13/01/2021

Nós e o 13 de janeiro

Normalmente se fala dos bastidores da "independência" e é bastante raro falar dos bastidores da "democracia". Da tentativa do bloqueio de uma ala do PAICV que curiosamente veio ser governo no início deste século e no erro da interpretação do partido-Estado de então que o silêncio popular era prova de aprovação ao regime. Sobre este último, um dos integrantes da equipa que realizou o estudo de opinião que, na altura, indicou que os cabo-verdianos estariam satisfeitos com a governação, afirmou certa vez que tal resultado não elucidava a perceção que tinha em alguns bairros da Praia, onde se denotava uma grande insatisfação para com o estado das coisas. 

James C. Scott aponta que nos regimes autoritários (ou de partidos-Estado) a resistência funciona por via da infrapolítica, ou seja, através de discursos ocultos. O 13 de janeiro de 1991 e o que ele representa foi o resultado prático deste mal-estar. Contudo, isto não quer dizer que o MpD é dono do 13 de janeiro. Se houver um dono, é o povo, seja lá qual for o significado disto. 

Infelizmente há uma geração bipolar em termos políticos, devido ao fato de vivermos num contexto em que a memória é higienizada e partidarizada. O certo é que se hoje gritamos nas redes sociais ou nas ruas, embora tal ato possa trazer algum tipo de represália e a maioria desse grito basear-se num qualquer tipo de ressentimento, sem o 13 de janeiro as consequências poderiam ser bem piores. 

[Foto: RWL, 2019]