23/10/2017

Nós e a integração africana

Quando se trata de rankings e índices internacionais o cabo-verdiano acha ser o melhor em África e arredores. Nisto de integração africana, do ponto de vista econômico, é corriqueiro ouvir e ler dos "especialistas" das ilhas que o país anda a competir com o Senegal. Não está nada. Senegal está numa divisão muito superior. Cabo Verde só está à frente em termos de discurso. Aliás, numa altura em que se faz streap tease online dos candidatos cabo-verdianos à presidência da Comissão da CEDEAO, interessa ressaltar a falta de visão estratégica política e econômica (e também acadêmica) em relação à África, não obstante o discurso sobre a integração africana imposto pela União Europeia, como critério de uma suposta “integração europeia”, via parceria especial. Numa altura em que Dakar é efetivamente o hub econômico africano, demitimo-nos de tirar proveito das oportunidades de dar o tal salto, coisa que nunca saiu do papel (ou do discurso). No próximo dezembro, Senegal irá inaugurar um novo aeroporto internacional e de arrasto criar uma nova companhia aérea, porque sabem que a Transair é muito pequena para a grandeza da sua ambição e potencialidade. A mesma que alguém nas ilhas achou ter capacidade de substituir a TACV na rota Praia/Dakar. As ilhas perderam já há algum tempo a oportunidade de se tornar no principal hub aéreo da região. Perdeu imenso dinheiro (e oportunidades) e continua a perder. Neste aspeto, a TACV Internacional vem muito tarde e ao encerrar os voos Praia/Dakar o país perdeu uma mão cheia de oportunidades de crescimento imediato (ou de médio prazo). Muitas entidades com representação na Costa Ocidental de África que tinham intensão de participar no FMDEL, por exemplo, abortaram a sua presença devido à falta de voos regulares (eram cerca de 500 quilômetros. Hoje, há que se fazer muito mais quilômetros e gastar muito mais dinheiro para uma escala em Casablanca ou Lisboa). Para variar, o pessoal continua a fazer fuga à frente e a não refletir sobre os sucessivos erros. O país continua com o discurso pró-Europa e pró-EUA, numa altura em que a Europa e os EUA se instalam em Dakar e, ironicamente, a malta tem a habilidade de aumentar a distância aérea com o continente, este espaço natural para se fazer parcerias e em franco crescimento. 

Como diriam os meus amigos pan-africanistas, na fase em que as coisas estão, solução mesmo, se calhar, passa obrigatoriamente pela Renascença Africana…

[Na imagem Dakar de tous les contrastes by Mamadou Diop]

10/10/2017

Nós e o continente africano

Sobre a integração africana tão na moda discursiva nos dias que correm, a presidência cabo-verdiana da CEDEAO e afins, a afirmação de Elsa Fontes, transportado para a atualidade, vem muito a calhar: "Assim por uma curiosa reviravolta da história, a comunidade cabo-verdiana, em grande parte vinda da África no séc. XVI, regressa a ela num quadro de organizações administrativas portuguesas ou simplesmente para desenvolver o comércio com os indígenas. Em ambos os casos, levam para África o que os portugueses lhe trouxeram: a civilização europeia". 

[Imagem apanhada na net]

01/10/2017

Da série "goog cop bad cop"


Não conheço o caso em si, mas já em 2011, como indica este artigo, havia indícios de práticas do tipo por parte de alguns agentes da PN e, na altura, chegou-se a falar da existência de uma esquadrão da morte no interior da instituição policial ao serviço de uma das fações do narcotráfico nacional.  

[Imagem apanhada na net]

21/09/2017

Da vergonha nacional

Layi Erinosho, sociólogo nigeriano, escreveu em 2008 um interessante artigo intitulado Sociology, hypocrisy, and social order, em que chamava a atenção aos sociólogos africanos sobre a necessidade de incluírem no estudo das interações sociais e das relações internacionais em África o conceito hipocrisia, como um elemento chave de compreensão dos conflitos sociais e guerras persistentes no continente. No contexto cabo-verdiano, o conceito foi utilizado recentemente neste artigo sobre a comunidade LGBT.

De forma geral, hipocrisia significa um comportamento que pretende ter um padrão moral ou uma opinião que não reflete o que é real ou o verdadeiro ponto de vista do indivíduo ou insinceridade em virtude de fingir ter qualidades ou crenças que não se tem realmente. 

Isto para dizer que a cena dos cadernos "kumi-bebi" enquadra-se neste contexto. Eu que entendo o rap como uma forma de transposição artística de experiências individuais e coletivas ou como que um intelectualismo orgânico e o utilizo como uma ferramenta analítica com estatuto igual a qualquer outra fonte de pesquisa em ciências sociais (fazendo analogia à utilização dos textos literários pelos cientistas sociais nos trabalhos sobre a questão da identidade cabo-verdiana), ao transportar esta perspetiva aos restantes gêneros musicais populares no país, "kumi-bebi", "txoma minis", "sen djobi pa ladu" ou o mais antigo "soku na rostu" e dezenas de outras palavras slogans saídas de músicas popularizadas, não passam de representações da sociedade cabo-verdiana. A malta apenas observa a realidade que a circunda e a coloca em forma de música. Os políticos, na ânsia de ganhar popularidade e com isso alcançar o "povo", a legitima enquanto vox populi e os media fazem o resto. E desta equação toda, saem os senhores deputados... 

Vergonha nacional é a institucionalização do nepotismo e da cultura do macaco e do papagaio, a reprodução da mediocridade e do "lambebotismo", a banalização da ideia de liderança, a violência política e institucional, a segregação das oportunidades, a legitimação da precarização laboral, a criminalização da pobreza, a demonização da categoria juvenil em situação de marginalidade, a lapidação da coisa pública, a brutalidade policial, o aumento do custo de vida e o consequente empobrecimento da população, entre outras várias situações que diariamente o dito "povo" sente na pele. 

Lá onde os teóricos da moralidade crioula vêem crise de valores, eu vejo conflito de valores. Abrem mas é a pestana...