15/01/2020

Cabo Verde e o discurso importado da Guerra às Drogas

O principal argumento apresentado pelo governo cabo-verdiano para a assinatura do SOFA, além de questões que tem a ver com a segurança das ilhas, é a luta contra o narcotráfico no Atlântico Médio. 

O que a história nos mostra é que no caso do Afeganistão, onde a papoila de que se extrai o ópio, cultivada tradicionalmente ao longo de séculos, o seu cultivo foi praticamente erradicada na era dos talibán, por considerarem-no contrário ao Islão. Contudo, o fato é que desde a invasão do território, em 2001, por forças da coligação lideradas pelos EUA, para além de se tornar num dos territórios mais inseguros do planeta, a produção do ópio não deixou de crescer, alcançando números nunca antes vistos, apesar de se saber que a sua comercialização servia também para sustentar a insurreição. 

Entender hoje as questões ligadas à geopolítica do narcotráfico, a partir da chamada Guerra ás Drogas liderada pelos EUA, obriga-nos a visitar a história imperialista e colonialista da era vitoriana na Ásia, na chamada Guerra do Ópio, que segundo autores como Amin Maalouf e alguns militares chineses, teve como principal fundamento a recusa da China a abrir-se ao lucrativo tráfico de drogas que o Reino Unido pretendia dominar e que resultou no maior narcotráfico organizado por um Estado que a história conheceu.      

[Imagem: Banksy, 2008]

02/01/2020

"Cabo Verde - cinco séculos de história, cinco séculos de revoltas"

Da rotunda a Santa Catarina. Por uma abordagem das sublevações nacionais à luz do republicanismo (2014). Trabalho de Sara Mascarenhas, centrado na explicação do surgimento dos movimentos de resistência em Cabo Verde do século XIX e início de século XX pela influência dos ideais liberais e republicanos despertados em Portugal. . 

É notório que a obra seria muito mais rica caso a autora tivesse dialogado com outros trabalhos já publicados, problema esse ainda persistente e sem fim à vista no mundo académico das ilhas. Cruzado com outros trabalhos sobre o tema, fica saliente a prática historicamente reproduzida de "uma pequena elite, detentora dos principais postos administrativos (...), logra atingir objectivos pessoais pela actuação e manobra sobre a massa (...), descontente face a determinadas situações abusivas que enfrentam no seu quotidiano, resultando daí sublevações locais com contornos políticos levados a cabo por indivíduos sem a mínima consciência do devir político nacional".

[Imagem: Leão Lopes, 2010]

01/01/2020

Ano XII

Doze meses depois do último post e numa altura em que faz doze anos, o ku-frontalidadi volta ao seu estilo original de ativismo político apartidário e insurgente. Espaço de desobediência, politicamente posicionado na chamada ala esquerda-radical anti-institucional, numa conjuntura legislativa dominada por uma facção político-partidária auto-identificada com a chamada nova-direita, baseada nos ideais trabalho-religião-família-mas sem pátria, paradoxalmente, amamentada pelo Estado.

Usando as palavras de Michel Onfray, "a associação da esquerda ao demoníaco não é destituída de razão, sem fundamento ou qualquer funda de verdade. De fato, o demónio, o diabo, é aquele que, dentro da lógica cristã, preferiu se revoltar, desobedecer a Deus. Submeter-se, não reflectir, aceitar a ordem e a lei definidas e desejadas por Ele, eis o que constituía a legitimidade angélica das criaturas aladas. Em compensação, o espírito das trevas, o diabo, define aquele que escolheu exercer a sua liberdade, sua autonomia, sua independência e opta pelo livre arbítrio contra a submissão aos imperativos divinos. Princípio libertário contra princípio da autoridade, (...), eis o que permite desde o presente uma tipologia mais precisa da esquerda de que falo".

[Foto: Stuart Davis, 2010]