31/08/2020

Firmeza

Firmeza (2018). Dirigido por Paola Zerman, um excelente documentário sobre o rap mindelense e a sua capacidade empreendedora num país já por si só empreendedor. Contudo, como nos relata Sebastian Conrad, um dos autores da hoje chamada história global, "o mundo era geralmente construído a partir da perspectiva da sua própria comunidade. Isto significa, acima de tudo, que o passado - incluindo o passado de outros povos e grupos - era perspectivado e julgado de acordo com o cânone moral e político da sociedade do historiador". Portanto, afirmar que Mindelo é o berço do rap cabo-verdiano é assim um exercício bastante exagerado, mas completamente percebido e com muito sentido se olhado da ilha do Monte Cara. Afinal de contas, a realidade longe de ser uma totalidade nacional, "referia-se apenas ao mundo que importava", este subordinado aos parâmetros da perspectiva do relator.        

[Foto: Daido Moriyama, 2002]

27/08/2020

Da segregação das oportunidades

No estudo do perfil da juventude cabo-verdiana, ao cruzar os dados estatísticos com as informações qualitativas, recorrendo às dimensões de percurso pessoal, educação e formação, experiências de emprego e condições de trabalho, mobilidade entre empregos, situações de desemprego, articulação do trabalho e da vida privada e planos para o futuro, foi possível identificar e caracterizar os tipos de percurso referentes à esfera profissional juvenil, bem como dar conta das desigualdades históricas e estruturais que trespassa este segmento populacional.

Um dos percursos identificados é o que se pode designar de percurso de desenvolvimento profissional e integração forte. Aqueles jovens que tiveram situações de partida vantajosas para percorrer um trajecto escolar e social mais propício para uma melhor inserção no mercado de trabalho. Oriundos de famílias com capital económico, social, cultural ou político-partidário elevada e que obtiveram níveis de formação em áreas consideradas estratégicas, recebendo fortes estímulos por parte dos pais para a prossecução dos estudos. Ao finalizarem os estudos e com ou sem algumas experiências de emprego, integraram facilmente o mercado de trabalho, muitas vezes em cargos de responsabilidade pública ou privada ou em mais do que um emprego, conseguindo estabilidade profissional e com boas perspectivas de carreira. Têm condições e oportunidades para optarem entre diversas ofertas de bons empregos. 

Em termos gerais, salvas excepções, integram aqui também aqueles que fazem parte do grupo social que a historiografia cabo-verdiana designou de "filhos de"... neste caso específico "filhos do partido", seus senhores, que defendem vigorosamente, através do qual fazem do Estado a sua vaca leiteira. Entretanto, no alto da arrogância que o poleiro lhes proporciona, não percebem que não passam dos actuais bons idiotas.  

[Foto: Alex Prager, 2008]
 

18/08/2020

Licínio Lopes e a ideia da paz camuflada

Lembro-me de em 2014, no terceiro fórum internacional sobre segurança urbana, organizado pela CMP, ter feito esta comunicação. Na altura falava de estarmos perante uma paz criminosa e o pastor Licínio Lopes, protagonista desta elucidativa entrevista, falava de uma paz camuflada. Convergíamos na ideia de que colocar o foco apenas na repressão e não em políticas públicas inclusivas, sobretudo em alguns bairros da capital, não obstante algumas intervenções sociais paliativas e baseadas em pressupostos enviesados, era uma questão de tempo uma nova vaga ainda mais violenta. Afinal, sem justiça nunca poderá haver paz. O certo é que o biénio 2015-2016 bateu o recorde de ocorrências de crime e, sobretudo, de homicídios. 

Contudo, continuamos a insistir nos mesmos discursos eleitoralistas e negacionistas ilusionistas, carregados de boas doses de futilidades crónicas, desfilados por macacos e papagaios partidários com alguma responsabilidade social e política, completamente desfasados da realidade quotidiana do cidadão comum e do não cidadão.       

[Foto: Felipe Dana, 2016]

08/08/2020

Cabo Verde, rap e movimentos sociais

A discussão se o rap cabo-verdiano configura-se ou não como um movimento social não é de hoje e o que fica é o seu importante papel na mediação dos processos de paz no contexto da violência urbana e contributo no processo de transformação dos gangues em organizações de rua. Igualmente, por ter tornado público os discursos infrapolíticos contra o sistema de Estado-bipartidário pós-colonial nocivo aos interesses do cidadão comum, bem como ter servido de fundo sonoro das grandes movimentações de rua que marcaram o país nos últimos anos.   

Texto completo no Buala.

[Foto: Felipe Dana, 2019]