27/06/2020

Entretanto, o mundo continua redondo e a girar.

Frantz Fanon disse algo como o sonho do escravo é ser um dia senhor e a África pós-colonial deu-lhe razão. Por cá, o que a história nos diz é que este fenómeno começa mais cedo, ainda no século XVI, quando um grupo de negros requereram ao rei a autorização de prestarem ofício na câmara de Ribeira Grande. Como escreveu Gabriel Fernandes, a ambição era fazer parte do grupo dos brancos. Cerca de um século depois, nasce a Irmandade dos Homens Pretos, descrito por Nuno Rebocho como uma elite de escravos, homens de confiança dos seus senhores, grupo de caçadores de escravos. Muitos deles tornaram-se lançados, pequenos morgados e donos de escravos e no século XVIII integraram o grupo dos filhos (brancos) da terra, dai a expressão djam branku dja.  

Nesta empreitada de integrar o mundo dos brancos, como magistralmente reflectiu José Carlos dos Anjos, na impossibilidade de esconder a cor da sua pele, importa do Brasil, da sociologia de Gilberto Freyre, a ideologia da mestiçagem, mas invertendo a sua lógica, tornando-o assim mais racista do que já era, tentando com isso piscar o olho ao pai branco (biológico e adoptivo) que o renegou. Portanto, perceber a integração do cabo-verdiano em partidos e grupos de extrema-direita, algo muito comum nos finais do século XX, passa pelo entendimento da sua busca histórica por uma identidade que não seja nem africana nem negra e que no processo levou-o a rejeitar o seu próprio sujeito, transformando-se num mero objecto rastejante e intelectualmente submisso.   

O que hoje acontece é apenas uma continuidade histórica, em que o lixo brasileiro continua como referência de um grupelho de imbecis dado a teorias conspiratórias obscurantistas. A diferença e por si só grave, é que a promoção deste lixo ideológico dá-se no interior da estrutura do poder fora do contexto colonial formal. 

[Foto: David LaChapelle, 2009]

10/06/2020

Nós e os símbolos nacionais

Lembro-me da fala de Filinto Silva num evento sobre o racismo em Lisboa, sobre o cúmulo da bazofulândia crioula, na altura do lançamento da obra "Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata (1460 - 1878)" de António Carreira, nos anos de 1970, em que uma certa elite viu seu status confirmado pela presença do seu apelido na lista das famílias proprietárias de escravos, anexada no livro. 

Enquanto isso, em Londres, o governo da cidade inicia uma reavaliação do património que faz referência a escravocratas. 

[Foto: Robert Frank, 1955]

06/06/2020

Mercado de trabalho | 2019

De forma geral, um olhar cruzado sobre os dados do mercado de trabalho, referentes ao ano de 2019, diz-nos que a taxa de desemprego aumentou 11,3% a mais do que a taxa de emprego e que é mais provável que a redução da taxa de subemprego esteja relacionado com a taxa de desemprego e do que com uma suposta melhoria das condições do trabalho. Aponta que se é verdade que há menos desempregados (1,1%) do que em 2015, também há menos empregados (0,1%). Indica que não obstante o discurso da promoção do auto-emprego com direito a strip tease institucional, há uma diminuição de 0,4% em relação a 2018. Igualmente, que apesar da conversa da promoção do mercado privado e do Estado mínimo, o sector privado perde para o sector da administração pública 0,7% da sua capacidade de empregabilidade. Ou seja, muita conversa e tónica colocada no fazer diferente, mas, na prática, mais do mesmo.

E se tomarmos em consideração que as ilhas do Sal e da Boa Vista apresentavam em 2019 uma taxa de emprego superior a 70% e que o sector dito informal empregava 52,5% da população trabalhadora, o pós-Covid só descola mesmo se consciencializarmos que uma outra normalidade é preciso.

[Foto: Alex Prager, 2013]