20/01/2019

Uma Semana da República memorável


"Na quarta passada mais de quinhentas pessoas assistiam, em direto pela televisão, á partida Sporting-Inter, na rua 5 de Julho, quando foram surpreendidos pela polícia de choque - que já fez dois belos testes em tão curto espaço de tempo" - excerto de texto de Vadinho Velhinho, publicado no dia 11 de maio de 1991, relatando a operação policial no ano inaugural do país dito democrático.

As continuidades coloniais podem ser encontradas em vários tipos de manifestações populares no quotidiano das ilhas, contudo, há momentos que, pelo seu poder simbólico, dizem tudo sobre o Estado da Nação pós-colonial cabo-verdiano. Naquilo que institucionalmente se passou a chamar Semana da República, mais de 43 anos depois da independência jurídica e 28 anos depois do corte umbilical simbólico com África, aquela coisa de liberdade de expressão (também participação e afins) volta a ser institucionalmente violentada. 

Primeiro ato: no dia 13 de janeiro, a censura do quadro de Tchalé Figueira na exposição coletiva da Assembleia Nacional sob o pretexto de ter conteúdo pornográfico. O mesmo lugar frequentado por uma das classes mais socialmente pornográficas do país. Aliás, o seu lugar natural. 

Segundo ato: no dia 20 de janeiro, o bloqueio policial e militar ao memorial de Cabral à Marxa Cabral, uma manifestação política, cultural e juvenil que desde 2010 (retomado em 2013) tem aproveitado o dia dito dos Heróis Nacionais para homenagear uma das figuras maiores de luta anti-colonial cabo-verdiana. Este ano, o fenômeno da xenofobia contra os africanos do continente foi o tema escolhido. O bloqueio, segundo consta. deveu-se à presença naquele momento dos pretendentes à nobreza local no memorial, supostamente prestando homenagem àquele que alguns deles consideram uma fraude. O que eu acho é que qualquer classe política que faz uso de bloqueios bélicos para os separar do povo está a dar fortes sinais de ser uma classe desacreditada. Por outro lado, mostra o quão divorciado a malta em processo de "enobrezamento" se encontra do povo, sobretudo aquela representada por jovens fora da bússola institucional e/ou político-partidária. 

Contudo, o momento alto do pontapé na Constituição foi o bloqueio policial de acesso à Praça Alexandre Albuquerque (nos primeiros tempos do país pós-independente Praça 12 de Setembro), curiosamente, na rua 5 de Julho, segundo consta, por ordens superiores. 

Há quem insista na ideia de que o colonialismo morreu em 1975, entretanto, este, como tantos outros momentos quotidianos nas ilhas, mostram que tanto a ditadura como o seu pai colonialismo mudaram apenas de forma e de atores. Que eu saiba, a última vez que a Praça Grande do Plateau foi vedada a uma manifestação política, cultural ou juvenil anti-sistema (devidamente autorizado) Cabo Verde era ainda uma Colônia Ultramarina Portuguesa. 

[Imagem apanhada no mural de Oracy Cruz]

12/01/2019

Dinâmicas do Desenvolvimento em África - Crescimento, Emprego e Desigualdade 2018

Os dados apresentados pelo relatório sobre Dinâmicas do Desenvolvimento em África - Crescimento, Emprego e Desigualdade 2018, complementado pela análise dos dados do INE, permite constatar que para além de Cabo Verde ter índices de desigualdade (em termos de rendimentos) superior à média registada nos países da costa ocidental africana, em 2016 encontrava-se na primeira posição dos 4 países da sub-região com rácios da dívida superiores ao critério da convergência (129% do PIB), o que coloca em causa a sustentabilidade do investimento público a médio prazo. 

De forma geral, o documento mostra que não obstante um crescimento econômico acentuado em África, sobretudo na sub-região onde estamos (des)integrados, esse crescimento não proporcionou emprego suficiente, tendo aumentado a desigualdade. Cabo Verde, como é evidente, segue esta tendência, sobretudo no que tange à consolidação da precariedade laboral. Igualmente, não obstante a retórica institucional e institucionalizante do bodona em África e arredores, o que se verifica é que o país não faz parte dos considerados exemplos de desenvolvimento nos padrões do BM e do FMI.  

[Imagem sacada na net]

11/01/2019

Afroeuropeans 2019

Entre 4 e 6 de julho de 2019, acadêmicos, ativistas e artistas estarão reunidos no ISCTE-IUL, no 7th Bienal Afroeuropeans Network Conference, em que sob o tema Black In/Visilities Contested se (re)abre um campo de reflexão e discussão transdisciplinar sobre racismo, identidade e cultura negra na Europa. Coordenado em parceria com Livia Jiménez Sedano e Frank Marcon, Music and dance as forms of contesting hegemonic knowledge and power for the African diaspora living in Europe será um dos painéis do encontro. 

Os papers podem ser submetidos até o dia 28 de fevereiro de 2019.   

08/01/2019

Burkinabè Rising: The Art of Resistence in Burkina Faso

Burkinabè Rising: The Art of Resistence in Burkina Faso (2017). Realizado por Iara Lee, melhor documentário longa metragem no Plateau - Festival International de Cinema 2018, o filme retrata os acontecimentos de outubro de 2014 na terra dos homens íntegros, liderados pelos auto-denominados filhos de Sankara, naquilo que pode ser considerado como um dos episódios do (re)acordar africano. 

04/01/2019

Tem sido um começo de ano profícuo em matéria de esquisitices

No Brasil, o novo governo bolsonarista, com vários adeptos por estas bandas, diz que vai combater a ideologia de gênero, visto que "menino veste azul, menina veste rosa" (precisamente por esta ordem). Por outro lado, ameaça despedir todos os funcionários do Estado que sejam socialistas ou comunistas, de modo a evitar que a nova política "não ideológica" do governo seja bloqueada, assim como afirma acabar com o Tribunal de Trabalho, uma vez que "não faz sentido ter direitos se não houver trabalho". A não ser que o conceito ideologia foi redefinido, se isto não é ideologia, não sei o que mais pode ser considerado ideologia. 

Em Portugal, um programa televisivo de entretenimento, sob a pretexto de liberdade de expressão, convida um criminoso e um dos líderes de um movimento que tem no seu historial variadíssimas agressões racistas e vários crimes, participante ativo nos ataques de 10 de junho de 1995, que resultou na morte de um cidadão negro português, para vir dizer que Salazar era um tipo fixe e que faz falta.

Por cá, o movimento Sokols, que pessoalmente não me aquece nem arrefece, vê o abaixo-assinado a exigir voos da CV Airlines para São Vicente, subscrito por cerca de 1500 assinaturas, a ser recusado pelo governo. Isto no país exemplo em África e arredores em matéria de democracia e afins.   

Tem sido um começo de ano profícuo em matéria de esquisitices, numa era por si só esquisita.

Adenda: e a Senhora Ministra brasileira que também é Pastora Evangélica veio se justificar com a seguinte pérola: "então quando eu disse que menina veste cor de rosa e menino veste azul, é que nós vamos estar respeitando a identidade biológica das crianças". 

[Imagem apanhada na net]

01/01/2019

"É melhor morrer de pé do que viver de joelhos" - Emiliano Zapata

Manuel Castells considerou-os o primeiro movimento de guerrilha informacional. Inspirados na história e nas ações de Emiliano Zapata, no dia 1 de janeiro de 1994, data que marcou o início de vigência do acordo Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA), o Ejercito Zapatista de Liberacíon Nacional (EZLN), constituído por populações indígenas oriundos de diversos grupos étnicos, alguns mestiços a intelectuais de origem urbana, fracamente armados, assumiram o controlo das principais cidades adjacentes à floresta de Lacandon, no Estado mexicano de Chiapas, região sul do México. 

35 anos de exército Zapatista e 25 anos de insurreição; "tudo é impossível na véspera"

Séculos antes, a 1 de janeiro de 1804, o Haiti tinha-se tornado na primeira Nação negra independente, sob a liderança de Toussaint Louverture.

Adenda: Igualmente, no dia 1 de janeiro de 1959, o ditador cubano Fulgencio Batista foi destituído pelo movimento armado e guerrilheiro liderado por Fidel Castro, dando início à institucionalização daquilo que ficou conhecido como Revolução Cubana.

[Imagem sacada na net]

30/12/2018

Rewind | 2018

Na virada do ano, momento de relembrar as publicações em 2018:
E comunicações em eventos científicos internacionais:
  • "Street soldjas: uma (re)leitura do pensamento de Cabral a partir das narrativas dos jovens em situação de marginalidade em Cabo Verde", no Amílcar Cabral: o "Combatente Anônimo" pelos Direitos Fundamentais da Humanidade - Conferência Internacional, na FCSH-UNL; 
  • "Jovens e processos identitários no contexto urbano cabo-verdiano: uma discussão a partir das organizações juvenis de rua na cidade da Praia", no X Congresso Português de Sociologia, na Universidade da Beira Interior;
  • Jovens, políticas públicas e organizações de rua: uma releitura teórico-empírica dos grupos de jovens armados em Cabo Verde", no RCSL/SDJ Annual Meeting - Law and Citizenship Beyond the States, no ISCTE-IUL;
  • "'Oji ten sprimentada mola': aspetos episte-metodológicos sobre o estudo de grupos de homens armados na cidade da Praia, Cabo Verde", no In_Progress 3: Seminário Internacional sobre Ciências Sociais e Desenvolvimento em África, no ISEG-ULisboa;
  • "Jovens, processos identitários e sociedades em movimento: um olhar sócio-antropológico sobre os movimentos juvenis urbanos na Praia", no 15éme Assemblée Générale du CODESRIA, no King Fahd Hotel de Dakar.  
[Imagem de RWL, 2018]

26/12/2018

Da segregação das oportunidades


O problema em Cabo Verde de há uns anos para cá não é a falta de emprego, mas a sua segregação. Portanto, uma política de emprego que se quer que seja ativa passa obrigatoriamente pela decisão governamental em acabar com a orgia laboral da malta com dois contratos a tempo inteiro (um deles no Estado) e daqueles que não obstante a reforma "dourada" (do Estado), ocupam com contratos "dourados" espaços (nalguns casos ligados ao Estado) que outros igual ou melhor formados poderiam estar a ocupar.

Isto sim seria um bom começo...

20/12/2018

IUAES Inter-Congress 2019, World Solidarities

Coordenado em parceria com Peter Anton Zoettl, Crime as solidarity: youth marginality, youth violence and youth in prison será um dos painéis do Congresso da União Internacional das Ciências Antropológicas e Etnológicas, a ter lugar no Adam Micklwicz University, em Poznan, na Polónia, entre os dias 27 e 31 de agosto de 2019.

Os papers podem ser submetidos aqui até o dia 25 de fevereiro de 2019. 

[Na imagem um dos cartazes de divulgação do evento]

15/12/2018

Das singularidades às semelhanças identitárias

Em 2017, fiz duas viagens para São Tomé e Príncipe no âmbito de uma consultoria internacional sobre a população juvenil, encomendado pela UNICEF e, na altura, a grande discussão política nesse arquipélago andava à volta da "Conferência dos Parceiros ao Desenvolvimento" realizado em Londres, em outubro de 2015, integrado nas atividades da Agenda de Transformação no Horizonte 2030. Depois dos milhões gastos em strip tease diplomático (que também pode ser designado de turismo governamental), na prática, o empobrecimento da esmagadora maioria da população era visível e os milhões prometidos no tal encontro com os pontas de lança do eterno parceiro de subdesenvolvimento do continente continuavam encalhados. Um dos momentos posteriores viu-se este ano...

Por aqui, para lá do discurso institucional importado "do povo singular na maneira de ser, agir e pensar" reproduzido por uns tantos estudiosos da identidade cabo-verdiana, a realidade que nos bate à frende não tem nada de diferente com os ventos que sopram dos contextos que tanto queremos nos distanciar. 

Paris: Conferência Internacional de Doadores e Investimentos mobiliza 850 milhões de euros

12/12/2018

Da situação real do país (de ontem e de hoje)

O que há a dizer é que salvo algumas poucas excepções, o grande problema em Cabo Verde tanto em instituições públicas como privadas (e em algumas instituições internacionais a atuar no país que, na prática, estão mais voltadas para a promoção de políticas de subdesenvolvimento e confundem diplomacia pública com carnaval) é de liderança e de atitude na tomada de decisões, em parte, devido a uma certa monopolização na figura do "chefe" herdado do período colonial... e da perda de tempo em reuniões e representações institucionais como forma de sustentar a indústria do coffe breack que, na prática, resultam num oceano de nada e improdutividade institucional. Sem falar da segregação das competências que, junto com a segregação das oportunidades promovidas institucionalmente, tem amputado a vida de uma grande parte da juventude em particular e da população em geral. 

[Na imagem "O Leviatã". Autor desconhecido]

08/12/2018

15ª Assembleia Geral do CODESRIA, 17-21 dezembro 2018

Jovens, processos identitários e sociedades em movimento: um olhar sócio-antropológico sobre os movimentos juvenis urbanos na Praia, Cabo Verde será o título da minha comunicação na 15ª Assembleia Geral do CODESRIA, entre os dias 17 e 21, em Dakar, no Senegal, sob o tema África e crise da globalização

Adenda: livro de resumos.

[Na imagem cartaz do encontro]

02/12/2018

Nós e os discursos de conveniência

Apesar do desejo do primeiro-ministro, o que se constata é que Cabo Verde ainda é e vai continuar a ser nos próximos tempos um país repulsivo, principalmente para os cabo-verdianos. O grande desafio governamental, a meu ver, será responder a seguinte questão: como um país que nem sequer tem a capacidade de aproveitar as competências que cá estão (ou melhor dito, um país que tem a capacidade de segregar competências e oportunidades), devido à institucionalização dos esquemas clientelistas, pensa atrair competências da diáspora? E por falar em academia (se é que existe uma academia cabo-verdiana), o que há a dizer é que em tempos chegou ao país um quadro altamente formado e apesar de ter ficado por, pelo menos, duas vezes posicionado no topo dos ditos concursos públicos das instituições do ensino superior, foi ambas as vezes preterido por pessoas com competências bastante duvidosas, mas bastante bem conectadas. A solução foi re-imigrar... e este é apenas um de vários exemplos que não aparecem nas estatísticas oficiais. 

17/11/2018

Do USAID ao SOFA, passando pelos Corpos da Paz e a rede YALI

"O governo norte-americano é um dominador indireto excelente e habilidoso. Para fazer prevalecer os seus interesses energéticos, políticos e estratégicos Washington usa não só as manifestações do imperialismo clássico, como também implanta uma maquinaria diversificada, que vai desde a influência econômica até à presença militar e de segurança, através dos múltiplos discursos dos lugares-comuns universalistas: a preservação de paisagens e da biodiversidade, o desenvolvimento sustentável, a democracia, a boa governação e a promoção dos direitos humanos." - Pedro Baños, Asi se domina el Mundo, 2017. 

[Imagem apanhada na net]

14/11/2018

O programa nacional de saúde reprodutiva de Cabo Verde: alcances, limites e desafios

Publicado no Brasil, na revista Ciência & Saúde Coletiva, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, o artigo O programa nacional de saúde reprodutiva de Cabo Verde: alcances, limites e desafios, em parceria com Wilza Vieira Vilela e Cláudia Fernandes de Brito.

08/11/2018

_in progress 3

"'Oji ten sprimentada mola': aspetos episte-metodológicos sobre o estudo de grupos de homens armados na cidade da Praia, Cabo Verde" será o título da minha comunicação no _in progress 3: Seminário Internacional sobre Ciências Sociais e Desenvolvimento em África, que acontecerá entre os dias 15 e 16 de novembro, no ISEG - Lisbon School of Economics and Management/Universidade de Lisboa.

[Na imagem logotipo do seminário]

21/10/2018

Marginalidade territorial e inclusão

"'Violensia ben na txeia': marginalidade territorial e inclusão", publicado na última edição do Jornal A Nação, é o primeiro de uma série de pequenos artigos de opinião que comecei novamente a publicar em jornais impressos. Sem a pressão de ter publicações semanais ou quinzenais num ou noutro jornal, os artigos irão se debruçar sobre questões urbanas, culturas infanto-juvenis, cultura hip-hop, deportações, participação sociopolítica, gangues de rua e criminalidade organizada, temas que venho refletindo nos últimos anos em vários projetos de pesquisa e apresentando em vários encontros acadêmicos, bem como em reuniões de cariz social ou político tanto no país como no estrangeiro. 

[Na imagem Baía da Gamboa, Praia. Foto: RWL, 2017]

18/10/2018

A luta continua...

Embora é comum afirmar que a blogosfera cabo-verdiana sucumbiu perante o advento do facebook, sem descurar desse discurso, tenho para mim que a razão mais forte da sua entrada em coma foi a cooptação institucional e/ou político-partidário a partir de 2010 das suas vozes mais fraturantes. Pessoalmente sou de opinião que as postas do blogue, devido ao seu caráter permanente, ao contrário das postas do facebook, que possui um caráter mais efémero, funciona melhor como uma espécie de instrumento "situacionista" e é neste sentido que entendo a entrada do blogue A Luca Continua de Alexssandro Robalo, ativista do Movimento Federalista Pan-Africano, no que resta do universo blogosférico cabo-verdiano, com o objetivo de servir como uma plataforma pan-africana de reflexão e discussão política apartidária.