31/12/2020

“Na noz zona, di noz manera i ritmo”: RACMS e novas formas de ativismo juvenil e comunitário na cidade da Praia

Do que conheço dos processos associativo e político de rua na capital cabo-verdiana, sobretudo nesta última década, basta que se evite leituras enviesadas e tendências autoritárias verificadas em iniciativas anteriores que está criada condições para se constituir um movimento societário de pressão que olhe o todo urbano de perto e de dentro e não apenas limitado pela lente político-partidária ou do eixo centro-sul da Praia. 

Texto completo no A Nação.

[Foto: Namsa Leuba, 2015]

22/12/2020

Mindelo e a metáfora da cidade partida

Visito Mindelo com bastante frequência desde 2009 e a partir do ano passado enquadrado em projetos de pesquisa e de intervenção. Torna-se evidente para quem dialoga com a imensa fralda urbana da ilha que ela encontra-se capturada por uma lógica morgadia com base no medo, em que a miséria é explorada sadicamente e os sonhos de milhares de gente trabalhadora, especialmente mulheres, tem sido feita refém. Uma violação constante do direito à terra reproduzida por uma política camarária de segregação, o que explica o porquê de Mindelo ser a capital das casas de tambor. Não porque, segundo alguns, os privilegiados de Santo Antão (ou de São Nicolau) vão para a Praia e os pobres vem para Mindelo, mas porque o Estado local tem sido ausente e negligente.    

Quando não se conhece a dita fralda, que representa cerca de 80% da cidade, difícil se poderá compreender, por exemplo, o resultado das eleições autárquicas. Como disse alguém, a diferença com Praia é que na capital o poder tirou comida de uma parte da população, enquanto que no Mindelo deu migalhas a uma população com uma já longa trajetória de exploração e subserviência. Migalhas essas que tem também mantido as suas elites refém do poder central, na mesma lógica morgadia que os mais pobres. Como consequência, uma parte delas especializaram-se na arte do ficar em cima do murro e do ativismo burguês de sofá da era das redes sociais, em que a discussão do país real é substituída pela do país abstrato e imaginário, acabando por reproduzir a mesma lógica colonial que dizem estar a descolonizar. 

[Foto: RWL, 2020]

13/12/2020

Da série "continuidades democráticas"

"O cidadão cabo-verdiano vive numa sociedade onde comentar os atos praticados pelos governantes e seus servidores, a menos para louvar, aprovar, exaltar, passou a ser entendida por muitos ilustres conterrâneos como um tipo de desobediência pública (...). Desobediência punível através de expedientes burocráticos sigilosos; coação psicológica, subtração de direitos, intriga política, omissões, retaliação, chantagem, não atendimento de pedidos, etc." (Adriano Pires, A Seca e os Outros Inimigos de Cabo Verde, 2010).    

[Foto: Adam Ferguson, 2018]