29/02/2020

O rap cabo-verdiano e a crítica social

Como já escrevi em outros espaços, o rap no contexto cabo-verdiano deve ser percebido como um dos expoentes máximos do tipo de cultura popular emergente que tanto os cientistas sociais como aqueles que decidem deveriam estar atentos, não pela moda em si, mas pelo tipo de crítica social e política que carrega.

Como relata Ga Dalomba, a música afrokabuverdianu não passa de uma ironia, numa sociedade com níveis preocupantes de crise de identidade. Diria eu, numa sociedade com séries dificuldades de se ver identificado no espelho. Entretanto, nada que uma leitura mesmo que rápida de um Frantz Fanon não possa servir como terapia.

[Foto: Hélder Doca, 2016]

26/02/2020

Amílcar Cabral e os pressupostos para uma governação íntegra

Amílcar Cabral definiu, em função da situação real dos países onde liderou a luta armada, um quadro de referências de acção política a ter em conta no momento da independência. Dizia constantemente que a realidade é o que existe e não aquela que está na cabeça de cada um. Para isso, ao contrário do que se veio fazer posteriormente (com destaque para os dias actuais em matéria da juventude e da segurança), seria necessário assumir as políticas a partir de uma análise adequada das realidades sobre as quais se pretendia actuar, sem oportunismo nem utilitarismos.   

[Foto: Don McCullim, 2004]

24/02/2020

Do conceito deportação ao conceito readmissão

Quando, em 2017, publicamos este working paper, o objectivo era trazer à discussão conceptual uma possível redefinição do conceito da deportação, já que tinha sido assinado, pouco tempo antes, o acordo de readmissão que confirmava Cabo Verde como uma fortaleza avançada euro-norte-americana no Atlântico Médio, visto abrir portas para a admissão de deportados de países terceiros, desde que tivesse transitado o arquipélago na sua viagem para o Norte.

Isto a propósito da notícia sobre os oito deportados cabo-verdianos dos EUA nesta semana, em que a preocupação jornalística (e/ou social) centrou-se numa suposta contaminação da sociedade cabo-verdiana do modus operandi destes jovens, ignorando o fato de que a onda de violência de rua transnacional cabo-verdiano e a consequente desestruturação da criminalidade semi-organizada local, do que propriamente com uma suposta reprodução nas ilhas da actividade criminal destes deportados. Contudo, o que não se falou foi o transporte, neste mesmo voo privado, de deportados de países terceiros, mesmo não tendo transitado as ilhas.

[Foto: Robert Frank, 1956]

23/02/2020

Da reprodução social e política

Sobre a sociedade morgadia do século XIX, escrevia António Pusich, que "em Santiago e Fogo, esta mediocridade se transmite de pais a filhos, os quais por não conhecerem outra situação, ficam vivendo na insocialidade, libertinagem e ociosidade concentrando-se só nestes pontos as suas principais ideias. Nada procuram conhecer ou indagar do que os pode instruir e civilizar, e desta forma vivem na ignorância, cercados de vícios, assim como de negros, escravos ou livres, todos seus domésticos; e enfatuados no título de Morgados para se verem mais tranquilos, cedem desde logo na mão de algum mais privado fâmulo a administração das suas fazendas; e aquele feitor orgulhoso com este pequeno poder, e ignorante inteiramente das suas obrigações, não faz mais que oprimir os miseráveis escravos, segundo as suas paixões. Deste modo a ruína daquelas herdades é infalivelmente por todos os modos contempladas". 

Embora seja necessário enquadrar o contexto colonial e racista em que surge, este tipo de discurso é hoje reproduzido por uma certa elite herdeira da Irmandade dos Homens Pretos, uma espécie de aristocracia escrava ladinizada e de confiança do seu amo, saída das entranhas das milícias de caça aos negros auto-libertos. Por outro lado, ignorando o seu carácter racista, diria que retrata na quase perfeição (a continuidade) o sistema sócio-político-partidário e associativo edificado nas ilhas.    

[Foto: RWL, 2014]

12/02/2020

INE e os dados semestrais de 2019 do mercado de trabalho

Quando se olha os dados do país fora do escopo político-partidário, a realidade é bem mais interessante. Existe esta tendência imediatista de mostrar serviço político e administrativo, o que leva certos responsáveis institucionais e políticos a cair muitas vezes em lugares comuns ideológicos que não passam disso mesmo. 

Longe das polémicas sobre possíveis manipulações dos dados do desemprego vis metodologias utilizadas, o que os principais indicadores do mercado de trabalho do primeiro semestre do ano de 2019 nos diz é que, tomando como referência o septénio  2013-2019, há um ligeiro aumento da taxa do emprego em 2019 (50,9%), quando comparado com 2013 (50,3%), mas inferior a 2016, ano em que alcançou a taxa mais elevada (54,2%). Pelo contrário, há uma diminuição da taxa de actividade (60,1% em 2013 e 57,1% em 2019) que teve também em 2016 o seu ponto mais alto (63,7%). A relação existente entre época eleitoral e aumento de emprego e de actividade não é novo e é daqueles fenómenos que normalmente não se dá muita atenção, mas muito quer dizer sobre a nossa democracia eleitoral.  

Em relação à taxa do desemprego, que é onde se concentra as maiores discussões, na maioria das vezes olhadas isoladamente, atinge na metade do ano de 2019 a sua taxa mais baixa, mas que deve ser entendido num contexto mais amplo de aumento da taxa do subemprego que atinge em 2019 o mesmo número que em 2013 (21,7%) e de inactividade que a partir de 2018 atingiu as maiores taxas  (44,4% em 2018 e 42,9% em 2019). Um dado interessante que permite elucidar sobre o tipo de emprego criado é o aumento de 7% da taxa de subemprego em relação a 2018.

No que toca à população juvenil, digam o que disserem de ponto de vista político-partidário, o certo é que o documento ao limitar-se a apresentar os dados a partir de 2017, inviabiliza um exame mais detalhado, embora, não deva ser diferente do cenário geral.   

[Foto: RWL, 2019]

11/02/2020

Sobre o estado do ensino superior

Sun Tzu, sobre as três maneiras através das quais o governante poderá trazer infortúnio ao seu próprio exército, afirma que "interferir na administração do exército sem entender os assuntos militares (...) leva o exército a baralhar-se". Um exercício interessante seria pensar a gestão das Instituições do Ensino Superior nas ilhas a partir desde postulado.   

[Foto: Paul Strand, 1964]

07/02/2020

O ensino superior e os processos de periferização global

Luca Bussotti, numa entrevista para a Revista Debates Insubmissos sobre os movimentos sociais, considera que o ensino superior e os pesquisadores, sobretudo africanos, deveriam ter um papel mais activo na crítica aos processos de periferização global, mas que tal não acontece porque se limitam a reproduzir o saber de matriz ocidental. "Podemos vislumbrar uma tendência clara, mais acentuada nos países do hemisfério sul, mas presente também em algumas realidades ocidentais, acerca do ensino superior, que responde perfeitamente a tendência da periferização global de que falava anteriormente: uma tendência de reduzir a capacidade de fazer pesquisa e produzir saber por parte da academia, sobretudo o saber não orientado por lógicas de mercado e por encomendas. Isso acontece mediante processos bastante simples, tais como o corte constante em termos financeiros (assumindo várias denominações, por vezes aliciantes), o que deixa pouco espaço aos processos de investigação, reduzindo cada vez mais as universidades a liceus melhorados, com uma parte didáctica preponderante e, muitas vezes, repetitiva. devido à falta de diálogo com a investigação e a extensão".

[Imagem: Dasic Fernández, 2014]

06/02/2020

Da forma de fazer política urbana

No ano passado o PR da CMP, numa entrevista, disse que o seu objectivo político é transformar a Praia numa Lisboa ou num Paris. Entre o final e o início deste ano, o novo chefe da EMEP, numa outra entrevista, disse que a Avenida Amílcar Cabral, no Plateau, popularmente conhecida como a avenida principal, vai ser transformada numa avenida pedonal entre o Mercado do Plateau e o Quintal da Música. 

Desde que se crie alternativas de estacionamento, sobretudo para os que habitam e trabalham no bairro (há uns meses se apresentou o parque subterrâneo na Praça Alexandre Albuquerque), e um sistema de transporte público eficiente (que poderá passar pela formalização e organização dos "hiaces" urbanos), acho o projecto interessante e pertinente. Contudo, conhecendo a forma irresponsável como as sucessivas equipas camarárias tem decidido e planificado, tenho as minhas dúvidas, até porque diz-se que a coisa estará pronto ainda este ano.

O mais grave é o desencontro entre o discurso sobre a nova forma de governação urbana com base na participação da população e a forma como as decisões são tomadas, ao estilo de um Governo Autárquico Autoritário luz e guia do povo.

Convém não esquecer que se está a falar de uma avenida projectada no século XIX para servir de eixo de ligação entre a zona litoral da cidade para as localidades do interior da ilha, tornando-se até hoje numa das mais movimentadas do país. Na semana passada, por exemplo, devido a um ligeiro bloqueio numa das partes da rua por detrás do Tribunal, viu-se o caos.   

Percebe-se, como é evidente, pela cultura de importação de modelos com escola no país, de onde vem a ideia. Esquece-se é que Lisboa ou qualquer outra cidade europeia, está, em tese, estruturalmente preparada. 

[Foto: Décio Barros, 2018]