23/07/2020

Nós, as agendas do desenvolvimento e a continuidade discursiva colonialista

Há esta tendência acrítica de algumas pessoas e grupos usarem figuras negras como forma de levantar auto-estima do africano, ignorando o papel que muitas destas figuras tiveram no processo da colonização e manutenção da ideia de hierarquia racial. Booker T. Washington é uma dessas figuras, a quem W.E.B. Du Bois chamou certa vez de aristocrata negra. Aliás, é hoje conhecido a influência de Washington sobre Robert Park, o pai da Escola de Chicago e as razões por detrás da segregação intelectual do Du Bois na sociologia americana e europeia, sendo ele o autor da teoria da desorganização social desenvolvido 20 anos antes dos sociólogos de Chicago. 

As ideias defendidas por Washington, que mais não fazia do que reproduzir as teses sociológicas europeias, chamaram, por exemplo, a atenção dos burocratas e cientistas sociais alemãs que, admirados com o fato deste professor negro transmitir aos seus alunos negros do Tuskegee, instituto onde era director, a sua crença acerca da hierarquia natural das raças. Acreditava que com a abolição da escravatura seria necessário educar, primeiro, os negros americanos para uma vida cristã, de trabalho manual e de agricultura de pequena escala, de modo a que pudessem, com o tempo, adquirir a cidadania plena. As suas visões conservadoras acerca das relações sociais e raciais encontravam-se bem alinhadas com as ideias imperialistas e racistas europeias acerca do controlo e segregação, o que faria dos seus estudantes intermediários ideais para pôr em prática um projecto de modernização no Togo, na altura colónia alemã, sem que a ordem política e racial desse território fosse ameaçado. 

Como é evidente o projecto falhou redondamente, não por culpa de uma suposta ignorância étnico-racial dos nativos ou de uma suposta incompetência dos alunos do Tuskegee, mas devido à desadequação de soluções externas sem ter em devida atenção a realidade concreta do território onde se quis intervir. Foi o mesmo tipo de fórmula usada na colonização portuguesa em África, tendo nos cabo-verdianos os intermediários ideais, legitimados pelas teses de superioridade étnica e tecnológica europeia difundidos pelas gerações nativista e claridosa. Hoje, como é visível, legitimado pela geração dos novíssimos quadros que a todo o custo disputa a sua integração no projecto (neo)colonislista do norte, mas também do sul, disfarçado do slogan relação sul/sul.
         
[Foto: Omar Victor Diop, 2014]

11/07/2020

Praia Tudu Hora!

O Censo de 2010 indicava que 31,2% da população residente na cidade da Praia (dos que responderam este item) nasceu noutros concelhos. Destes, 18,6% nasceram em outros concelhos da ilha de Santiago (18,7% em São Domingos, 17,6% em Santa Catarina, 15,2% em São Lourenço dos Orgãos, 13,5% em Santa Cruz, 10,1% em São Salvador do Mundo, 9,6% em São Miguel; 6,1% na Ribeira Grande; 5,8% no Tarrafal), 14,7% na ilha do Fogo e 15,2% no conjunto das ilhas do Barlavento (7,2% em São Vicente, 5,7% em Santo Antão, 1,3% em São Nicolau, 0,9% no Sal). Infelizmente, os dados não permitem saber a origem dos residentes nascidos em outros países e, como é evidente, a divulgação dos dados de 2020 virá com toda a certeza confirmar o aumento da taxa de residentes nascidos fora do concelho. 

Sobre o suposto centralismo da capital, uma análise despida de bairrismos e disputas identitárias seculares demonstra que quem governa o país da cidade capital não é necessariamente da Praia ou mesmo de Santiago e é só verificar a naturalidade dos dirigentes de topo e dos quadros de chefia intermédia da estrutura administrativa nacional para percebermos quem realmente domina de onde vem e de que forma utiliza o poder administrativo. Ou seja, como se processa as disputas e solidariedades entre os diferentes grupos domésticos e de sociabilidades na ocupação do aparelho estatal via partidos políticos, com vista o acesso aos mecanismos de distribuição de recursos. 

Como afirma Gabriel Fernandes numa entrevista a José Vicente Lopes, falando sobre a existência de uma suposta república de Santiago, mesmo havendo uma "suposta república da Praia, é uma república em que, chegando lá, você encontra os recursos a serem apropriados por atores de todas as ilhas, de outros países inclusive, e os praienses, naturais, estão basicamente numa posição periférica. O que a Praia é, por um lado, resulta daquilo que Cabo Verde conseguiu ser. E, por outro lado, o que a Praia é não traduz jamais ganhos exclusivos para praienses, são ganhos para cabo-verdianos". 

Por outro lado, para lá das acusações de traição a roçar a cultura clubista provinciana, sobre a tal proposta rejeitada na AN, o certo é que o que a proposta do MPD defendia é a integração do governo municipal no executivo central (ver os artigos 7 e 8). Isto é, a criação de uma espécie de Ministério Municipal. A parte positiva do documento, o tal artigo 10 que possibilita a transferência de terrenos do domínio privado do Estado para o município, cujo objectivo seria criar condições de políticas de habitação, sobretudo o de interesse social e infraestruturas de espaço público e de lazer, havendo vontade política faz-se, com ou sem estatuto especial. Não só na Praia, mas em todo o território nacional.  

Se Praia é hoje uma cidade densa decorrente dos movimentos migratórios internos, o problema está na ausência de políticas públicas do governo central, em parceria com os demais governos municipais, com vista à criação de um ambiente de atractividade nos territórios de origem dos migrantes que, como resposta, são forçados a migrar para cá e que, no processo, uma parte ocupa os espaços chamados de assentamentos informais.  

Tenho para mim que ao invés da cultura de multiplicação dos municípios, uma reestruturação territorial dos concelhos do Sul, Litoral Norte e Centro de Santiago poderia resolver os grandes problemas estruturantes da ilha, assim como servir Praia, Santiago e Cabo Verde melhor do que um qualquer estatuto especial. Dotava também a ilha-mãe de três grandes centros urbanos dignos desse nome. 

Até lá, Praia Tudu Hora!

[Foto: Décio Barros, 2020]

10/07/2020

Di kamaradas a irmons: o rap cabo-verdiano e a (re)construção de uma identidade de resistência

Como resultado de trabalhos apresentados em painéis realizados nos VI e VII Congresso da Associação Portuguesa da Antropologia e na VII Conferência da Rede de Afroeuropeans, organizamos (em parceria com Lívia Jimenez Sedano e Otávio Raposo) o dossier juventudes, decolonialidades e estéticas insurgentes, publicado na edição número 37 da Revista Tomo. Integrado no dossier está o artigo "Di kamaradas a irmons: o rap cabo-verdiano e a (re)construção de uma identidade de resistência", que tem como base pesquisas etnográficas sobre o rap e os movimentos sociais em Cabo Verde, uma parte enquadrada no programa de pesquisa MRI CODESRIA 2018/2019. desenvolvida nas cidades da Praia e do Mindelo. 

Através da música Afrokabuverdianu de Ga da Lomba e Kuumba Cabral faço uma "síntese histórica da invenção da identidade mestiça em Cabo Verde para refletir sobre a importância do rap na rearticulação de uma identidade africana para a juventude deste arquipélago. Expoente de resistência para aqueles que habitam espaços marginais (e di fora) das cidades da Praia e do Mindelo, o rap cabo-verdiano sintetiza a inventividade das novas formas de fazer política entre os e as jovens na contemporaneidade".     

[Foto: David LaChapelle, 2012]