"Na quarta passada mais de quinhentas pessoas assistiam, em direto pela televisão, á partida Sporting-Inter, na rua 5 de Julho, quando foram surpreendidos pela polícia de choque - que já fez dois belos testes em tão curto espaço de tempo" - excerto de texto de Vadinho Velhinho, publicado no dia 11 de maio de 1991, relatando a operação policial no ano inaugural do país dito democrático.
As continuidades coloniais podem ser encontradas em vários tipos de manifestações populares no quotidiano das ilhas, contudo, há momentos que, pelo seu poder simbólico, dizem tudo sobre o Estado da Nação pós-colonial cabo-verdiano. Naquilo que institucionalmente se passou a chamar Semana da República, mais de 43 anos depois da independência jurídica e 28 anos depois do corte umbilical simbólico com África, aquela coisa de liberdade de expressão (também participação e afins) volta a ser institucionalmente violentada.
Primeiro ato: no dia 13 de janeiro, a censura do quadro de Tchalé Figueira na exposição coletiva da Assembleia Nacional sob o pretexto de ter conteúdo pornográfico. O mesmo lugar frequentado por uma das classes mais socialmente pornográficas do país. Aliás, o seu lugar natural.
Segundo ato: no dia 20 de janeiro, o bloqueio policial e militar ao memorial de Cabral à Marxa Cabral, uma manifestação política, cultural e juvenil que desde 2010 (retomado em 2013) tem aproveitado o dia dito dos Heróis Nacionais para homenagear uma das figuras maiores de luta anti-colonial cabo-verdiana. Este ano, o fenômeno da xenofobia contra os africanos do continente foi o tema escolhido. O bloqueio, segundo consta. deveu-se à presença naquele momento dos pretendentes à nobreza local no memorial, supostamente prestando homenagem àquele que alguns deles consideram uma fraude. O que eu acho é que qualquer classe política que faz uso de bloqueios bélicos para os separar do povo está a dar fortes sinais de ser uma classe desacreditada. Por outro lado, mostra o quão divorciado a malta em processo de "enobrezamento" se encontra do povo, sobretudo aquela representada por jovens fora da bússola institucional e/ou político-partidária.
Contudo, o momento alto do pontapé na Constituição foi o bloqueio policial de acesso à Praça Alexandre Albuquerque (nos primeiros tempos do país pós-independente Praça 12 de Setembro), curiosamente, na rua 5 de Julho, segundo consta, por ordens superiores.
Há quem insista na ideia de que o colonialismo morreu em 1975, entretanto, este, como tantos outros momentos quotidianos nas ilhas, mostram que tanto a ditadura como o seu pai colonialismo mudaram apenas de forma e de atores. Que eu saiba, a última vez que a Praça Grande do Plateau foi vedada a uma manifestação política, cultural ou juvenil anti-sistema (devidamente autorizado) Cabo Verde era ainda uma Colônia Ultramarina Portuguesa.
[Imagem apanhada no mural de Oracy Cruz]


















