22/12/2020

Mindelo e a metáfora da cidade partida

Visito Mindelo com bastante frequência desde 2009 e a partir do ano passado enquadrado em projetos de pesquisa e de intervenção. Torna-se evidente para quem dialoga com a imensa fralda urbana da ilha que ela encontra-se capturada por uma lógica morgadia com base no medo, em que a miséria é explorada sadicamente e os sonhos de milhares de gente trabalhadora, especialmente mulheres, tem sido feita refém. Uma violação constante do direito à terra reproduzida por uma política camarária de segregação, o que explica o porquê de Mindelo ser a capital das casas de tambor. Não porque, segundo alguns, os privilegiados de Santo Antão (ou de São Nicolau) vão para a Praia e os pobres vem para Mindelo, mas porque o Estado local tem sido ausente e negligente.    

Quando não se conhece a dita fralda, que representa cerca de 80% da cidade, difícil se poderá compreender, por exemplo, o resultado das eleições autárquicas. Como disse alguém, a diferença com Praia é que na capital o poder tirou comida de uma parte da população, enquanto que no Mindelo deu migalhas a uma população com uma já longa trajetória de exploração e subserviência. Migalhas essas que tem também mantido as suas elites refém do poder central, na mesma lógica morgadia que os mais pobres. Como consequência, uma parte delas especializaram-se na arte do ficar em cima do murro e do ativismo burguês de sofá da era das redes sociais, em que a discussão do país real é substituída pela do país abstrato e imaginário, acabando por reproduzir a mesma lógica colonial que dizem estar a descolonizar. 

[Foto: RWL, 2020]