13/07/2017

Da série "balcanização e pilhagem de África"

Numa época em que o pan-africanismo institucionalizado volta a querer mostrar a sua garra, torna-se forçoso recuperar a afirmação de Axelle Kabou: "Sabemos que a ajuda ao desenvolvimento, que substitui as reparações de crimes coloniais, poderia ter sido outra coisa que não um 'programa de irmãs de caridade', para retomar a expressão de Fanon, se os fundadores da Organização da Unidade Africana tivessem escolhido a verdadeira unidade, em vez de se dedicarem à balcanização da África". 

11/07/2017

Sem justiça não há paz

Nos tempos mais recentes, em Lisboa, após a invenção do "arrastão de Carcavelos", em junho de 2005, seguiu-se a invenção da "invasão da esquadra de PSP de Alfragide por cinco jovens negros", em fevereiro de 2015 (aquiaqui). Dois anos volvidos, Ministério Público acusa os 18 agentes da PSP envolvidos de sequestro, tortura e racismo. Cada um é acusado de terem cometido cerca de vinte crimes.

Adenda: Som e Fúria da TVI.

[Imagem sacada da net]

10/07/2017

Curso de Verão | Ativismos em África: Estado da Arte, Métodos, Contextos e Casos

Na sequência da Conferência Internacional Ativismos em África, acontecerá entre os dias 4 e 8 de setembro o Curso de Verão Ativismos em África: Estado da Arte, Métodos, Contextos e Casos, organizado pelo Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) e Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS-IUL), do qual farei parte do corpo docente.

02/07/2017

Racismos e barbarismos

Sobre o regresso dos populismos europeus ligados ao racismo anti-negro e anti-árabe e os recorrentes atos racistas na Urban que põe ainda mais em evidência o racismo institucional português, nada melhor do que a mobilização da ideia sobre o barbarismo de Tzvetan Todorov: "Os bárbaros são os que consideram que os outros, por serem diferentes, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito estudos superiores ou ter lido muitos livros, logo, possuir um grande saber. Sabemos bem que isso não impediu atos perfeitamente bárbaros". 

[Imagem apanhada na net]

22/06/2017

Da série muda-se o pacote, mas o conteúdo é o mesmo

Não conheço o programa em si, muito menos sei se existe um outro como complemento, mas pela fala de quem apresentou a coisa, claramente uma medida excluidora de uma boa parte dos jovens cabo-verdianos. Convém não esquecer que todas as decisões políticas são frutos de escolhas, o que cria uma situação de violência política quando as decisões tomadas em nada se baseiam num conhecimento aprimorado do situação em que se pretende atuar, mas em meras questões ideológicas ou simplesmente casmurrice. Pior é, quando se ignora o fato de que estes tipos de escolhas sempre trazem no seu bojo consequências nefastas derivadas do mal-estar que cria. 

[Na imagem The Unaddressed by Fuaxreel]

17/06/2017

Criminalidade urbana e políticas repressivas

Cabo Verde desde 2005 (há quem defende que ainda mais cedo) adotou o paradigma inquisitório de combate à criminalidade, o que na prática significou o ataque aos efeitos e não às causas. Sendo assim, normal é que os índices da criminalidade não cessam de subir, apesar a cegueira do atual Ministro da Administração Interna. Desde 2010, eu e outros pesquisadores, tínhamos alertado para as consequências nefastas que as políticas exclusivamente repressivas (com rasgos de assistencialismos do serviço social da igreja do século XIX) poderiam trazer ao espaço social cabo-verdiano no geral e praiense em particular. Mas, como disse alguns, nós não fazemos ciência e nem sequer metodologia de trabalho temos. Os mesmos que de repente descobriram que a "raça" é uma importante variável a ter em conta no estudo de várias problemáticas em Cabo Verde, sobretudo na questão da criminalidade, bem como a necessidade de se fazer uma rutura com o legado eurocêntrico sob pena de continuarmos a reproduzir os discursos que consideram o continente africano como uma espécie de museu de antiguidades europeias. Contudo, destes, há os que não obstante a bazófia acadêmica ainda não perceberam que se encontram desatualizados e os que não obstante o avanço de ponto de vista epistemológico ainda não perceberam que lhe falta os sujeitos.  

Do fenômeno em si, num artigo publicado em 2012, chamava a atenção para o processo de redefinição dos grupos armados e sua atividade criminosa que a política repressiva cega poderia estar a conduzir. Cinco anos depois, as evidências são elucidativas. Nos anos de 1990, ao se constituir as crianças em situação de rua como um problema social, a prisão surgiu como solução. Encarcerou-se crianças com menos de 16 anos de idade (numa grotesca violação da Constituição da República) e os que tinham 16 anos foram condenados por crimes (na sua esmagadora maioria por furto e roubo) cometidos enquanto menores de idade (uma outra grotesca violação da Constituição da República). Levaram em média 4 anos de prisão. É verdade que o fenômeno das crianças em situação de rua, pelo menos daqueles que viviam e dormiam nas ruas, diminuíram significativamente, mas não a criminalidade ou a violência. Nos anos de 2000, tanto na Praia como no Mindelo, as antigamente chamadas "crianças de rua" desapareceram. Contudo, esse desaparecimento momentâneo não se deveu à aplicação de políticas públicas, porque o contexto de marginalização dessas famílias continuou igual. O diferente foi a transformação dos grupos de amigos de rua em gangues de rua, o que proporcionou às crianças que em situação normal se deslocassem para os centros da cidade em busca de sobrevivência, a emergência de um espaço de convivilidade, afirmação e partilha de táticas de sobrevivência nos limites do bairro.

Com o conflito armado declarado entre os grupos juvenis na Praia, a partir da segunda metade dos anos de 2000 (como consequência do conflito armado entre as fações dos agrupamentos menos jovens) a violência coletiva ganha novos contornos na cidade, aproximando daquilo a que Tatiana Moura denominou de novíssimas guerras. O que as evidências estatísticas nos mostram é que a pacificação dos bairros possibilitou o fim das trincheiras físicas urbanas, permitindo a livre circulação do pessoal, que não encontrando nichos de resistências territoriais, fez com que o chamado kasubodi ganhasse visibilidade, sobretudo devido à mudança do modus operandi da nova configuração da criminalidade coletiva. Esta última evidência transporta-nos de novo às políticas repressivas e à sua expressão física que é a prisão. Uma das críticas que hoje se faz à criminologia tradicional ou à sociologia clássica do crime é o fato de ainda não terem percebido o papel central das prisões na organização e sofisticação da criminalidade coletiva urbana. Convém não esquecer que as crianças que foram encarceradas por delito comum nos anos de 1990, ao serem libertos, a maioria encontrou nos gangues o único espaço possível de integração e afirmação e a sua volta à prisão deveu-se a crimes ainda mais violentos, por um lado, e que os membros de gangues encarcerados a partir de 2009 e libertos a partir de 2015, trouxeram novos aportes táticos à atividade criminal, por outro lado.

Arrogantemente diria que não perceber estas relações na compreensão do fenômeno da criminalidade urbana em Cabo Verde é um ato puramente idiota e ignorante, só possível num contexto fortemente marcado pela escravatura mental expressada na cultura do "papagaísmo" e "macaquismo" intelectual e científico.       

[Na imagem Mona Lisa by Urban Maeztro, Honduras]

13/06/2017

Lista de selecionados para o programa de residência IMJA

Publicada a lista de selecionados para o programa de bolsas de residência das periferias do IMJA. De Cabo Verde irá participar no programa o jovem sociólogo e ativista Alexssandro Robalo, com uma bolsa de pesquisa social nas periferias.

Co-fundador do coletivo IPUK, no qual coordena o Núcleo de Estudo da Arte Oral (NEAO), é ativista do Movimento Federalista pan-Africano e ex-líder associativo acadêmico, entre 2013 e 2014, e tem como interesse de pesquisa as músicas de protesto (rap), arte oral africana, descolonização epistemológica, movimentos sociais e lutas políticas. 

[Na imagem lista dos selecionados para a residência sobre as periferias do IMJA 2017]

28/05/2017

FRESH STREET #2 | Over the seas - street art beyond Europe

"Cegos", performance de intervenção urbana protagonizada pelo Desvio Coletivo, de São Paulo, grupo com qual dialoguei, juntamente com representantes de Macau e Israel, sobre arte de rua enquanto ato político, no painel "Over the seas - street art beyond Europe", no FRESH STREET #2.

[Na imagem Overview session #2, Santa Maria da Feira, Portugal. Foto by Circostrada Network, 2017]

17/05/2017

Rap, coerência e discurso político

Numa época em que no processo de afirmação juvenil e social muitos rappers e MC's são "obrigados" a higienizarem-se, ou seja, transformarem-se em artistas, como que se o rapper não é ele próprio um artista (que na prática significa estar com uma banda, simulando uma espécie de indigenização do rap, que na verdade não o é, fenômeno este que deve ser pensado apenas inserido numa lógica de luta simbólica entre uma suposta arte legítima e arte ilegítima também rotulada de música papel higiênico), a semana abre com a colocação nas ruas de duas boas obras do rap tal e qual como o gosto de ouvir.

Guerra Santa de Ex-Pavi e D12A5 de S.O.S.

Vídeo oficial de Deuses & Homens aqui.

Vídeo oficial de D12A5 aqui.

[Na imagem Guerra Santa de Ex-Pavi, 2017]

01/05/2017

Lucy Parsons - Take The Power Back - Rage Against The Machine

"Os anarquistas sabem que um longo período de educação precisa preceder qualquer grande mudança fundamental na sociedade, uma vez que não acreditam na miséria do voto, nem em campanhas políticas, mas sim no desenvolvimento de indivíduos com pensamento autônomo." - Lucy Parsons, Os Princípios do Anarquismo, 1890. 

Embora haja contradição a respeito, há quem defende que Lucy nasceu escrava. Certo mesmo é o fato dela ser uma das razões por hoje existir o primeiro de maio. Ativista, anarquista, feminista e escritora.

E num dia como hoje, di kumi i bebi, nada melhor do que um Take The Power Back dos Rage Against The Machine para subir a moral da malta subversiva. 

[Na imagem Lucy Parsons, 1853 - 1942]

30/04/2017

Programa de bolsas de residência sobre as periferias - IMJA

Com vista à construção do projeto Internacional das Periferias, na sequência do encontro da Maré em março último, o Instituto Maria e João Aleixo torna público o primeiro processo de seleção de bolsistas para residência em programa de formação (três para o continente africano) a ser realizado entre os meses de agosto e dezembro do corrente ano, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro. O critério de elegibilidade é ser da área das periferias, ter interesses em artes, ativismo ou empoderamento comunitário e ser politicamente engajado.   

29/04/2017

33 Masks

Quando chegas naquela fase da pesquisa em que constatas que a fala do Capitão Nascimento no final do Tropa de Elite 2 faz todo o sentido nas ilhas, que o cidadão comum está entregue aos tubarões e dás conta da enorme distância em que te encontras da malta que tenta explicar a coisa.  

[Na imagem 33 Masks by Zoo Project]

26/04/2017

III Congresso Internacional de Antropologia AIBR

Acontecerá em novembro, na cidade mexicana de Puerto Vallarta, o III Congresso Internacional de Antropologia AIBR, onde irei apesentar a comunicação "Jovens e representação do espaço público: uma discussão a partir do rap cabo-verdiano". O objetivo da comunicação é, por um lado, analisar a possível relação existente entre a sensação do mal-estar juvenil e a (r)emergência da reivindicação africana no discurso dos rappers com a governação do país na última década e, por outro, discutir o papel do rap nas contestações públicas e urbanas que surgiram nos últimos anos em Cabo Verde.   

[Na imagem atuação do PCC no Hip-hop Summer Fest, Praia, 2015. Foto RWL]

25/04/2017

Seminário de Tese de Doutoramento em Estudos Urbanos

Na próxima semana, juntamente com António Brito Guterres, irei participar no Seminário de Tese de Doutoramento em Estudos Urbanos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde irei apresentar a comunicação "Violência(s), jovens e espaço público: uma análise das relações de rivalidade e ocupação de espaço público dos gangues de rua na cidade da Praia, Cabo Verde".

24/04/2017

Reflexão do dia

"Atualmente, pretende-se construir uma sociedade de conhecimento como se desde há séculos a humanidade tivesse vivido nas sociedades da ignorância." - Jean-Marc Ela, 2007. 

23/04/2017

Um post para reflexão e debate... se assim o entenderem

Quem conhece o submundo do crime em Cabo Verde sabe que a coisa é desorganizada, embora ande em constante namoro com o crime organizado internacional. No entanto, este cenário poderá estar prestes a mudar.

Quem conhece o submundo do crime internacional sabe que os casinos são um dos espaços favoritos e dos mais eficazes para a lavagem do dinheiro do crime organizado, assim como a banca. Quando se junta a isto uma companhia aérea, nem Roberto Saviano terá adjetivos para a classificar. 

Quem conhece a história e a literatura especializada dos casinos monopolizados macaenses sabe que por razões que aqui não interessam, nos anos de 1980, iniciaram um processo de subcontratação de algumas salas privadas do jogo ao crime organizado chinês que passaram a integrar o negócio através da gestão direta das mesmas. Tim Simpson descreveu esta conivência dos governantes de Macau na altura com a oligarquia das concessionárias dos casinos, os agentes estrangeiros reguladores dos jogos e o crime organizado como uma "rede de Estado transnacional" através da qual alguns aspetos do poder e da autoridade do Estado foram capturados por corporações estrangeiras localizadas nas chamadas zonas econômicas especiais. Misha Glenny designou este processo de "nexo político-criminoso".  

Quem conhece a literatura dos estudos urbanos e do turismo de casino sabe que os Integrate Resort & Casino são um update dos casinos monopolizados de Macau e que a sua exportação para fora do continente asiático faz parte de uma estratégia de implementação de projetos de replicação deste modelo sócio-espacial para outras paragens do globo, inicialmente experimentadas nas regiões vizinhas do continente asiático. Como mostrou Lydia Cacho, esta migração comportou a migração das tríadas.  

Quem conhece o conservadorismo analítico da criminologia tradicional e da sociologia clássica do crime sabe que ambas têm dificuldades em dar conta deste cenário e achar mera especulação a afirmação de que esta migração, quando confrontado com o crime desorganizado local e o crime organizado internacional que tem na auto-estrada 10 a rota privilegiada de passagem da droga sul-americana rumo à Europa, sem falar da atração para o arquipélago das máfias da sub-região que por questões de controlo geoestratégico do crime transnacional podem querer fazer presentes, poderá elevar rapidamente os índices de violência e criminalidade urbana para números nunca antes vistos.  

14/04/2017

Um post que diretamente nada tem a ver com a cena da isenção dos vistos apenas aos cidadãos europeus

Sobre a política de migração entre Cabo Verde e União Europeia, num artigo já há algum tempo no prelo, escrevi que tal comportava riscos na medida em que poderia colocar o país numa situação em que facilitaria a retirada coerciva dos nacionais cabo-verdianos e de nacionais de Estados terceiros e apátridas do território europeu sempre que estivessem em situação irregular, sendo que estes últimos poderiam ser deportados para Cabo Verde desde que fosse entendido que tivessem transitado o seu espaço físico no processo migratório. Sendo assim, o papel das ilhas como espaço de deportação onde os indesejados seriam desterrados ganharia novo alento, o que juntando ao receio da islamização, que normalmente é associada à imigração africana, poderia contribuir para o surgimento de conflitos raciais ou étnicos, numa sociedade onde existe uma hierarquização da morabeza. Isto tendo como referência a afirmação salientada por Pedro Marcelino que, em Cabo Verde, na relação com o outro que vem de fora, o indivíduo "branco" é percebido como estrangeiro, o chinês como comerciante e o nacional do continente africano como imigrante. 

09/04/2017

Sobre a transição da economia informal para a economia formal

Numa altura em que se volta a falar da transição da economia informal para a economia formal, promovida pela OIT, nada melhor do que iniciar a reflexão da coisa de forma mais aprofundada, a começar por este artigo de Sónia Frias, sobre a resistência e mudança do Mercado do Sucupira, sem esquecer vários outros trabalhos publicados, em que destaco "Trabalho, sociabilidade e geração de rendimento no espaço lusófono coordenado por João Estevão e Iolanda Évora", "Rabidantes. Comércio espontâneo transnacional em Cabo Verde" de Marzia Grassi, "Hiace. Antropología de las carreteras en la isla de Santiago (Cabo Verde)" de Gerard Horta e Daniel Malet Calvo, "Estudo sobre o impacto comercial e social da construção do novo mercado municipal da Praia" realizado pelo CEsA e "Cidades informais: o caso da cidade da Praia" de Jacqueline Pólvora. 

[Na imagem Mercado do Sucupira, 2016. Foto de Carlos Fuentes]

02/04/2017

Em Cabo Verde não existe corrupção – dir-se-ia – sequer, há queixas de corrupção

Sobre a suposta queixa coletiva contra os malfeitores do Estado e a busca de homens de coragem para tal, em 2013, numa semana de maio, um grupo auto-denominado Movimento Ação Transparência e Integridade entregou às autoridades nacionais e partidos políticos uma petição com 512 assinaturas denunciando vários crimes perpetuados pelos servidores públicos, entre os quais 80 casos identificados como sendo lesivos à Nação. Nenhuma medida foi tomada e hoje cá estamos. Como consequência, o arquiteto Nuno Ferro Marques, o porta-voz do grupo na altura, foi condenado por difamação ao então PGR através de um artigo de opinião publicado no extinto Liberal. Aqui o manifesto do grupo e o blogue com exemplos de vários casos de corrupção denunciados até 2013.

[Imagem apanhado algures pela net]