20/04/2015

Dia de luta e de reflexão

O objectivo seria sair à rua no ano passado, na sequência do protesto de 20 de Janeiro. Contudo, para variar, a "partidite crónica" colocou os dois maiores centrais sindicais do país em desacordo. Não houve nem ocupação da rua no primeiro de Maio nem greve dos dois dias marcados para o final de Abril. Para este ano, again, a UNTC-CS tem como pretensão colocar na agenda nacional o primeiro de Maio como dia de luta e de reflexão, como acontece em toda a parte do mundo. O reforço veio com o nome MAC#114, marca ainda bem cotada na bolsa das atenções, e espera-se que o protesto seja também contra o emergente estado de orgasmo simbólico, poucos dias depois da confirmação governamental de que vivemos numa sociedade de cunhas... e a hora é de espreita a ver se não será um "cunhado" a sentar na cadeira de poder na agência da coisa.

[Na imagem Revolta dos Foleiros. Foto de Maky Silva]

06/04/2015

De 7 de Outubro de 2011 a 30 de Março de 2015

Existe por aqui uma espécie de política de esquecimento, sobretudo no sector da comunicação social (e dos analistas de plantão). Para lá do mérito da MAC#114 no chamamento para este último protesto e da tentativa de partidarização do mesmo (que nas ruas estiveram pessoas de vários quandrantes sociais e ideológicos), convém não esquecer que em Outubro de 2011, um grupo de jovens sem cara conseguiu colocar nas ruas da Praia cerca de 2000 pessoas a protestar contra a má gestão da crise energética no país. Nem a Associação Pró-Praia conseguiu tanto. É verdade que o sucesso do mesmo deveu-se, em parte, à luta interna no PAICV, fazendo com que o defunto Movimento de Cidadania, criado no interior do partido amarelo, tivesse aderido em massa. Como na altura o visado era o Governo liderado por Zemas, ninguém no MPD piou sobre uma suposta influência dessa ala amarela. A comunicação social estava mais interessada no que acontecia lá para as bandas dos Ocuppy e Indignados (já que o visado era o papai), e o A Semana conseguiu encontrar na parada à frente da casa do Primeiro-Ministro um grupo de "thugs" armados. 

O problema da falta de luz pouco-a-pouco foi melhorando, embora teve novo surto algures em 2014, mas Humberto Brito continuou a desgovernar o seu ministério. Um ano mais tarde, no bairro de Tira Chapéu, a Associação Quilombo protestou contra a construção daquilo que chamaram de "Casa Para Alguns", tendo José Maria Neves afirmado ter ficado bastante satisfeito com o protesto juvenil. Recebeu a malta de Tira Chapéu no seu gabinete, prometeu entregar o espaço do rés-de-chão do edifício às associações comunitárias para fins sociais e como só Zemas sabe fazer, deu o dito pelo não dito pouco tempo depois. 

Se o primeiro protesto não foi partidarizado, embora a questão partidária tivesse peso no seu sucesso momentâneo, o segundo foi completamente partidarizado, na medida em que os jovens foram acusados pelos simpatizantes e militantes do PAICV como estando a mando do MPD, embora, posteriormente, por terem posicionado contra uma decisão camarária, foram automaticamente associados ao PAICV. O primeiro foi espontâneo, coisas típicas do facebook, mas o segundo foi premeditado, embora na última hora houve uma espécie de traição de "pé de galos" de outras comunidades. Faltou em ambos um projecto (ou uma agenda). 

De 2011 para cá (para não irmos mais atrás) tem havido vários protestos, de todos os tipos, um pouco por todo o lado, e de facto, no dia 30 de Março houve vários colectivos espontâneos que aderiram à coisa. Pessoalmente identifiquei, além da MAC, uns sete e o seu sucesso momentâneo (que espera-se continuar) deve-se a três momentos indissosiáveis: a incapacidade da classe política em fazer uma leitura diacrónica do descontentamento popular em relação à sua má prestação, que culminou no gatilho por ela accionada com a aprovação da coisa; que levou a que os discursos ocultos dos cidadãos transformassem em discursos públicos; por sua vez favorecidos, de novo, pela conjuntura política no PAICV. 

Logo no dia 27, houve um pequeno ensaio, que embora veio a se saber depois que foi mobilizado pelo JPAI, a maioria que lá apareceu, fê-lo por convicção política e não partidária, tendo inclusive vaiado a chefe do partido (avaliada negativamente pelos dados do Afrobarometer, embora isto tenha escapado à comunicação social, bem como aos analistas de plantão), para descontentamento dos seus seguidores. Ficou claro nesse dia que a mobilização do dia 30 de Março promovida pela MAC só não teria impacto caso fosse declarado Estado de Sítio. Contudo, nem os mais optimistas estariam à espera de cerca de cinco mil pessoas nas ruas, em simultâneo, nas quatro maiores cidades do país (seguidos posteriormente pela população da Boa Vista e Fogo). A UNTCS-CS até conseguiu isso no ano passado, mas interferências partidárias (ou pressões) fez com que as duas maiores organizações sindicais do país tivessem desmobilizado os trabalhadores.

03/04/2015

"Povu na Poder" by Hélio Batalha

No prelo encontra-se um artigo meu sobre as lógicas de desafiar a mudança a partir das "periferias", numa sociedade em (i)mobilização, em que a partir dos rappers da Zona Ponta (Ponta D'Água), mais precisamente Pex e Hélio Batalha, busco reflectir sobre a infrapolítica e os discursos ocultos (James Scott), as linguagens subalternas (Jean-Marc Ela), as continuidades coloniais (Achille Mbembe e Odair Barros Varela), a cultura política (Leão de Pina) e a letargia da sociedade civil (Suzano Costa).

Ouvi "Povu na Poder" (inspirada em "Povo no Poder" de Azagaia) pela primeira vez no lançamento do livro sobre o hip-hop brasileiro (Andreia Moassab), em Jeneiro último, no espaço "Triseru Mundu", em Lém Cachorro, e uma segunda vez, no dia 28 de Março, na Livraria Pedro Cardoso, numa conversa à volta da cultura hip-hop em Cabo Vede. Tal como já escrevi noutros espaços, o rap cabo-verdiano tem-se constituido nos últimos tempos como uma voz subalterna e um discurso oculto de uma boa parte de jovens e a história tem indicado que esse tipo de discurso quando assumido pela população no espaço público poderá desencadear-se em protestos de massa. Ver o caso moçambicano em 2010, na chamada Revolta do Pão.

Se, por um lado, a tentativa forçada de encostar o protesto de 30 de Março a uma facção do PAICV reforça a tese de partidarização da sociedade cabo-verdiana, por outro, percebé-lo como uma continuidade de acções de determinados agrupamentos juvenis em alguns bairros da Praia, mobilizando aquilo que Ulrich Beck chamou de subpolítica, para lá de mostrar um total desconhecimento empírico do quotidiano juvenil nos "bairros", evidencia um conhecimento teórico muito básico em matéria do estudo das juventude(s) e das recentes formas de protesto em África.

[Na imagem capa do single Povu na Poder de Hélio Batalha].

Afinal, o barril de pólvora existe...


Olhando para o cenário sociopolítico oito meses depois, os últimos dados do Afrobarometer mostram que os cabo-verdianos estão pessimistas em relação à situação ecnómica do país, tendo a situação piorado nos últimos doze meses. O desemprego (72%) é a maior preocupação, seguido pelo crime e segurança (38%) e pobreza (25%). A falta de alimento/fome é percepcionado como um dos dez principais problemas do país. A coorporação policial é a instituição percepcionada como a mais corrupta, seguida dos funcionários públicos, Primeiro-Ministro e funcionários do seu gabinete e funcionários das finanças. Os deputados nacionais surgem no sexto posto das instituições percepcionadas como a mais corrupta do país. 73% dos inquiridos acham que os líderes dos partidos políticos estão mais interessados em servir as suas próprias ambições políticas. O governo é mal avaliado em relação ao combate na redução do crime, luta contra a corrupção no seu seio, criação de emprego, melhoria da condição de vida dos pobres e redução da desigualdade social. Os cabo-verdianos confiam menos no PAICV (39%), nos partidos da oposição (42%), no PM (47%) e no Presidente da República (57%).

Em suma, para o cabo-verdiano o país encontra-se em recessão económica, a corrupção institucionalizou-se, as instituições públicas não funcionam, os políticos só pensam no seu bolso e o governo tem falhado nos sectores cruciais, como são os sectores sociais e de fiscalização.

José Maria Neves recebido com protestos na Boa Vista. Afinal, o barril de pólvora existe, escreve o jornal A Voz...

[Na imagem A Voz de 3 de Abril de 2015]

02/04/2015

Os foleiros saíram à rua... parte II

Ao contrário dos achados da sociologia fast-food cabo-verdiana, tenho para mim que a apatia é a marca deste povo. Só que como quase tudo na vida, a apatia também tem limites. A abertura, para lá da chamada terceira vaga democrática, teve igualmente lugar porque os analistas sociais de então, autores do famoso inquérito de medição da satisfação do povo em relação ao partido-Estado, não levaram em consideração os discursos ocultos dos cabo-verdianos. Digo o mesmo em relação à manif de 30 de Março, o terceiro (na sequência de 13 e 20 de Janeiro).

Gil Scott Heron cantou nos anos de 1970 que as revoltas não são televisionadas, elas acontecem. Nos últimos tempos, estes discursos ocultos poderiam ser encontrados nas narrativas dos rappers, na escrita dos bloggers (convém não esquecer o papel do Blogjoint Project em 2009), nos cafés e bares, expressada em opiniões nos jornais, em vários artigos académicos e mais recentemente no Facebook. James Scott, antropólogo, cientista político e anarquista, argumentou, nos anos de 1990, que se olharmos com atenção para a história da dominação e resistência no mundo, concluímos que havendo um gatilho (a aprovação da coisa nesta conjuntura) e um grupo a dar o primeiro passo (MAC#114), a revolta acontece. Foi assim no passado santiaguense (e cabo-verdiano)... afinal, continuamos sentados num barril de pólvora.  

A tese da partidarização e institucionalização da sociedade civil é válida. O discurso dos dois partidos (e do governo) sobre uma eventual partidarização da manif a indicia. Em relação a esse ponto, o Djumbai Libertariu de 21 de Março é elucidativo... e oportunismos sempre existiram em momentos destes (o cenário de luta interna nos amarelos surge como uma importante dimensão de análise a explorar pelos politólogos). O que fica é que os foleiros saíram à rua e como anarquista foleiro estou que nem a Keny Arkana: "Indignados" para a rua em modo "Désobéissance Civile" (ignorantes daqueles que perceberem nisto uma apologia à violência).     

[Imagem da MAC#114]