20/05/2020

Dos misticismos às ideologias africanas

Elungu P.E.A. afirma nos anos de 1980 que "o período da colonização constituiu, e constitui ainda, o período mais determinante no que se refere à preparação, lenta mas certa, da transição da mitologia para a ideologia". Nascido na diáspora com a aspiração de unir a África, tanto o culturalismo do haitiano Jean Price.Mars, o messianismo do jamaicano Marcus Garvey como o intervencionismo intelectual do norte-americano W.E.B. Du Bois contribuíram cada um da sua maneira para o nascimento do pan-africanismo enquanto ideologia de libertação de África, que embora celebra este mês 67 anos da proclamação em Adis Abeba, na Etiópia, do chamado dia de África, ainda está por se fazer, muito por culpa também dos seus dirigentes. 

Tendo em conta que as diversas ideologias implementadas no pós-independência foram importadas do ocidente, faltou, na opinião de Elungu, um trabalho da sua transformação em ideologias africanas, só possível se houvesse interesse no desenvolvimento de uma filosofia africana que o suportasse. O certo é que nas várias conferências pan-africanistas realizadas durante o século XX na Europa, ideias como a unidade africana, o socialismo e o partido único foram amplamente teorizadas e discutidas, sem que no entanto as suas implementações tivessem alcançado os objectivos traçados. 

Contudo, como tinha previsto Cabral, muitos que desprezavam África no início da luta, ao se perceberem que era possível chegar a independência, fizeram-se de interessados, embora o único objectivo era vir a ser presidente da República ou ser Ministro "para poder explorar o seu próprio povo... de ter todos os diamantes, todo o ouro, todas essas coisas boas, terem todas as mulheres que quiserem na África ou na Europa: para poderem passear pela Europa, serem recebidos como presidentes, para vestirem caro, de fraque ou grandes bubus, para fingirem que são africanos... são lacaios ou cachorros dos brancos". 

[Foto: Mauro Pinto, 2012]