04/10/2016

Da ressaca pós-eleitoral

Que fique saliente que o MPD venceu de forma como venceu as três batalhas em que se meteu este ano porque as pessoas assim quiseram e porque já estavam fartos do país ilusão de Zemas e companhia. Isto de falar que entramos numa nova ditadura ou num regime de partico único não passa de uma conversa da treta e típico de uma sociedade incapaz de se organizar fora da influência dos partidos políticos quer para fazer valer as suas reinvidicações ou os seus descontentamentos. Ir às urnas apenas de 4/5 a 4/5 anos não chega. Falar de uma suposta ilegitimidade da eleição de Zona é o mesmo que falar de uma suposta ilegitimidade dos outros candidatos, inclusive do tal Reitor da Universidade que atribuiu o Doutor Honoris Causa a Adriano Moreira, no dia internacional dos direitos humanos. Indo ao essencial, o que realmente deveria interessar aos analistas de prontidão não é a abstenção em si, que é um problema mundial, mas a forma ordinária como alguns dos nossos políticos têm reagido à coisa, à la deitar o lixo debaixo do tapete, num típico exercício de desviar do fundamental. 

[Imagem by Banksy]

01/10/2016

Da classe perigosa

Guy Standing apresenta o termo precariado em 2011, uma categoria criada nos anos de 1980 através da junção dos termos "precário" e "proletário", para designar uma classe emergente constituida por um número cada vez maior de pessoas que enfrentam vidas profissionais regidas pela insegurança. Uma classe com o potencial de provocar inatabilidade social pelo facto de circularem entre trabalhos temporáreos que acrescentam pouco significado e sentimento de pertença e realização pessoal às suas vidas, o que os torna frustados e revoltados. Esta situação explica porque dão-se pouco ao trabalho de votar em eleições, seja de que tipo for, o que têm contribuído para a erosão da legitimidade da democracia eleitoral a nível mundial.

Neste preciso momento em que se discute nas ilhas a cena da abstenção, o maior adversário de Zona numas eleições pouco sexy e beaucoup de chato, salvo as tiradas cómicas do tal senhor que afirma que caso ganhe irá aumentar o salário mínimo para números superiores ao salário médio, que tem garantido 500 milhões de financiamento para o desenvolvimento do país ou que toda a campanha do Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas eleições presidenciais portuguesas foi copiada na sua campanha de 2011 graças às redes sociais, o que resta aos analistas eleitorais de prontidão é saírem da sua zona de conforto e actualizarem um pouco o seu repertório teórico-empírico.

Penso que a certos níveis de articulação teoria e prática não é preciso muita imaginação sociológica para se perceber também a relação da coisa em cima dita com a tão falada transacção de votos e a questão da violência individual e grupal no arquipélago dito de "morabeza".

[Imagem retirada do mural do facebook de Tchalé Figueira]

24/09/2016

Partidos políticos e violência eleitoral

Quer gostem ou não, tenho para mim que qualquer discussão séria sobre este assunto em Cabo Verde que não passe por uma reflexão a partir deste artigo é uma mera manobra de cosmética política e científica à la moda cabo-verdura.  

17/09/2016

Da promoção da imbecilidade intelectual

Que em Cabo Verde as instituições do ensino superior são geridas como que se do quintal do chefe e equipa dirigente se trata não é novidade. Que na Universidade de Cabo Verde, a rídicula política de criação e gestão dos cursos visa tão somente garantir horas ao corpo docente da casa e barrar a entrada de corpos estranhos à coorporação é pública. O que me espanta é como que um Professor Doutor cabo-verdiano, com melhor currículo que a esmagadora maioria dos docentes que ali vegetam, ex-professor universitário e pesquisador nos EUA com uma extensa rede de grupos de pesquisa no nosso continente é dado nota zero na sua área científica, naquela coisa bastante duvidosa que insistem em chamar de concurso. A continuar assim, a tal conversa de excelência, rigor etc e tal do ensino superior cá da casa já nem ao inglés conseguirá enganar.

[Imagem de Caras Ionut]

14/09/2016

Teoria Queer e a questão homossexual em Cabo Verde

Sobre o "casamento gay" na ilha da Brava, o que se espera é que volte a colocar a questão homossexual na agenda pública (e política), enfrentando o tal Sistema Hipocrisia (que se estende à cena da CRASDT) apontado neste interessante artigo, recentemente publicado no Brasil, com o título: ""Hipocrisia": a visão dos gays cabo-verdianos sobre o seu próprio sistema de género". E para aprofundar a reflexão, ""I want to marry in Cabo Verde": reflections on homosexual conjugality in contexts".