30/05/2020

Nós e a sociedade pós-morgadia


No século XVIII, era esse o discurso nos documentos oficiais da sociedade colonial em relação à sociedade da resistência: "toda a plebe montanhosa é extremamente rústica e selvagem, e totalmente ignorante da doutrina cristã, porque, como vive pelos montes, aonde cada um tem o seu casal, com a searazinha, e onde pastam os seus gados... aí mesmo vão criando seus filhos brutinhos, sem comunicação, nem doutrina... Eles andam quase mas, dormem sobre uma esteira de tábua... suas casas são de palha, ordinariamente feitas pelos habitantes no pronto espaço de 24 horas... São nimiamente bêbados e mais apaixonados da aguardente, dados a desordens, servindo-se de dois géneros de armas proibidas - uma faca e um pau de quatro quinas, vulgarmente chamado de manduco. Muitos feitos à mancebia, muitos soberbos e vaidosos, e consequentemente integrantes".

Volvidos dois séculos e meio continua a ser este o discurso oficial que sustenta a violência do Estado. Uma violência a dois níveis: a nível da força física e militarizada e a nível da ausência. Por um lado, reconhecendo que algumas construções no Alto da Glória surgiram com o estado de excepção devido à pandemia, em qualquer Estado que se quer de Direito e Democrático, estas e outras situações devem ser revolvidas com base em negociações proporcionais. São vários os casos sabidos de gentes bem posicionadas e encostadas nas tetas do Estado a construir ilegalmente, inclusive perto do local, sem que se tenha o mesmo tipo de aparato. Aliás, ingénuo aquele que acreditar que estas demolições tem como base uma preocupação urbana. Nem urbana, nem de saúde pública. Tenho para mim que este tipo de tratamento a mães pobres com seus filhos configura uma espécie de violência estrutural de género.

Por outro lado, se existe um problema urbano e habitacional na Praia, é tão simplesmente porque existe ausência de uma política pública de habitação ou mesmo de uma política urbana. O problema é na verdade mais conceptual, ao ponto da câmara confundir política urbana com política de loteamento. Diria até que este problema conceptual nem sequer é devido a um problema empírico, mas mais uma questão de foro criminal, se tomarmos em consideração a forma como grupos de amigos e familiares instalados em vários municípios do país tem gerido a coisa pública e, em alguns casos, kasubodiandu a coisa privada. 

Enganados também aqueles que acreditam que se resolve este tipo de problema com importações de conceitos estrangeirados, que não é mais do que uma tentativa pós-morgadia de servir de intermediário do dito povo junto às agências globais de financiamento e a abertura de outras portas para a especulação imobiliária na era digital. Como diria um José Carlos dos Anjos, é mais uma "forma de regulação e alinhamento dos interesses das elites políticas (e técnicas) locais aos interesses neocoloniais". Estancar isso, a meu ver, passa pelas mãos das ditas associações comunitárias e movimentos sociais que deveriam consciencializar que, no que a cidade diz respeito, a palavra de ordem deve ser direito à cidade e habitação e que isso só é possível deixando os protagonismos e segregações toscas de lado e juntos pensarem na construção de uma cidade rebelde.      

[Foto: Dawit L. Petros, 2016]

27/05/2020

Da pós-qualquer coisa e do culto do chico-espertismo crioulo

Amílcar Cabral afirmou, nos anos de 1970, o seguinte: "um comissário político, por exemplo, vê um rapazinho bom militante; em vez de se ocupar dele para o ajudar, para ele entender mais, para avançar, em vez de o animar, não, faz dele um menino de recados. porque é esperto, sabe bem, vai rapidamente; se lhe der uma coisa para guardar, guarda bem; e, então, dá-lhe o seu saco de roupas, para ele guardar, em vez de fazer dele um valor para a nossa terra. Ou então: aparece uma rapariga, esperta, mais ou menos bonita, em vez de o ajudar, dar-lhe a mão para avançar, para ser enfermeira, ser professora, para ir estudar, para ser uma boa miliciana, ou qualquer outra coisa, não, faz dela sua amante; porque é muito bonita e ele é que tem o direito de tomar conta dela. Temos de acabar com isso".

Volvidos mais de 40 anos, o contexto pós-colonial e pós-partido-único não só institucionalizou esse tipo de prática como possibilitou a ascensão social e económica dos antes meninos de recados, hoje transvestidos de empreendedores à custa do Estado via partido-Estado pós-democrático.   

[Foto: Ima Mfon, 2017]

22/05/2020

Cabo Verde e a CEDEAO

Sobre isto, o que há a dizer é que numa conversa com José Vicente Lopes, em 2014, Onésimo Silveira contava episódios de gentes tanto do PAICV como do MPD, ambos com responsabilidades políticas, que diziam publicamente que Cabo Verde não tinha nada a ganhar com a CEDEAO. Retorquía com o seguinte: "Cabo Verde só tem valor para a Europa enquanto formos uma plataforma de penetração dos países da CEDEAO. A Europa exige a nossa presença na CEDEAO para fazer progredir o nosso acordo com a UE. Enquanto não tivermos uma relação sólida, multifacetada, com a CEDEAO, a Europa não nos vai abrir as suas portas".  

[Foto: Namsa Leuba, 2015]

20/05/2020

Dos misticismos às ideologias africanas

Elungu P.E.A. afirma nos anos de 1980 que "o período da colonização constituiu, e constitui ainda, o período mais determinante no que se refere à preparação, lenta mas certa, da transição da mitologia para a ideologia". Nascido na diáspora com a aspiração de unir a África, tanto o culturalismo do haitiano Jean Price.Mars, o messianismo do jamaicano Marcus Garvey como o intervencionismo intelectual do norte-americano W.E.B. Du Bois contribuíram cada um da sua maneira para o nascimento do pan-africanismo enquanto ideologia de libertação de África, que embora celebra este mês 67 anos da proclamação em Adis Abeba, na Etiópia, do chamado dia de África, ainda está por se fazer, muito por culpa também dos seus dirigentes. 

Tendo em conta que as diversas ideologias implementadas no pós-independência foram importadas do ocidente, faltou, na opinião de Elungu, um trabalho da sua transformação em ideologias africanas, só possível se houvesse interesse no desenvolvimento de uma filosofia africana que o suportasse. O certo é que nas várias conferências pan-africanistas realizadas durante o século XX na Europa, ideias como a unidade africana, o socialismo e o partido único foram amplamente teorizadas e discutidas, sem que no entanto as suas implementações tivessem alcançado os objectivos traçados. 

Contudo, como tinha previsto Cabral, muitos que desprezavam África no início da luta, ao se perceberem que era possível chegar a independência, fizeram-se de interessados, embora o único objectivo era vir a ser presidente da República ou ser Ministro "para poder explorar o seu próprio povo... de ter todos os diamantes, todo o ouro, todas essas coisas boas, terem todas as mulheres que quiserem na África ou na Europa: para poderem passear pela Europa, serem recebidos como presidentes, para vestirem caro, de fraque ou grandes bubus, para fingirem que são africanos... são lacaios ou cachorros dos brancos". 

[Foto: Mauro Pinto, 2012]

11/05/2020

Naomi Klein e o capitalismo da catástrofe

Naomi Klein defende que "as tácticas de choque seguem um padrão claro: esperar por uma crise, declarar uma fase daquilo a que por vezes se chama de 'políticas extraordinárias', suspender algumas ou todas as regras democráticas - e depois implementar o mais depressa possível a lista de desejos das grandes empresas".    

[Foto: Chien-Chi Chang, 1961]

08/05/2020

Nós e as "fomes"

A etnografia urbana me tem mostrado desde 2007 que, por exemplo, na cidade da Praia, a karaka di beku serve muitas vezes, mais do que mera actividade de convívio do bairro, como a única actividade de solidariedade e assistência alimentar para muitas pessoas, jovens e menos jovens, do baxu-praia, algo invisível aos olhares da malta do eixo centro-sul da capital, cujas visitas em modo safari urbano em épocas de campanha eleitoral, de charme institucional ou de assistência social mediatizada não permite captar. Tem-se escrito e comprovado em vários contextos rurais e urbanos que o espectro da fome faz parte da realidade quotidiana das ilhas, mas o que tem escapado à dita classe intelectual e às ciências sociais (re)produzida nas ilhas, quiçá de forma intencional, é a capacidade em perceber a nova dinâmica das "fomes" no arquipélago.    

[Imagem: Tim Okamura, 2016]