12/11/2017

Sim, delinquentes são os outros

Cheguei a ser contra a instalação dos parquímetros no Plateau, não por achar desnecessário, mas injusto com quem mora e trabalha no bairro. O processo da criação do EMEP foi algo muito pouco transparente e nunca entendi o modelo da colocação de guardas municipais na aplicação de multas, quando em outras partes do mundo, esta atividade surge como oportunidade de criação de empregos, sobretudo para jovens. Por exemplo, muitos "doutores" e demais aspirantes a qualquer coisa ligado ao poder por cá suportaram os estudos etc e tal neste tipo de trabalho. Enfim, opção políticas que só quem os tomou deverá explicar. No entanto, a coisa em si até funciona, mas funcionaria muito melhor se houvesse fiscalização e a CMP não assobiasse para o lado, legitimando assim o Presidente da coisa como o Senhor Todo Poderoso, poder que ele não detêm nem poderá deter. Quem paga os guardas municipais somos nós...  

Em 2014, perante vários episódios de delinquência institucional por parte da EMEP, o Provedor da Justiça de Cabo Verde chegou a denunciar práticas ilegais nas instruções de processos de contra-ordenações e na recusa de venda de dísticos mensais e fez uma série de recomendações, que não sei se foram ou não levadas em consideração. 

Esta denúncia apenas mostra que a EMEP funciona e continua a funcionar como um grupo organizado em práticas ilícitas, nomeadamente extorsão, com cumplicidade da CMP. Há outros casos de residentes do Plateau com dificuldades em obter o dístico anual de moradores de que têm direito, apenas porque o senhor Presidente entende, consultando a si próprio, que não deve conceder. Perante estas situações, o direito de habitação está evidentemente posta em jogo, para além de configurarem atitudes de delinquência institucional. Ainda assim, os responsáveis da nação querem que os cidadãos e, sobretudo os não-cidadãos, acreditem nas instituições cabo-verdianas. Isto depois das denúncias de Amadeu Oliveira, sobre a existência de uma Máfia do Sistema Judicial, assunto, aliás, já denunciado pelo Juiz Conselheiro Raul Varela.      

[Na imagem Gangster Rat by Banksy, 2006] 

31/10/2017

Violências, jovens e identidade thug

Num artigo a publicar no próximo mês, assunto aprofundado na Tese de Doutoramento em processo construtivo, vem a seguinte afirmação: "(...) uma análise secular das violências em Cabo Verde, nomeadamente no contexto santiaguense, complementado por um trabalho etnográfico, permite estabelecer relações entre o processo de desumanização do homem negro desterrado nas ilhas no período do tráfico negreiro e sua posterior construção em demônios populares após a criação da figura do "badio" (negro fujão), hoje (re)vivenciado no contexto urbano pela figura thug enquanto emblema identitário de resistência reconfigurado a partir das narrativas de Tupac".

[Imagem

25/10/2017

Da série "negrificar as mentes clarificadas"

Sempre que um cabo-verdiano falar na forma como a Europa trata os imigrantes africanos, que é péssimo, convém ele lembrar também como nós, os cabo-verdianos, tratamos os imigrantes do continente ("os mandjakus"), sobretudo nas nossas fronteiras. Sempre que falarem do SEF, lembrem-se da PN/PF. Sendo verdade que muitos do continente olham Cabo Verde como uma oportunidade de chegar à Europa, legal ou ilegalmente, é também verdade que, na última década, muitos killers cabo-verdianos olharam Senegal como uma oportunidade de fuga e/ou um caminho para se chegar à Europa, legal ou ilegalmente.

23/10/2017

Nós e a integração africana

Quando se trata de rankings e índices internacionais o cabo-verdiano acha ser o melhor em África e arredores. Nisto de integração africana, do ponto de vista econômico, é corriqueiro ouvir e ler dos "especialistas" das ilhas que o país anda a competir com o Senegal. Não está nada. Senegal está numa divisão muito superior. Cabo Verde só está à frente em termos de discurso. Aliás, numa altura em que se faz streap tease online dos candidatos cabo-verdianos à presidência da Comissão da CEDEAO, interessa ressaltar a falta de visão estratégica política e econômica (e também acadêmica) em relação à África, não obstante o discurso sobre a integração africana imposto pela União Europeia, como critério de uma suposta “integração europeia”, via parceria especial. Numa altura em que Dakar é efetivamente o hub econômico africano, demitimo-nos de tirar proveito das oportunidades de dar o tal salto, coisa que nunca saiu do papel (ou do discurso). No próximo dezembro, Senegal irá inaugurar um novo aeroporto internacional e de arrasto criar uma nova companhia aérea, porque sabem que a Transair é muito pequena para a grandeza da sua ambição e potencialidade. A mesma que alguém nas ilhas achou ter capacidade de substituir a TACV na rota Praia/Dakar. As ilhas perderam já há algum tempo a oportunidade de se tornar no principal hub aéreo da região. Perdeu imenso dinheiro (e oportunidades) e continua a perder. Neste aspeto, a TACV Internacional vem muito tarde e ao encerrar os voos Praia/Dakar o país perdeu uma mão cheia de oportunidades de crescimento imediato (ou de médio prazo). Muitas entidades com representação na Costa Ocidental de África que tinham intensão de participar no FMDEL, por exemplo, abortaram a sua presença devido à falta de voos regulares (eram cerca de 500 quilômetros. Hoje, há que se fazer muito mais quilômetros e gastar muito mais dinheiro para uma escala em Casablanca ou Lisboa). Para variar, o pessoal continua a fazer fuga à frente e a não refletir sobre os sucessivos erros. O país continua com o discurso pró-Europa e pró-EUA, numa altura em que a Europa e os EUA se instalam em Dakar e, ironicamente, a malta tem a habilidade de aumentar a distância aérea com o continente, este espaço natural para se fazer parcerias e em franco crescimento. 

Como diriam os meus amigos pan-africanistas, na fase em que as coisas estão, solução mesmo, se calhar, passa obrigatoriamente pela Renascença Africana…

[Na imagem Dakar de tous les contrastes by Mamadou Diop]