da estética nas economias ganham relevância, levando àquilo a que vários autores dos estudos urbanos têm denominado de esteticização da economia, da vida quotidiana e das paisagens urbanas. Sharon Zukin, por exemplo, utiliza o conceito para dar conta da duplicidade contrastante e bipolarizada que carateriza as novas economias urbanas. Segundo a autora, as atividades econômicas exigem crescentes preocupações de natureza estética, ao nível da arquitetura dos edifícios, do mobiliário e decoração, da imagem de uma marca, da apresentação dos espaços. dos objetos comercializados e do próprio pessoal de atendimento ao público, como parte integrante de estratégias de competitividade econômica. Isto acentua cada vez mais o processo de esteticização das paisagens urbanas. Contudo, nas traseiras desses espaços (ou como se disse por aqui na campanha eleitoral de 2012, nas ruas de trás), essas preocupações de esteticização estão ausentes. Embora espaços marginais, estes compõem igualmente as novas economias urbanas, visto estarem povoados de trabalhadores precários e restantes "classes perigosas". Estas observações, complementadas pela leitura do Planetary Gentrification, entre várias outras obras sobre o tema, ajudam na compreensão das atuais dinâmicas urbanas pós-Consenso de Washington, entendido aqui como uma (re)atualização da Conferência (Consenso) de Berlim em formato urbano globalizado e globalizante, e abrem um campo de possibilidades de análise da atual questão urbana praiense, assim como dá importantes pistas de reflexão sobre a situação social e criminológica que hoje se vive das "ilhas gentrificadas" do Sal e da Boa Vista. 

30/05/2018

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação. Livro organizado por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, editado pela Tinta da China. A apresentação terá lugar nas cidades de Lisboa, Coimbra, Praia e Mindelo nos dias 7, 8, 12 e 14 de junho respetivamente e na cidade de Bissau no mês de setembro. Conta com 47 artigos assinados por 51 autores. Com Miguel de Barros, numa nova parceria, assino a entrada sobre o assassinato de Amílcar Cabral e a disputa atual do seu legado entre os "velhos camaradas" e os "novos cabralistas" na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

[Na imagem Capa do Livro]

28/05/2018

X Congresso Português de Sociologia

"Jovens e processos identitários no contexto urbano cabo-verdiano: uma discussão a partir das organizações de rua na cidade da Praia" será o título da minha comunicação no X Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia

23/05/2018

De gangues a organizações de rua: grupos de jovens armados e a construção de uma cultura de resistência

De gangues a organizações de rua: grupos de jovens armados e a construção de uma cultura de resistência. Artigo em que procuro, por um lado, refletir sobre a necessidade da recuperação do legado de W.E.B. Du Bois no estudo dos gangues de rua, que, no caso cabo-verdiano, obriga-nos à mobilização dos conceitos de identidade racial, de gênero e de resistência como alternativa teórica para uma melhor compreensão sobre a apropriação da palavra thug pelos jovens em situação de desafiliação e, por outro, através da discussão sobre a adaptação da teoria dos movimentos sociais no estudo dos gangues, procuro fugir às interpretações sociológicas conservadoras e moralistas que normalmente são reproduzidas nos estudos sobe a delinquência juvenil em Cabo Verde, na tentativa de perceber em que medida a estética politizada do gangsta rap difundido por Tupac proporcionou a esses jovens um sentido e uma consciência histórica no processo de reconstrução da sua identidade social e política.

Um olhar alternativo em relação ao debate sobre a criminalidade urbana em Cabo Verde e em modo busca de elementos para a construção de uma agenda de política colaborativa de segurança comunitária e urbana,

[Na imagem Spasu Triseru Mundu, 2015. Foto: RWL]

14/05/2018

Da série "raízes"...

A primeira vez que ouvi falar de raízes como pano de fundo para um evento de promoção desta coisa chamada inovação etc e tal foi em 2009, nos bastidores do Festival Hip Hop Konsienti, liderado por Dudu Rodrigues. Tinha algo a ver com o passado esclavagista das ilhas, seu legado e a capacidade criativa de superação do cabo-verdiano comum, longe das frases feitas institucionalizadas e institucionalizantes. 

Acho interessante essa cena do TEDxPraia, contudo, uma aula de história crítica não custava nada à malta-organizativa da coisa. Dizem eles que "nenhum país poderá avançar com clareza e projetar o seu futuro com audácia e inovação sem conhecer, de antemão, os traços do seu passado". Este passado, definido pelos inovadores do pedaço, é de que "Cabo Verde é um país descoberto e construído por navegadores portugueses, entre outras nacionalidades (que não as africanas) que pelas suas águas passaram (a escravatura, essa violência inventada por essa gente bloqueadora do desenvolvimento e pouco dado a inovações, empreendedorismos e afins), carrega na sua essência o encanto pelas viagens, tanto por prazer, como pela luta por uma vida melhor (a emigração forçada, também inventada por essa gente primitiva que leu muita literatura negra diasporizada)". 

Não sei, mas acho que a malta ou assistiu poucas aulas de história, mesmo aquela dos descobrimentos dado na Escola Pós-Colonial, ou é simplesmente intelectualmente inconsciente ou mesmo inconsistente. Provavelmente a higienização intelectual importada da literatura brasileira nos anos de 1930 deve ser urgentemente considerado como um problema sócio-histórico nas ilhas. Quanto a isso, no prelo um artigo abusado em parceria com Alexssandro Robalo para (re)abrir as hostilidades... até lá, fiquemos com a clareza da malta... 

[Na imagem Raízes de Dudu Rodrigues, 2009]