07/09/2016

Eu e os 56,5%

Primeiramente eu não voto e sou da equipa dos 56,5%. Não meramente por rebeldia ou como parte de uma manifestação anti-política, mas por achar que fazer política não se limita ao dia de colocar a coisa na urna e, sobretudo, porque nenhuma das cinco candidaturas na Praia me disseram alguma coisa. Isto de voto em branco é muito bonito mas não me diz nada e idiota do cientista ou analista político que ignore a compreensão qualitativa da abstenção na análise das eleições dos novos tempos.

Preferindo evitar falar do PAICV e do seu erro de casting comunicacional e político, reconheço que a equipa suportada pelo MPD fez, nos últimos anos, um bom trabalho na Praia. em matéria de levantar o auto-estima dos praienses depois do furacão Filú e na arte da cosmética urbana. A sociologia urbana chama a esse segundo processo de esteticização urbana, o que quer dizer que é necessário muito mais para que de facto se alcançe o tão falado bem-estar social. que da minha felecidade trato eu.

Sinceramente, não vejo como que uma equipa que confunde política urbana com política imobiliária ou edificação de minis fitness park e afins com política de promoção de espaços públicos conseguirá alcançar o chamado urbanismo de coesão social, mas temos os próximos quatro anos para ver se a malta abre a pestana, sem grandes expectativas e djobendu senpri pa ladu.

Sobre as restantes candidaturas, o mês do carnaval que eu saiba é em Fevereiro, embora a malta da cidade dos mandingas inventou a cena do carnaval de verão.

[Imagem sacada na net]

03/09/2016

Eleições | Praia

Sigo campanhas eleitorais nas ilhas desde a dita chegada da democracia, em 1991. Inicialmente como um puto crurioso e, a partir de 2011, com pesquisador. De todas as que pude seguir, tenho para mim que, pelo menos na Praia, este último foi assim uma coisa muita má. O vazio do discurso na Fazenda e o vazio do discurso e de moldura urbana na Várzea, no fecho da coisa, obriga-me a aventar a questão se já não entramos numa era de crise de políticos em Cabo Verde. Por mais que a palavra FAIMO eleitoral seja assim uma coisa sexy (e uma boa desculpa para inglês ver), o que a malta ainda não entendeu é que por mais que a teatralidade é bonita, o pessoal cansa.  

[Imagem recuperada na net]

28/08/2016

Campanha eleitoral e "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana

Diz-nos a literatura especializada que a reforma eleitoral que inaugurou a era da política de massas transformou a política num negócio mais dispendioso e lucrativo. Diz-nos a literatura especializada que a Camorra, assim como uma boa parte dos sindicatos do crime no Brasil, EUA, África do Sul e noutras partes do mundo (incluindo a Europa dita civilizada), consolidaram-se nas prisões, resultado das políticas repressivas que proporcionaram o encontro de simples delinquentes locais com revolucionários patriotas. Diz-nos a literatura especializada que a Picciotteria, a facção primitiva da 'Ndrangheta, assim como a Cosa Nostra, inauguraram a relação violenta, corrupta e lucrativa entre criminosos, altos funcionários públicos e políticos da esquerda e da direita conservadora e liberal (e não só da esquerda, como se quer fazer passar por estas bandas). Aliás, um dos nomes com que a Máfia italiana foi inicialmente identificada era precisamente, o Partido.  

Diz-nos os factos, que em Cabo Verde, no dia 6 de Feverreiro de 2011, dia do voto nas eleições legislativas, houve ameaças e tirroteios nas imediações do local do voto, no Paiol, entre gangues de rua ligados ao PAICV e MPD, a culminar dias de tensão neste bairro e suas imediações territoriais entre grupo de activistas dos dois partidos, resultante da colocação no local de um outdoor de campanha com a famosa frase dita por Carlos Veiga, no debate televisivo com Zemas, "escreveu ou não escreveu". Sendo este o alto mais controverso da relação em época eleitoral entre partidos políticos (ou dos seus activistas) e gangues de rua (ou do crime organizado noutras paragens) nas ilhas, o assunto suscitou inúmeras conversas em vários espaços de convívio, havendo relatos da utilização sistemática de grupos armados pelos "homens de bem" ao longo da história do país, bem como noutras regiões do arquipélago pós-colonial. A título de exemplo, um ano mais tarde do caso do Paiol, nas eleições autârquicas de 2012, na cidade dos Mosteiros, houve acusações mútuas dos dois maiores partidos políticos do país sobre a utilização de gangues de rua da Praia (por parte do MPD) e de jovens deportados dos EUA (por parte do PAICV) como arma de intimidação eleitoral.   

Isto tudo para dizer que em relação ao mais recente acontecimento eleitoral na ilha do Fogo (aqui e aqui), para além de revelar uma espécie de amnésia histórica político-partidária e colectiva, o que não quer dizer que tem algo a ver com o assunto apontado em riba, indica que nestas coisas de "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana, o buraco é bem mais em baixo. 


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21/08/2016

Cabo Verde e as desigualdades sociais

Entre o país da ilusão herdado do partido tambarina e a promessa do país de felecidade avançado pelo partido rabentola, o que importa neste momento é o país real apresentado nesta trilogia de reportagens sobre as desigualdades sociais, assinada pela jornalista Chissana Magalhães, no Expresso das Ilhas: 1) o desafio que persiste; 2) movimentos de denúncia e contestação; 3) ter ou não ter.

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