10/10/2017

Nós e o continente africano

Sobre a integração africana tão na moda discursiva nos dias que correm, a presidência cabo-verdiana da CEDEAO e afins, a afirmação de Elsa Fontes, transportado para a atualidade, vem muito a calhar: "Assim por uma curiosa reviravolta da história, a comunidade cabo-verdiana, em grande parte vinda da África no séc. XVI, regressa a ela num quadro de organizações administrativas portuguesas ou simplesmente para desenvolver o comércio com os indígenas. Em ambos os casos, levam para África o que os portugueses lhe trouxeram: a civilização europeia". 

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01/10/2017

Da série "goog cop bad cop"


Não conheço o caso em si, mas já em 2011, como indica este artigo, havia indícios de práticas do tipo por parte de alguns agentes da PN e, na altura, chegou-se a falar da existência de uma esquadrão da morte no interior da instituição policial ao serviço de uma das fações do narcotráfico nacional.  

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21/09/2017

Da vergonha nacional

Layi Erinosho, sociólogo nigeriano, escreveu em 2008 um interessante artigo intitulado Sociology, hypocrisy, and social order, em que chamava a atenção aos sociólogos africanos sobre a necessidade de incluírem no estudo das interações sociais e das relações internacionais em África o conceito hipocrisia, como um elemento chave de compreensão dos conflitos sociais e guerras persistentes no continente. No contexto cabo-verdiano, o conceito foi utilizado recentemente neste artigo sobre a comunidade LGBT.

De forma geral, hipocrisia significa um comportamento que pretende ter um padrão moral ou uma opinião que não reflete o que é real ou o verdadeiro ponto de vista do indivíduo ou insinceridade em virtude de fingir ter qualidades ou crenças que não se tem realmente. 

Isto para dizer que a cena dos cadernos "kumi-bebi" enquadra-se neste contexto. Eu que entendo o rap como uma forma de transposição artística de experiências individuais e coletivas ou como que um intelectualismo orgânico e o utilizo como uma ferramenta analítica com estatuto igual a qualquer outra fonte de pesquisa em ciências sociais (fazendo analogia à utilização dos textos literários pelos cientistas sociais nos trabalhos sobre a questão da identidade cabo-verdiana), ao transportar esta perspetiva aos restantes gêneros musicais populares no país, "kumi-bebi", "txoma minis", "sen djobi pa ladu" ou o mais antigo "soku na rostu" e dezenas de outras palavras slogans saídas de músicas popularizadas, não passam de representações da sociedade cabo-verdiana. A malta apenas observa a realidade que a circunda e a coloca em forma de música. Os políticos, na ânsia de ganhar popularidade e com isso alcançar o "povo", a legitima enquanto vox populi e os media fazem o resto. E desta equação toda, saem os senhores deputados... 

Vergonha nacional é a institucionalização do nepotismo e da cultura do macaco e do papagaio, a reprodução da mediocridade e do "lambebotismo", a banalização da ideia de liderança, a violência política e institucional, a segregação das oportunidades, a legitimação da precarização laboral, a criminalização da pobreza, a demonização da categoria juvenil em situação de marginalidade, a lapidação da coisa pública, a brutalidade policial, o aumento do custo de vida e o consequente empobrecimento da população, entre outras várias situações que diariamente o dito "povo" sente na pele. 

Lá onde os teóricos da moralidade crioula vêem crise de valores, eu vejo conflito de valores. Abrem mas é a pestana...

11/09/2017

Reler Cabral nos dias de hoje

"Há certas coisas que os camaradas não sabem e que lhes podem fazer confusão, mas a verdade é que em Cabo Verde mais gente aprendeu a ler e escrever do que na Guiné, no tempo dos colonialistas. Mas a percentagem de analfabetismo em Cabo Verde, contrariamente à vaidade de algum cabo-verdiano que tem a mania que sabe muito, é de 85%. Os tugas gabavam-se, dizendo que em Cabo Verde não há analfabetos. É falso! Mas daqueles que sabem ler, eu fiz a experiência em 1949, quando lá fui passar as férias, havia gente com o 2.º grau (já havia 4 ou 5 anos) no mato, em Godim ou em Santa Catarina, por exemplo, e a quem se lhes dava o jornal para lerem, mas não sabiam o que estavam a ler. Esses também são analfabetos que conhecem as letras. Há muita gente assim no mundo e até, às vezes, doutores. Mas é preciso perder muitas ilusões". - Amílcar Cabral, 1974. 

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