08/05/2020

Nós e as "fomes"

A etnografia urbana me tem mostrado desde 2007 que, por exemplo, na cidade da Praia, a karaka di beku serve muitas vezes, mais do que mera actividade de convívio do bairro, como a única actividade de solidariedade e assistência alimentar para muitas pessoas, jovens e menos jovens, do baxu-praia, algo invisível aos olhares da malta do eixo centro-sul da capital, cujas visitas em modo safari urbano em épocas de campanha eleitoral, de charme institucional ou de assistência social mediatizada não permite captar. Tem-se escrito e comprovado em vários contextos rurais e urbanos que o espectro da fome faz parte da realidade quotidiana das ilhas, mas o que tem escapado à dita classe intelectual e às ciências sociais (re)produzida nas ilhas, quiçá de forma intencional, é a capacidade em perceber a nova dinâmica das "fomes" no arquipélago.    

[Imagem: Tim Okamura, 2016]