21/09/2017

Da vergonha nacional

Layi Erinosho, sociólogo nigeriano, escreveu em 2008 um interessante artigo intitulado Sociology, hypocrisy, and social order, em que chamava a atenção aos sociólogos africanos sobre a necessidade de incluírem no estudo das interações sociais e das relações internacionais em África o conceito hipocrisia, como um elemento chave de compreensão dos conflitos sociais e guerras persistentes no continente. No contexto cabo-verdiano, o conceito foi utilizado recentemente neste artigo sobre a comunidade LGBT.

De forma geral, hipocrisia significa um comportamento que pretende ter um padrão moral ou uma opinião que não reflete o que é real ou o verdadeiro ponto de vista do indivíduo ou insinceridade em virtude de fingir ter qualidades ou crenças que não se tem realmente. 

Isto para dizer que a cena dos cadernos "kumi-bebi" enquadra-se neste contexto. Eu que entendo o rap como uma forma de transposição artística de experiências individuais e coletivas ou como que um intelectualismo orgânico e o utilizo como uma ferramenta analítica com estatuto igual a qualquer outra fonte de pesquisa em ciências sociais (fazendo analogia à utilização dos textos literários pelos cientistas sociais nos trabalhos sobre a questão da identidade cabo-verdiana), ao transportar esta perspetiva aos restantes gêneros musicais populares no país, "kumi-bebi", "txoma minis", "sen djobi pa ladu" ou o mais antigo "soku na rostu" e dezenas de outras palavras slogans saídas de músicas popularizadas, não passam de representações da sociedade cabo-verdiana. A malta apenas observa a realidade que a circunda e a coloca em forma de música. Os políticos, na ânsia de ganhar popularidade e com isso alcançar o "povo", a legitima enquanto vox populi e os media fazem o resto. E desta equação toda, saem os senhores deputados... 

Vergonha nacional é a institucionalização do nepotismo e da cultura do macaco e do papagaio, a reprodução da mediocridade e do "lambebotismo", a banalização da ideia de liderança, a violência política e institucional, a segregação das oportunidades, a legitimação da precarização laboral, a criminalização da pobreza, a demonização da categoria juvenil em situação de marginalidade, a lapidação da coisa pública, a brutalidade policial, o aumento do custo de vida e o consequente empobrecimento da população, entre outras várias situações que diariamente o dito "povo" sente na pele. 

Lá onde os teóricos da moralidade crioula vêem crise de valores, eu vejo conflito de valores. Abrem mas é a pestana...

11/09/2017

Reler Cabral nos dias de hoje

"Há certas coisas que os camaradas não sabem e que lhes podem fazer confusão, mas a verdade é que em Cabo Verde mais gente aprendeu a ler e escrever do que na Guiné, no tempo dos colonialistas. Mas a percentagem de analfabetismo em Cabo Verde, contrariamente à vaidade de algum cabo-verdiano que tem a mania que sabe muito, é de 85%. Os tugas gabavam-se, dizendo que em Cabo Verde não há analfabetos. É falso! Mas daqueles que sabem ler, eu fiz a experiência em 1949, quando lá fui passar as férias, havia gente com o 2.º grau (já havia 4 ou 5 anos) no mato, em Godim ou em Santa Catarina, por exemplo, e a quem se lhes dava o jornal para lerem, mas não sabiam o que estavam a ler. Esses também são analfabetos que conhecem as letras. Há muita gente assim no mundo e até, às vezes, doutores. Mas é preciso perder muitas ilusões". - Amílcar Cabral, 1974. 

[Imagem apanhada na net]

22/08/2017

Centralização, desconcentração, descentralização, regionalização

O interessante nos últimos meses tem sido a constatação da estreia e da volta de vários "mandadoris di boka", um ano depois da mudança no poleiro político. Acho bem. Contudo, a situação simboliza uma espécie de consolidação do sistema político bi-partidário (ou se preferirem o sistema bi-clubístico) historicamente instalado nas ilhas. É certo também que alguns meninos acabados de trepar o poleiro andam a facilitar. Outra conjuntura política, algumas mesmas práticas da população mirim partidária. 

Ontem MAC#114, hoje Sokols aka Falcões Portugueses de Cabo Verde (aqui bem retratada por Maria Carvalho). Ontem contra o Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos, hoje contra a Centralização aka República de Santiago. Contudo, a bem verdade, é preciso sair da Praia, chegar a uma ilha verdadeiramente periférica, numa localidade periférica da periferia da ilha e lembrar aquilo que Fanon já tinha alertado, há 50 e tal anos atrás.

"Num país subdesenvolvido, os elementos dirigentes do partido devem fugir da capital como da peste. Eles devem residir, à excepção de alguns, nas regiões rurais. Deve-se evitar centralizar tudo na grande cidade. Nenhuma desculpa de ordem administrativa pode legitimar a efervescência de uma capital já superpovoada e superdesenvolvida em relação a nove décimos do território. O partido deve estar o mais possível descentralizado. É a única maneira de ativar as regiões mortas, as regiões que ainda não despertaram para a vida" - Frantz Fanon, 1961. 

[Imagem sacada da net]

19/08/2017

Da série Racismo à Portuguesa

Os cidadãos dos países de língua oficial portuguesa representam menos de 1% da população portuguesa. Ainda assim, 1 em cada 73 com mais de 16 anos em Portugal encontra-se preso, enquanto para os na nacionalidade portuguesa é um em cada 736. Em Sintra, 1 em cada 50, para 1 em cada 492. Na Amadora, 1 em cada 49, para 1 em cada 393 e, neste município, 1 cabo-verdiano tem 19 vezes de probabilidades de estar preso do que um português. Estes são os dados divulgados hoje pelo Público, que começa a segunda parte do projeto Racismo em Português, liderado pela jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques, com a série Racismo à Portuguesa, com um trabalho sobre o sistema judicial português e a forma como se manifestam as desigualdades raciais em diversa áreas, da educação ao emprego ou à educação.  

[Na imagem capa do Público de hoje]