06/08/2015

Korrenti ativizta e as políticas de ocupação

Processo contestatário bem ou mal conduzido, o que interessa é que a acção directa do Korrenti Ativizta demonstrou a incoerência ideológica de alguns e colocou o empreendimento do Chow no centro do debate público. Coisa aliás que a comunicação social deveria já ter promovido há algum tempo, até porque, o povo não foi ouvido num assunto que irá transformar por completo a paisagem e o quotidiano da cidade capital. Para além disso, obriga a discutir o bloqueio de um outro projecto, quanto a mim mais sustentável, cujo memorando de entendimento tinha sido assinado depois de milhares de contos gastos em estudos solicitados. Este vir agora todo emotivo falar de afugentar investidores quando conhece bem os meandros do outro projecto, que certamente irá custar aos nossos bolsos milhares de contos em indemnizações é, no mínimo, politicamente muito amador. Fora os rasgos ditatoriais que deixa transparecer. Pelo menos lembrou que Djéu é um espaço público (e de facto ainda é) e, portanto, qualquer cidadão ou grupo pode lá estar o tempo que bem entender. Acampar ou manifestar no espaço público, que eu saiba, ainda não foi proibido, a não ser que regressamos aos tempos da velha senhora e esqueceram de me avisar.

O que ninguém se lembra é que o movimento Korrenti não só nasceu nos corredores do poder institucional como foi por ela legitimada. A sua política de ocupação teve início em 2013, como resultado dos desencontros entre as promessas políticas e práticas governativas e as consecutivas falhas na execução de políticas sociais inclusivas, tanto a nível local como nacional. A primeira ocupação, o Pelourinho, no bairro Achada Grande Frente, foi protegido pelo Ministério da Cultura e, no ano passado, depois da ocupação do antigo balneário e esplanada do bairro Lém Ferreira, rebaptizado como Finka Pé, viu o trabalho comunitário desenvolvido reconhecido pela Câmara Municipal da Praia, com o qual, através da Associação Pelourinho, em que a Korrenti diz ser braço político, assinou um protocolo de parceria, prometendo financiar com cinquenta mil escudos mensais os projectos comunitários nesses dois bairros.

O movimento foi criado em Janeiro de 2013, na sequência da política de pacificação referida aqui, inspirado, por um lado, pela visão do Cabral enquanto ícone e, por outro, pelo Fora do Eixo. Este último possibilitado pelo intercâmbio promovido pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde que levou ao Brasil o agora seu líder e trouxe para Cabo Verde uma dezena de activistas do Fora do Eixo. Através do Projecto Sementi, mãe biológica do movimento, ganharam o último Prémio Nacional dos Direitos Humanos, na categoria Combate à Violência e Promoção da Cultura da Paz, prémio esse financiado pelo Escritório Regional da UNESCO situado em Dakar. Em 2014 foram financiados pelo Ministério da Administração Interna no âmbito da Campanha Nacional de Entrega de Armas e foram escolhidos pela ONU como um dos grupos acolhedores das acções da ONG brasileira AfroRaggae na Praia. Nestes dois anos em actividade fizeram parcerias com inúmeras ONG's e instituições públicas cabo-verdianas dos quais receberam menções de reconhecimento, e um suposto financiamento da Embaixada dos Estados Unidos da América a um dos seus projectos.

Pode-se concordar ou não com a ocupação e reivindicação do movimento mas ela e tão legítima e democrática como qualquer outra e pensar que este assunto é um falso problema é não ter mesmo nenhuma noção da realidade que nos rodeia. Mas o mais preocupante de tudo é a apropriação por parte da dita sociedade civil do termo agentes bloqueadores do desenvolvimento, que mais faz lembrar os anos de 1980.

[Imagem da ocupação do Djeu de Santa Maria, Praia]

03/08/2015

Da dessincronização do país

Hoje, em conversa com um amigo, ficou patente que enquanto Zemas faz o discurso de transformação na inauguração do Data Center da Achada Grande Frente, na Escola Básica do Lavadouro a degradação é marca registada, a ELECTRA não tem capacidade sequer de colocar um contador de electricidade num apartamento e os TACV é aquela lenga-lenga de sempre. O que fica é que daqui a uns 10 ou 15 anos, quando se falar de criminalidade organizada, tanto a situação como a oposição hão-de se lembrar do dia em que estenderam o tapete vermelho a uma das máfias mais perigosas do mundo.

[Na imagem parte da obra Mind Devour de Sebastian Eriksson, 2011]

01/08/2015

Estado da Nação by Gol Wayne

O novo mixtape de Gol Wayne resume nas músicas "Escravatura Moderna" e "País D'Hipocresia" o real Estado da Nação. Quanto a mim, o melhor álbum de rap feito em Cabo Verde este ano.  

Download aqui. Vídeo promocional aqui.

[Na imagem Escravatura Moderna de Gol Wayne]

30/07/2015

Do optimismo trágico... parte II

Em Janeiro de 2015 a arquitecta Andréia Mossab esteve no extinto Ciclo de Seminários de Investigação, no ISCJS, e o assunto do Djéu surgiu como mais um exemplo de aberrações megalómanas apresentadas naquele que um dia foi sonhado como o Japão de África.

Sobre o casino em si, experiências outras mostram que será direccionado para as excentricidades dos endinheirados asiáticos e europeus e mais um espaço de masturbação simbólica para a classe dos novíssimos ricos cabo-verdianos. Igualmente mostram que existe fortes probabilidades de este vir a ser mais uma lavandaria do crime organizado internacional. Mas sobre este assunto recomendo a leitura de, entre outros, Lydia Cacho e Misha Glenny.

Por detrás da oportunidade de criação de mais subempregos e do glamour da maquete em riba, o certo é que relatórios do tipo, em matéria de escravatura laboral e sexual, no futuro, será bem mais duro para Cabo Verde (ler a partir da página 109). Em relação ao pessoal que agora despertou, mais "désobéissance civile" se faz favor e atenção que esta posta foi escrita já lá vai quase dois meses.

Adenda: Espaço Público da RCV, em Fevereiro último.

[Na imagem maquete do projecto do senhor Chow roubado algures no facebook]

22/07/2015

Artigos publicados na Africa Media Review e CEI-IUL

Publicado na Africa Media Review o artigo "As questões dos Direitos Humanos na imprensa escrita cabo-verdiana entre 2008 e 2009: os casos dos jornais A Semana e Expresso das Ilhas", escrito em 2011, complemento deste outro, produzidos a partir do projecto de pesquisa comparativa sobre a cobertura das questões dos Direitos Humanos pela imprensa escrita em Moçambique, Angola, Guiné Bissau e Cabo Verde, financiado pelo CODESRIA, entre 2011 e 2012. No mesmo dia em que o CEI-IUL publica o ebook "Media freedom and right to information in Africa", editado por Luca Bussotti, Miguel de Barros e Tilo Grätz, contendo o artigo "A imprensa escrita e a cobertura dos conflitos entre gangues de rua em Cabo Verde", base da minha apresentação no 5th European Conference on African Studies, em 2013, em Lisboa.      

[Na imagem capa do ebook Media Freedom and Right to Information in Africa, 2015]