02/11/2016

Das continuidades históricas

Na edição n. 2, do Jornal O Manduco, de Setembro de 1928, com o título "Administradores... de concelhos", escreve-se o seguinte:

"São funcionários por nomeação arbitrária (...). Não representam os interesses legítimos do município senão os particulares da entidade que o nomeou. A sua função não é nem mais nem menos que uma consentida espionagem política. Daí a sua absoluta sujeição às vicissitudes das lutas partidárias. Mas em Cabo Verde temo-los visto agarrados sofregadamente ao cargo como modo de vida ou como pedestal de imaginadas grandesas e reais mesquinhas vinganças. A vida e na verdade um oceano de miséria (...) um e o outro não largam o osso por mais pontapés que apanham."

Quase 90 anos após este texto (hoje diríamos post), a coisa não mudou muito nestas ilhas à beira-mar a secar.

[Na imagem Glenn by Jean-Michel Basquiat, 1984]

01/11/2016

Activisms in Africa

Em Janeiro, na Conferência Internacional Activisms in Africa, no ISCTE-IUL, apresentarei a comunicação "Netus di Cabral i rivuluson. Os jovens e os protestos públicos em Cabo Verde", que tem como base um trabalho etnográfico no contexto juvenil urbano cabo-verdiano, com o qual se pretende, por um lado, relacionar o mal-estar social e a (re)mergência da reinvidicação da identidade africana por parte dos jovens em situação de marginalidade com o Estado pós-colonial cabo-verdiano e, por outro, discutir de forma exploratória a emergência dos movimentos juvenis surgidos em Cabo Verde nos últimos anos. 

Na sequência desta outra

29/10/2016

Da cultura do macaco e do papagaio


Tenho para mim que a violência simbólica é a pior das violências e que o que não é muito inteligente e algo como ter os pés bem fora do chão é este editorial do Expresso das Ilhas. A cegueira ideológica é uma coisa tramada e este editorial só prova que um trabalho de desconstrução ideológica bem mais aprofundada torna-se necessário.

Adenda: e a estupidez agudiza-se quando a figura por detrás do editorial afirma qualquer coisa como que os assuntos que os claridosos não trataram, não interessa... 

[Na imagem The Persistence of Memory de Salvador Dali, 1931]

25/10/2016

Da crise de conceitos

Como já disse e escrevi inúmeras vezes, os picos de criminalidade urbana em Cabo Verde têm sido cíclicos e se o analisarmos a partir de uma perspectiva de evolução secular (macroevolução da criminalidade), percebemos que em termos de crise, só se estivermos a falar de crise de conceitos* de uma certa sociologia fast food reproduzida nas ilhas por uma intelectualidade folclórica mui institucionalizada.

Sobre o tema em si, já que a conversa volta a ser criminalidade, segurança e afins, relembro aos mais incautos os textos "Cidadania, Mobilidade Juvenil e Coesão Social Urbana" e "Violências Urbanas, Gangues e Jovens", produzidos em 2013 e 2014 respectivamente,

*Considera-se crise de conceitos quando os conceitos mobilizados não permitem elucidar com total precisão os fenómenos analisados, em parte porque ao invés de se buscar construir formulações teóricas baseadas em pesquisas sólidas, localmente situadas, importa-se conceitos (porque de outro jeito não sai) que em nada se adequam à realidade analisada. 

23/10/2016

Cultura punk e a promoção de uma agenda subversiva

Um punk às antigas na tentativa de promoção de uma agenda subversiva, num contexto em que se efectiva o empobrecimento da população, em que se consolida uma cultura de mediocridade transvestida de políticas de nomeações de prémios de pessoas com provas dadas de incompetência crónica enquanto servidores públicos, em que se insiste na cosmetização social e na política do mais do mesmo em vários quadrantes de governação, em que se passa da política de jobs for the boys and girs para uma política de circulação de jobs... pelo meio, esta medida necessária, mas sem a parte da videovigilância, e a visão "clara e objectiva" de um partido em processo de desvario institucional total.

[Na imagem capa do álbum "Punk. London 40 Years of Sub-Versive Culture", 2016]