08/08/2020

Cabo Verde, rap e movimentos sociais

A discussão se o rap cabo-verdiano configura-se ou não como um movimento social não é de hoje e o que fica é o seu importante papel na mediação dos processos de paz no contexto da violência urbana e contributo no processo de transformação dos gangues em organizações de rua. Igualmente, por ter tornado público os discursos infrapolíticos contra o sistema de Estado-bipartidário pós-colonial nocivo aos interesses do cidadão comum, bem como ter servido de fundo sonoro das grandes movimentações de rua que marcaram o país nos últimos anos.   

Texto completo no Buala.

[Foto: Felipe Dana, 2019]
 

23/07/2020

Nós, as agendas do desenvolvimento e a continuidade discursiva colonialista

Há esta tendência acrítica de algumas pessoas e grupos usarem figuras negras como forma de levantar auto-estima do africano, ignorando o papel que muitas destas figuras tiveram no processo da colonização e manutenção da ideia de hierarquia racial. Booker T. Washington é uma dessas figuras, a quem W.E.B. Du Bois chamou certa vez de aristocrata negra. Aliás, é hoje conhecido a influência de Washington sobre Robert Park, o pai da Escola de Chicago e as razões por detrás da segregação intelectual do Du Bois na sociologia americana e europeia, sendo ele o autor da teoria da desorganização social desenvolvido 20 anos antes dos sociólogos de Chicago. 

As ideias defendidas por Washington, que mais não fazia do que reproduzir as teses sociológicas europeias, chamaram, por exemplo, a atenção dos burocratas e cientistas sociais alemãs que, admirados com o fato deste professor negro transmitir aos seus alunos negros do Tuskegee, instituto onde era director, a sua crença acerca da hierarquia natural das raças. Acreditava que com a abolição da escravatura seria necessário educar, primeiro, os negros americanos para uma vida cristã, de trabalho manual e de agricultura de pequena escala, de modo a que pudessem, com o tempo, adquirir a cidadania plena. As suas visões conservadoras acerca das relações sociais e raciais encontravam-se bem alinhadas com as ideias imperialistas e racistas europeias acerca do controlo e segregação, o que faria dos seus estudantes intermediários ideais para pôr em prática um projecto de modernização no Togo, na altura colónia alemã, sem que a ordem política e racial desse território fosse ameaçado. 

Como é evidente o projecto falhou redondamente, não por culpa de uma suposta ignorância étnico-racial dos nativos ou de uma suposta incompetência dos alunos do Tuskegee, mas devido à desadequação de soluções externas sem ter em devida atenção a realidade concreta do território onde se quis intervir. Foi o mesmo tipo de fórmula usada na colonização portuguesa em África, tendo nos cabo-verdianos os intermediários ideais, legitimados pelas teses de superioridade étnica e tecnológica europeia difundidos pelas gerações nativista e claridosa. Hoje, como é visível, legitimado pela geração dos novíssimos quadros que a todo o custo disputa a sua integração no projecto (neo)colonislista do norte, mas também do sul, disfarçado do slogan relação sul/sul.
         
[Foto: Omar Victor Diop, 2014]

11/07/2020

Praia Tudu Hora!

O Censo de 2010 indicava que 31,2% da população residente na cidade da Praia (dos que responderam este item) nasceu noutros concelhos. Destes, 18,6% nasceram em outros concelhos da ilha de Santiago (18,7% em São Domingos, 17,6% em Santa Catarina, 15,2% em São Lourenço dos Orgãos, 13,5% em Santa Cruz, 10,1% em São Salvador do Mundo, 9,6% em São Miguel; 6,1% na Ribeira Grande; 5,8% no Tarrafal), 14,7% na ilha do Fogo e 15,2% no conjunto das ilhas do Barlavento (7,2% em São Vicente, 5,7% em Santo Antão, 1,3% em São Nicolau, 0,9% no Sal). Infelizmente, os dados não permitem saber a origem dos residentes nascidos em outros países e, como é evidente, a divulgação dos dados de 2020 virá com toda a certeza confirmar o aumento da taxa de residentes nascidos fora do concelho. 

Sobre o suposto centralismo da capital, uma análise despida de bairrismos e disputas identitárias seculares demonstra que quem governa o país da cidade capital não é necessariamente da Praia ou mesmo de Santiago e é só verificar a naturalidade dos dirigentes de topo e dos quadros de chefia intermédia da estrutura administrativa nacional para percebermos quem realmente domina de onde vem e de que forma utiliza o poder administrativo. Ou seja, como se processa as disputas e solidariedades entre os diferentes grupos domésticos e de sociabilidades na ocupação do aparelho estatal via partidos políticos, com vista o acesso aos mecanismos de distribuição de recursos. 

Como afirma Gabriel Fernandes numa entrevista a José Vicente Lopes, falando sobre a existência de uma suposta república de Santiago, mesmo havendo uma "suposta república da Praia, é uma república em que, chegando lá, você encontra os recursos a serem apropriados por atores de todas as ilhas, de outros países inclusive, e os praienses, naturais, estão basicamente numa posição periférica. O que a Praia é, por um lado, resulta daquilo que Cabo Verde conseguiu ser. E, por outro lado, o que a Praia é não traduz jamais ganhos exclusivos para praienses, são ganhos para cabo-verdianos". 

Por outro lado, para lá das acusações de traição a roçar a cultura clubista provinciana, sobre a tal proposta rejeitada na AN, o certo é que o que a proposta do MPD defendia é a integração do governo municipal no executivo central (ver os artigos 7 e 8). Isto é, a criação de uma espécie de Ministério Municipal. A parte positiva do documento, o tal artigo 10 que possibilita a transferência de terrenos do domínio privado do Estado para o município, cujo objectivo seria criar condições de políticas de habitação, sobretudo o de interesse social e infraestruturas de espaço público e de lazer, havendo vontade política faz-se, com ou sem estatuto especial. Não só na Praia, mas em todo o território nacional.  

Se Praia é hoje uma cidade densa decorrente dos movimentos migratórios internos, o problema está na ausência de políticas públicas do governo central, em parceria com os demais governos municipais, com vista à criação de um ambiente de atractividade nos territórios de origem dos migrantes que, como resposta, são forçados a migrar para cá e que, no processo, uma parte ocupa os espaços chamados de assentamentos informais.  

Tenho para mim que ao invés da cultura de multiplicação dos municípios, uma reestruturação territorial dos concelhos do Sul, Litoral Norte e Centro de Santiago poderia resolver os grandes problemas estruturantes da ilha, assim como servir Praia, Santiago e Cabo Verde melhor do que um qualquer estatuto especial. Dotava também a ilha-mãe de três grandes centros urbanos dignos desse nome. 

Até lá, Praia Tudu Hora!

[Foto: Décio Barros, 2020]

10/07/2020

Di kamaradas a irmons: o rap cabo-verdiano e a (re)construção de uma identidade de resistência

Como resultado de trabalhos apresentados em painéis realizados nos VI e VII Congresso da Associação Portuguesa da Antropologia e na VII Conferência da Rede de Afroeuropeans, organizamos (em parceria com Lívia Jimenez Sedano e Otávio Raposo) o dossier juventudes, decolonialidades e estéticas insurgentes, publicado na edição número 37 da Revista Tomo. Integrado no dossier está o artigo "Di kamaradas a irmons: o rap cabo-verdiano e a (re)construção de uma identidade de resistência", que tem como base pesquisas etnográficas sobre o rap e os movimentos sociais em Cabo Verde, uma parte enquadrada no programa de pesquisa MRI CODESRIA 2018/2019. desenvolvida nas cidades da Praia e do Mindelo. 

Através da música Afrokabuverdianu de Ga da Lomba e Kuumba Cabral faço uma "síntese histórica da invenção da identidade mestiça em Cabo Verde para refletir sobre a importância do rap na rearticulação de uma identidade africana para a juventude deste arquipélago. Expoente de resistência para aqueles que habitam espaços marginais (e di fora) das cidades da Praia e do Mindelo, o rap cabo-verdiano sintetiza a inventividade das novas formas de fazer política entre os e as jovens na contemporaneidade".     

[Foto: David LaChapelle, 2012]

27/06/2020

Entretanto, o mundo continua redondo e a girar.

Frantz Fanon disse algo como o sonho do escravo é ser um dia senhor e a África pós-colonial deu-lhe razão. Por cá, o que a história nos diz é que este fenómeno começa mais cedo, ainda no século XVI, quando um grupo de negros requereram ao rei a autorização de prestarem ofício na câmara de Ribeira Grande. Como escreveu Gabriel Fernandes, a ambição era fazer parte do grupo dos brancos. Cerca de um século depois, nasce a Irmandade dos Homens Pretos, descrito por Nuno Rebocho como uma elite de escravos, homens de confiança dos seus senhores, grupo de caçadores de escravos. Muitos deles tornaram-se lançados, pequenos morgados e donos de escravos e no século XVIII integraram o grupo dos filhos (brancos) da terra, dai a expressão djam branku dja.  

Nesta empreitada de integrar o mundo dos brancos, como magistralmente reflectiu José Carlos dos Anjos, na impossibilidade de esconder a cor da sua pele, importa do Brasil, da sociologia de Gilberto Freyre, a ideologia da mestiçagem, mas invertendo a sua lógica, tornando-o assim mais racista do que já era, tentando com isso piscar o olho ao pai branco (biológico e adoptivo) que o renegou. Portanto, perceber a integração do cabo-verdiano em partidos e grupos de extrema-direita, algo muito comum nos finais do século XX, passa pelo entendimento da sua busca histórica por uma identidade que não seja nem africana nem negra e que no processo levou-o a rejeitar o seu próprio sujeito, transformando-se num mero objecto rastejante e intelectualmente submisso.   

O que hoje acontece é apenas uma continuidade histórica, em que o lixo brasileiro continua como referência de um grupelho de imbecis dado a teorias conspiratórias obscurantistas. A diferença e por si só grave, é que a promoção deste lixo ideológico dá-se no interior da estrutura do poder fora do contexto colonial formal. 

[Foto: David LaChapelle, 2009]

10/06/2020

Nós e os símbolos nacionais

Lembro-me da fala de Filinto Silva num evento sobre o racismo em Lisboa, sobre o cúmulo da bazofulândia crioula, na altura do lançamento da obra "Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata (1460 - 1878)" de António Carreira, nos anos de 1970, em que uma certa elite viu seu status confirmado pela presença do seu apelido na lista das famílias proprietárias de escravos, anexada no livro. 

Enquanto isso, em Londres, o governo da cidade inicia uma reavaliação do património que faz referência a escravocratas. 

[Foto: Robert Frank, 1955]

06/06/2020

Mercado de trabalho | 2019

De forma geral, um olhar cruzado sobre os dados do mercado de trabalho, referentes ao ano de 2019, diz-nos que a taxa de desemprego aumentou 11,3% a mais do que a taxa de emprego e que é mais provável que a redução da taxa de subemprego esteja relacionado com a taxa de desemprego e do que com uma suposta melhoria das condições do trabalho. Aponta que se é verdade que há menos desempregados (1,1%) do que em 2015, também há menos empregados (0,1%). Indica que não obstante o discurso da promoção do auto-emprego com direito a strip tease institucional, há uma diminuição de 0,4% em relação a 2018. Igualmente, que apesar da conversa da promoção do mercado privado e do Estado mínimo, o sector privado perde para o sector da administração pública 0,7% da sua capacidade de empregabilidade. Ou seja, muita conversa e tónica colocada no fazer diferente, mas, na prática, mais do mesmo.

E se tomarmos em consideração que as ilhas do Sal e da Boa Vista apresentavam em 2019 uma taxa de emprego superior a 70% e que o sector dito informal empregava 52,5% da população trabalhadora, o pós-Covid só descola mesmo se consciencializarmos que uma outra normalidade é preciso.

[Foto: Alex Prager, 2013]

30/05/2020

Nós e a sociedade pós-morgadia


No século XVIII, era esse o discurso nos documentos oficiais da sociedade colonial em relação à sociedade da resistência: "toda a plebe montanhosa é extremamente rústica e selvagem, e totalmente ignorante da doutrina cristã, porque, como vive pelos montes, aonde cada um tem o seu casal, com a searazinha, e onde pastam os seus gados... aí mesmo vão criando seus filhos brutinhos, sem comunicação, nem doutrina... Eles andam quase mas, dormem sobre uma esteira de tábua... suas casas são de palha, ordinariamente feitas pelos habitantes no pronto espaço de 24 horas... São nimiamente bêbados e mais apaixonados da aguardente, dados a desordens, servindo-se de dois géneros de armas proibidas - uma faca e um pau de quatro quinas, vulgarmente chamado de manduco. Muitos feitos à mancebia, muitos soberbos e vaidosos, e consequentemente integrantes".

Volvidos dois séculos e meio continua a ser este o discurso oficial que sustenta a violência do Estado. Uma violência a dois níveis: a nível da força física e militarizada e a nível da ausência. Por um lado, reconhecendo que algumas construções no Alto da Glória surgiram com o estado de excepção devido à pandemia, em qualquer Estado que se quer de Direito e Democrático, estas e outras situações devem ser revolvidas com base em negociações proporcionais. São vários os casos sabidos de gentes bem posicionadas e encostadas nas tetas do Estado a construir ilegalmente, inclusive perto do local, sem que se tenha o mesmo tipo de aparato. Aliás, ingénuo aquele que acreditar que estas demolições tem como base uma preocupação urbana. Nem urbana, nem de saúde pública. Tenho para mim que este tipo de tratamento a mães pobres com seus filhos configura uma espécie de violência estrutural de género.

Por outro lado, se existe um problema urbano e habitacional na Praia, é tão simplesmente porque existe ausência de uma política pública de habitação ou mesmo de uma política urbana. O problema é na verdade mais conceptual, ao ponto da câmara confundir política urbana com política de loteamento. Diria até que este problema conceptual nem sequer é devido a um problema empírico, mas mais uma questão de foro criminal, se tomarmos em consideração a forma como grupos de amigos e familiares instalados em vários municípios do país tem gerido a coisa pública e, em alguns casos, kasubodiandu a coisa privada. 

Enganados também aqueles que acreditam que se resolve este tipo de problema com importações de conceitos estrangeirados, que não é mais do que uma tentativa pós-morgadia de servir de intermediário do dito povo junto às agências globais de financiamento e a abertura de outras portas para a especulação imobiliária na era digital. Como diria um José Carlos dos Anjos, é mais uma "forma de regulação e alinhamento dos interesses das elites políticas (e técnicas) locais aos interesses neocoloniais". Estancar isso, a meu ver, passa pelas mãos das ditas associações comunitárias e movimentos sociais que deveriam consciencializar que, no que a cidade diz respeito, a palavra de ordem deve ser direito à cidade e habitação e que isso só é possível deixando os protagonismos e segregações toscas de lado e juntos pensarem na construção de uma cidade rebelde.      

[Foto: Dawit L. Petros, 2016]

27/05/2020

Da pós-qualquer coisa e do culto do chico-espertismo crioulo

Amílcar Cabral afirmou, nos anos de 1970, o seguinte: "um comissário político, por exemplo, vê um rapazinho bom militante; em vez de se ocupar dele para o ajudar, para ele entender mais, para avançar, em vez de o animar, não, faz dele um menino de recados. porque é esperto, sabe bem, vai rapidamente; se lhe der uma coisa para guardar, guarda bem; e, então, dá-lhe o seu saco de roupas, para ele guardar, em vez de fazer dele um valor para a nossa terra. Ou então: aparece uma rapariga, esperta, mais ou menos bonita, em vez de o ajudar, dar-lhe a mão para avançar, para ser enfermeira, ser professora, para ir estudar, para ser uma boa miliciana, ou qualquer outra coisa, não, faz dela sua amante; porque é muito bonita e ele é que tem o direito de tomar conta dela. Temos de acabar com isso".

Volvidos mais de 40 anos, o contexto pós-colonial e pós-partido-único não só institucionalizou esse tipo de prática como possibilitou a ascensão social e económica dos antes meninos de recados, hoje transvestidos de empreendedores à custa do Estado via partido-Estado pós-democrático.   

[Foto: Ima Mfon, 2017]

22/05/2020

Cabo Verde e a CEDEAO

Sobre isto, o que há a dizer é que numa conversa com José Vicente Lopes, em 2014, Onésimo Silveira contava episódios de gentes tanto do PAICV como do MPD, ambos com responsabilidades políticas, que diziam publicamente que Cabo Verde não tinha nada a ganhar com a CEDEAO. Retorquía com o seguinte: "Cabo Verde só tem valor para a Europa enquanto formos uma plataforma de penetração dos países da CEDEAO. A Europa exige a nossa presença na CEDEAO para fazer progredir o nosso acordo com a UE. Enquanto não tivermos uma relação sólida, multifacetada, com a CEDEAO, a Europa não nos vai abrir as suas portas".  

[Foto: Namsa Leuba, 2015]

20/05/2020

Dos misticismos às ideologias africanas

Elungu P.E.A. afirma nos anos de 1980 que "o período da colonização constituiu, e constitui ainda, o período mais determinante no que se refere à preparação, lenta mas certa, da transição da mitologia para a ideologia". Nascido na diáspora com a aspiração de unir a África, tanto o culturalismo do haitiano Jean Price.Mars, o messianismo do jamaicano Marcus Garvey como o intervencionismo intelectual do norte-americano W.E.B. Du Bois contribuíram cada um da sua maneira para o nascimento do pan-africanismo enquanto ideologia de libertação de África, que embora celebra este mês 67 anos da proclamação em Adis Abeba, na Etiópia, do chamado dia de África, ainda está por se fazer, muito por culpa também dos seus dirigentes. 

Tendo em conta que as diversas ideologias implementadas no pós-independência foram importadas do ocidente, faltou, na opinião de Elungu, um trabalho da sua transformação em ideologias africanas, só possível se houvesse interesse no desenvolvimento de uma filosofia africana que o suportasse. O certo é que nas várias conferências pan-africanistas realizadas durante o século XX na Europa, ideias como a unidade africana, o socialismo e o partido único foram amplamente teorizadas e discutidas, sem que no entanto as suas implementações tivessem alcançado os objectivos traçados. 

Contudo, como tinha previsto Cabral, muitos que desprezavam África no início da luta, ao se perceberem que era possível chegar a independência, fizeram-se de interessados, embora o único objectivo era vir a ser presidente da República ou ser Ministro "para poder explorar o seu próprio povo... de ter todos os diamantes, todo o ouro, todas essas coisas boas, terem todas as mulheres que quiserem na África ou na Europa: para poderem passear pela Europa, serem recebidos como presidentes, para vestirem caro, de fraque ou grandes bubus, para fingirem que são africanos... são lacaios ou cachorros dos brancos". 

[Foto: Mauro Pinto, 2012]

11/05/2020

Naomi Klein e o capitalismo da catástrofe

Naomi Klein defende que "as tácticas de choque seguem um padrão claro: esperar por uma crise, declarar uma fase daquilo a que por vezes se chama de 'políticas extraordinárias', suspender algumas ou todas as regras democráticas - e depois implementar o mais depressa possível a lista de desejos das grandes empresas".    

[Foto: Chien-Chi Chang, 1961]

08/05/2020

Nós e as "fomes"

A etnografia urbana me tem mostrado desde 2007 que, por exemplo, na cidade da Praia, a karaka di beku serve muitas vezes, mais do que mera actividade de convívio do bairro, como a única actividade de solidariedade e assistência alimentar para muitas pessoas, jovens e menos jovens, do baxu-praia, algo invisível aos olhares da malta do eixo centro-sul da capital, cujas visitas em modo safari urbano em épocas de campanha eleitoral, de charme institucional ou de assistência social mediatizada não permite captar. Tem-se escrito e comprovado em vários contextos rurais e urbanos que o espectro da fome faz parte da realidade quotidiana das ilhas, mas o que tem escapado à dita classe intelectual e às ciências sociais (re)produzida nas ilhas, quiçá de forma intencional, é a capacidade em perceber a nova dinâmica das "fomes" no arquipélago.    

[Imagem: Tim Okamura, 2016]

28/04/2020

Nós e o neoliberalismo

O neoliberalismo, enquanto projecto económico, é considerado como uma expressão radical do capitalismo que entende que o mercado tem sempre razão, que regulamentar é sempre errado, que a iniciativa privada é boa e a pública é má e que não há nada pior do que impostos para sustentar serviços públicos. Assim, na sua visão do mundo, os governos existem para criar as condições óptimas para que os interesses privados maximizem os seus lucros e riqueza, com base na ideia de que os lucros e o crescimento económico decorrentes acabarão (um dia) por beneficiar toda a gente, escorrendo do topo para a base.

Enquanto projecto ideológico, acredita, com base na fé cristã, que com isto se consegue almejar a justiça social e resolver os problemas das desigualdades sociais. Contudo, se isso não acontecer e os problemas persistirem teimosamente (que é o que tem acontecido sempre), as falhas só podem se dever a uma suposta causalidade externa ou estar nos indivíduos e comunidades. Ou por causa de uma situação de calamidade pública ou porque terão uma cultura do crime ou porque lhes falta uma ética de trabalho ou talvez se deva a pais ausentes ou qualquer outra desculpa com base numa suposta cultura ou "raça" inferior para justificar que políticas e fundos públicos jamais sejam utilizados para reduzir desigualdades, melhorar vidas ou fazer fase a crises estruturais. A incapacidade do sector privado em substituir, em alguns sectores estruturantes, um estado demissionário é completamente ignorado.      

É uma receita que tem sido aplicada em toda a parte, independentemente do contexto, da história ou das esperanças e sonhos das pessoas e convém ter em conta que em Cabo Verde é adoptado enquanto modelo económico nos finais dos anos de 1980 e enquanto modelo ideológico a partir dos anos de 1990. No entanto, a nível global, tem-se observado a sua parte perversa e oculta, em que indivíduos e grupos de sociabilidade tem utilizado a sua retórica para, através dela, capturar o estado por via dos partidos políticos para fins de enriquecimento pessoal, familiar ou corporativo.    

[Imagem: Blu, 2012]

25/04/2020

Amílcar Cabral e o 25 de abril

Sobre o 25 de abril, não custa lembrar o entendimento que Amílcar Cabral tinha da luta anticolonial como algo solidária também com o povo português. Disse certa vez que "se a queda do fascismo em Portugal poderia não conduzir ao fim do colonialismo (...), nós estamos certos de que a liquidação do colonialismo português arrastará a destruição do fascismo em Portugal". 

[Imagem: Hélder Cardoso, 2018]

24/04/2020

The Time to Act is Now

O Africa is a Conntry publicou hoje uma carta destinada aos dirigentes africanos intitulada The Time to Act is Now, assinada por mais de 90 pesquisadores e intelectuais africanos, sobre as estratégias avançadas no combate à pandemia do COVID-19 no continente e aconselhando o melhor caminho a seguir. 

A grande crítica tem a ver com a forma como muitos países africanos importaram o modelo securitário ocidental mais virada para a uma "classe média" com condições favoráveis de trabalhar em casa, punindo de forma punitiva aqueles cuja sobrevivência depende do trabalho informal. "Sejamos claros: não defendemos uma escolha impossível entre segurança económica e segurança sanitária, mas insistimos na necessidade dos governos africanos levarem em conta a precariedade crónica que caracteriza a maioria das suas populações". 

Não obstante a solidariedade, criatividade e o grande dinamismo demonstrada por actores sociais individuais e organizações da sociedade civil, ressaltam que estas iniciativas não compensam de forma alguma o despreparo crónico e as deficiências estruturais existentes apontados por tantos estudos ignorados ao longo dos anos. "Em vez de se ficar na ociosidade à espera de dias melhores, devemos nos esforçar para repensar a base do nosso destino comum a partir do nosso próprio contexto histórico e social específico e dos nossos recursos. Nossa crença é de que a emergência não pode ser nem deve constituir um modo de governação. Em vez disso, devemos apreender que a real urgência é reformar as políticas públicas favoráveis à população e de acordo com as prioridades africanas". 

Chamam a atenção para o efeito limitado dos anunciados alívios das dívidas externas, uma vez que não são a causa primária, mas um sintoma de modelo de desenvolvimento que reflecte profundas assimetrias na economia global e manifestação de uma perversa integração das economias africanas no mercado global. "Os governos africanos também precisam ser mais transparentes e responsáveis quanto ás condições sob as quais tomam empréstimos externos". 

Portanto, segundo os signatários, a restauração da soberania africana passa pela reconceptualização do cidadão africano enquanto sujeito jurídico de pleno direito e beneficiário de políticas públicas. 

[Foto: Aida Muluneh, 2016]

23/04/2020

Naomi Klein e a táctica de choque em larga escala

No seu último livro, Naomi Klein escreve sobre o perigo de uma crise global e a tentação de implementação de uma política de choque sem precedentes na história, liderada por políticos e empresários populistas de extrema direita (e seus imitadores e seguidores provincianos). Segundo ela, "as pessoas não ficam em estado de choque quando lhes sucede algo de mau e com suficiente relevância; é preciso que esse acontecimento seja também algo que não consigam compreender, pelo menos de imediato. Um estado de choque sucede quando há uma lacuna entre os acontecimentos e a nossa capacidade imediata para os explicar. Quando damos por nós nessa posição, sem uma narrativa, à deriva, muita gente torna-se vulnerável a figuras de autoridade que nos dizem para termos medo um dos outros e para abdicarmos dos nossos direitos em nome de um bem maior". 

[Imagem: Ben Slow, 2012]

22/04/2020

Aminata Traoré, intelectualidade bling-bling e o estado pós-colonial africano

Ouvi Aminata Traoré pela primeira vez em 2010, num congresso de estudos africanos em Lisboa, onde usou o termo intelectuais bling-bling para designar o comportamento pós.colonial de alguns intelectuais, pesquisadores e dirigentes africanos. Lembro-me de na plateia estar Corsino Tolentino que, um pouco indignado, toma a palavra pata fazer o tal discurso da especificidade cabo-verdiana, baseado num olhar elitista das ruas da frente do eixo centro-sul da cidade da Praia e cínica das salas climatizadas das instituições parceiras do desenvolvimento e do poder instituído.

Isto a propósito de alguns excertos que voltei a ler desta intelectual e activista africana sobre o actual cenário de despolitização da juventude africana e do descrédito dos partidos políticos e das instituições ditas democráticas em África. Para a autora, a adopção de políticas económicas desligadas da realidade do continente e dos interesses de seus povos tem levado à perda do interesse na política, considerada por ela como uma das principais ameaças para a África contemporânea, ainda necessitada de curar suas "feridas simbólicas", tanto do passado quanto do presente. 

Defende que o "descrédito  político, cria, a médio e a longo prazo, situações explosivas das quais a comunidade de credores tira lucro para dar renovada legitimidade às políticas neoliberais". A ideia de que a pobreza seria a principal característica do continente e de certos países é, portanto, um desses mecanismos dos jogos de poder do actual processo de globalização utilizados para, através de um conjunto de diagnósticos incompletos impostos e financiados pelas agências de ajuda para o desenvolvimento, propor remédios inadequados, que apontam como o único caminho de desenvolvimento a passagem desses países pela fase da globalização neoliberalista. 

Neste processo, digo eu, a intelectualidade bling-bling representada peloEstados africanos pós-independentes, seus partidos políticos e classe dirigente e intelectual mais corrupta e/ou alienada, "reivindicam e se apropriam desta grande mentira" e isso faz com que "a luta pela pobreza se transforme numa regressão mental e política", certamente desvantajosa aos que de fato estão necessitados de ajuda, ou seja, a população africana.           
[Foto: Em'Kal Eyongakpa, 2009]

20/04/2020

Sobre o discurso da institucionalização da economia dita informal

Existe no país, há já algum tempo, o discurso institucional da necessidade de mudança de paradigma a nível do comércio dito informal. Entendo-o, assim como a ideologia subjacente. Nada contra. Contudo, entendo-o, também, como um discurso acrítico, visto não tomar em consideração a real estrutura social e económica do país e as razões por detrás da sua configuração. Vários estudos sobre desenvolvimento tanto em África como na América Latina têm apontado este equívoco. Jane Guyet, por exemplo, no seu estudo sobre os modos de vida nas cidades nigerianas, mostra que inclui uma economia dita informal que sustenta o emprego e a criação de activos de capitais, mas que, em grande medida, vê o seu investimento retirado por instituições estatais e de regulação, provando que ela complementa a formal, uma vez que estão em constante relação. Por estas bandas, poderia acrescentar o lucro que ela proporciona ao comércio formal, incluindo as companhias de viagens. Em termos conceptuais, como destaca Raúl Zibéchi, urge a necessidade de substituir o termo economia informal para economia de resistência, visto que ela surge como resultado e alternativa ao mau funcionamento do sistema económico vigente.

O que tenho para mim é que, nas ilhas, qualquer reflexão que se queira séria acerca deste assunto deverá partir dessas premissas, sem deixar de lado a questão da justiça social.

[Foto: RWL, 2019]

15/04/2020

Nós e uma espécie de gestão sanitária em modo táctica "correr atrás do vírus"

Há quem ache que é anti-patriotismo estar a acossar o governo e outras que a "guerra" é de todos e, por isso, o momento é de união. Tudo bem. Contudo, perante a escolha governamental do argumento da criminologia do outro, num contexto territorial em que a amnésia colectiva é uma doença crónica e o fascismo social tem-se revelado como uma epidemia nacional, urge lembrar que a luta dos trabalhadores do Riu Karamboa não começou há dois dias.

Convém não esquecer que no dia 29 de março, mais de uma semana depois de terem entrado em quarentena, os trabalhadores exigiram testes e uma das funcionárias teve a seguinte afirmação: "pelo menos se desse negativo poderíamos ir para casa também, Todas aqui têm  família, filhos que todos os dias nos perguntam quando é que vamos para casa".  O governo garantiu que seriam feitos dentro de uma semana. Mais de duas semanas depois do ocorrido, o que se questiona, como bem salienta o Notícias do Norte, é "porque as autoridades sanitárias não optaram por fazer testes a todos e, em vez disso, optaram para testas apenas e só quem viesse a apresentar sintomas?

[Foto: David LaChapelle, 2006]

13/04/2020

José Leitão da Graça, pan-africanismo e o suicídio do intelectualismo gregário

José Leitão da Graça, um dos activistas e intelectuais do pan-africanismo cabo-verdiano, conterrâneo de Cabral (com quem teve fortes divergências ideológicas e políticas), que a nova geração pouco ou nada conhece, chamava a atenção, num Colóquio Internacional, organizado na cidade da Praia, em 1996, que o primeiro passo para a construção de uma sociedade crítica em Cabo Verde, assim como para a (re)construção de um projecto de estado federalista regional africana, passava pela mudança do sistema intelectual gregário para o sistema intelectual orgânico. Entendia o intelectual gregário como um produto colonial, consolidado no período do partido único e que, por isso, persiste até hoje. Definia-o como aquele que se contentava em ter um diploma, fazer carreira e calar-se para sempre.  

[Foto: Omar Victor Diop. 2014]

10/04/2020

Estado de emergência e reflexão pós-COVID-19


Embora não muito ressaltada pela comunicação social institucional, torna-se evidente que o COVID-19 veio pôr a nu a frágil situação social do país fora das ruas da frente do eixo centro-sul da cidade da Praia, embora negada com base na idiotice ideológica de que o crescimento económico leva obrigatoriamente ao desenvolvimento social. Assim, como defendeu alguém recentemente, urge a necessidade de uma reflexão a sério pós-COVID-19, fora das lógicas da indústria do coffe break, sobre as políticas de protecção e inclusão social. sobretudo as levadas a cabo pelas Câmaras Municipais, e a forma como as associações ditas comunitárias e os grupos informais têm desenvolvido os programas de acção social. bem como a articulação entre si e com as instituições públicas locais e centrais.

Por enquanto, na eventual da prorrogação do estado de emergência para mais 20 dias, compreensível diga-se de passagem, se calhar, um ato responsável de serviço público poderia passar pelos titulares de cargos políticos e administradores da coisa pública com salários bem acima da média nacional, partilhassem parte dos seus salários e a totalidade dos seus subsídios com a população que, na impossibilidade do disgadjamentu do dia a dia, têm sentido séries dificuldades de sobrevivência.

[Foto: David LaChapelle, 2003]

06/04/2020

Da série "mais um domingo"

Digam o que disserem os bajuladores profissionais e os pseudo-civilizados, tenho para mim que aproveitar a entrega de cestas básicas e apoios sociais para cadastrar pessoas em situação de vulnerabilidade é um indicador de que há falhas graves no sistema de protecção e de serviço social público, sobretudo a nível local.

Entretanto, lá fora, ao que parece, as chamadas nações civilizadoras precisam é de uma boa dose de missão civilizadora. 

[Foto: Alex Prager, 2013]

30/03/2020

São Vicente - 120 anos de luta pela autonomia político-administrativa

Nos tempos do Porto Grande do Mindelo (2005). Trabalho de António Correia e Silva, centrado no percurso histórica da cidade do Mindelo e na transformação de São Vicente de uma ilha-montado ao serviço dos grandes proprietários de Santo Antão e São Nicolau, para uma cidade-porto referência no atlântico nos finais do século XIX e sua consequente crise e decadência no início dos anos de 1900, passando pela sua importância enquanto ponto de apoio dos baleeiros norte-americanos e das armadas europeias-norte-americanas na disputa pelo domínio do Atlântico Médio. 

Uma importante obra que deve ser tomada como ponto de partida (cruzado com outras fontes) na compreensão do contexto que possibilitou a emergência de uma forte consciência de identidade local (erradamente transportada pela literatura mainstream como identidade cabo-verdiana) que serviu de suporte ao nascimento de um movimento social diferente dos movimentos de resistências da ilha de Santiago. Nessa altura, nas palavras do autor, "o movimento social mindelense é, do ponto de vista sociológico, uma entidade trans-classista que emerge do contexto de crise do Porto Grande, pondo em marcha uma acção estratégica com vista a travar o desenvolvimento da tendência à marginalização de S. Vicente das rotas de navegação transatlântica". 

Interessante verificar, nos dias de hoje, a reprodução do discurso e a readaptação do desenho da proposta da arquitectura político-administrativo, apresentado pelo escritor e jornalista Luís Loff Vasconcellos, no início dos anos de 1900, A "divisão da Província em dois distritos administrativos autónomos, dotado cada um do seu governador. A sede do distrito norte estaria no Mindelo e a do sul, na Praia. Contudo, mais do que este plano de regionalização, puramente administrativo, o que se apresenta como verdadeiramente revolucionário na obra de Loff Vasconcellos é a proposta da criação de um senado em cada um dos distritos, formados por 10 membros, eleitos pelo povo de 3 em 3 anos".         

[Foto: Raúl do Rosário, 1922]

29/03/2020

Coronavírus e a Luta de Classes

Coronavírus e a Luta de Classes (2020). Uma compilação de textos escritos por pesquisadores marxistas que nos fornece uma leitura útil e necessária sobre o actual contexto social e político global.     

"Aqueles com bons planos de saúde que também podem trabalhar ou ensinar de casa estão confortavelmente isolados, desde que sigam salvaguardas prudentes. Os funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados com cobertura decente terão de fazer escolhas difíceis entre renda e protecção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores com baixos salários, trabalhadores rurais, desempregados e sem tecto estão sendo jogados aos lobos" - Mike Davis.  

"Há a questão de quem pode e quem não pode trabalhar em casa. Isto agrava a divisão social, assim como a questão de quem pode se isolar ou ficar em quarentena (com ou sem renumeração) em caso de contacto ou infecção. (...). Assim, o progresso da COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, de género e de raça" - David Harvey. 

"Tanto a propagação do vírus responsável por esta pandemia como as medidas desigualmente eficazes tomados pelos Estados para proteger as suas populações provam, se necessário, que a saúde é, antes de mais nada, um bem público" - Alain Bhir. 

"Considero que estamos diante de um ensaio que está aplicado em situações críticas, como desastres naturais, tsunamis e terromotos, mas, sobretudo, diante das grandes convulsões sociais capazes de provocar devastadores crises politicas para os de cima. Em suma, eles se preparam para eventuais desafios à sua dominação" - Raúl Zibechi. 

"(...) será preciso mostrar publicamente e sem medo que as chamadas 'redes sociais' demonstraram mais uma vez que são, acima de tudo - para além do seu papel na engorda dos bolsos dos bilionários -, um lugar de propagação da paralisia mental dos fanfarrões, dos rumores descontrolados, das descobertas de 'novidades' antediluvianas, ou mesmo do obscurantismo fascista" - Alain Badiou.

"A questão não é desfrutar sadicamente da propagação do sofrimento enquanto ele serve a nossa causa, mas reflectir sobre o triste fato de que precisamos de uma catástrofe para podermos repensar as características básicas da sociedade em que vivemos" - Slavoj Zizek.

[Foto: Cindy Ord, 2020]

27/03/2020

Sobre as medidas sociais do governo

Se os dados do INE estiverem correctos e os números de beneficiados pelas medidas sociais do governo forem mesmo essas, pode-se estimar que cerca de 5,4% de famílias em pobreza extrema ficam fora do rendimento social de inclusão, que cerca de 20,5% de famílias pobres ficam fora da assistência alimentar e que cerca de 36,7% de crianças dependentes de famílias mais vulneráveis ficam de fora do programa de garantia de segurança alimentar. Em relação aos trabalhadores do sector informal, obviamente as vendedeiras ambulantes quotidianamente perseguidas pelas Câmaras Municipais, provavelmente, ficam também de fora. Ou seja, é muita gente de fora, sobretudo mulheres, e muita mais poderá ficar caso isto ultrapassar o mês de abril.

É certo que os governos, central e locais, não conseguem fazer tudo (e há casos que também não lhes interessam), mas fizeram uma parte. Assim, para além do recrutamento dos trabalhadores sociais, cuidadores e voluntários para garantir a assistência aos idosos isolados e em situação de precariedade, cabe também à dita sociedade civil dar vida à sua graça mobilizando nos seus bairros e cutelos na assistência aos que ficam para trás, de forma colaborativa ou não com os poderes públicos formalmente instituídos.       

[Foto: Vincent Yu, 2019]

23/03/2020

Resolução n. 52/2020 e o teletrabalho

De acordo com o artigo 3, da resolução n. 52/2020 do Conselho de Ministros do Governo de Cabo Verde, publicado hoje no Boletim Oficial, "a mãe, o pai ou quem exerça o poder paternal da criança que frequenta cheche, em concertação com a entidade empregadora, caso possua as condições logísticas necessárias, para ficar em casa, sob regime de teletrabalho, para garantir o cuidado da criança". 

Segundo o Ministério da Saúde, estão neste momento no país cerca de 150 pessoas a serem seguidas, contudo, não obstante os riscos de contágio derivado da aglomeração de pessoas e do tal discurso Cabo Verde 2.0, há chefes em modo capataz a teimarem na presença de pessoas no local de trabalho, em actividades que podem perfeitamente ser efectuados a partir de casa, quiçá, à espera do primeiro caso fora da ilha da Boa Vista.

[Foto: Josep Lago, 2020]

17/03/2020

Sobre as formas de crime organizado activos no país

Numa altura em que tanto se fala de crime organizado de colarinho branco, com a claque e algumas gentes ligadas ao MPD a fazer o papel do PAICV e suas gentes e o respectivo claque no tempo da outra senhora, o que tem escapado a muita boa gente é que, para além das ditas máfias e dos gangues do narcotráfico, torna-se necessário começar também a pensar algumas organizações da dita sociedade civil activa no país como formas de crime organizado. 

[Foto: Richard Avedon, 1982]

15/03/2020

Uma ilha, duas realidades

Ao contrário da realidade esquizofrénica da Praia, a grande reportagem da TCV Uma Ilha, Duas Realidades, apresenta a cidade do Mindelo como uma cidade partida, um modelo analítico que não obstante a crítica, sobretudo devido à sua matriz analítica euro-cêntrica, tem alguma razão de ser, se tomarmos em consideração o processo histórico da formação social da ilha. 

Perante a ausência do Estado nas periferias da cidade, a iniciativa Outros Bairros, enquadrado no Programa de Requalificação, Reabilitação e Acessibilidade do Ministério das Infraestruturas, do Ordenamento do Território e Habitação, baseado num processo colaborativo de forte pendor académico, surge como uma lufada de ar fresco na forma como a cidade deve ser apropriada.      

[Foto: RWL, 2020]

12/03/2020

Nós e as supostas máfias

Sobre a chamada máfia dos terrenos, lembro-me do juíz Raúl Varela falar, em 2014, da máfia da justiça que tem condicionado a justiça cabo-verdiana e sei que a memória ilhesca é curta para alguém se lembrar do ano de 2009, quando se denunciou (e com direito a uma extensa reportagem no extinto jornal físico do A Semana) uma outra máfia dos terrenos (com outros protagonistas, desde empresários com ligações partidárias, funcionários públicos, gestores de topo de instituições públicas e agentes mediadores com ligações ao narcotráfico transnacional com sede de operações nas ilhas). 

Eu (e muitos outros) que conheço bastante bem o crime organizado de colarinho branco nacional, sei que isto é apenas a ponta do iceberg e consciência tenho de que, palavreando alguém bem posicionado na estrutura judicial nacional, em Cabo Verde, ao fim ao cabo, o que interessa não é o suposto crime cometido em si, mas o status social (acrescento, o tamanho da rede de influências ou como popularmente se diz por aqui, de padrinhagem) de quem supostamente o comete. 

[Foto: RWL, 2020]

11/03/2020

Cabral e nós por cá

Entretanto, não obstante Amílcar Cabral, o teórico da luta de (in)dependência nacional, ter sido colocado no pódio dos líderes históricos organizado pela BBC World Histories Magazine e o seu pensamento e legado ser cada vez mais debatido e pesquisado nas universidades e centros de pesquisa de referência tanto no mundo ocidental como no continente africano, por cá, a universidade pública acha desnecessário manter a Cátedra que carrega o seu nome. 

[Imagem: Vhils, 2019]

29/02/2020

O rap cabo-verdiano e a crítica social

Como já escrevi em outros espaços, o rap no contexto cabo-verdiano deve ser percebido como um dos expoentes máximos do tipo de cultura popular emergente que tanto os cientistas sociais como aqueles que decidem deveriam estar atentos, não pela moda em si, mas pelo tipo de crítica social e política que carrega.

Como relata Ga Dalomba, a música afrokabuverdianu não passa de uma ironia, numa sociedade com níveis preocupantes de crise de identidade. Diria eu, numa sociedade com séries dificuldades de se ver identificado no espelho. Entretanto, nada que uma leitura mesmo que rápida de um Frantz Fanon não possa servir como terapia.

[Foto: Hélder Doca, 2016]

26/02/2020

Amílcar Cabral e os pressupostos para uma governação íntegra

Amílcar Cabral definiu, em função da situação real dos países onde liderou a luta armada, um quadro de referências de acção política a ter em conta no momento da independência. Dizia constantemente que a realidade é o que existe e não aquela que está na cabeça de cada um. Para isso, ao contrário do que se veio fazer posteriormente (com destaque para os dias actuais em matéria da juventude e da segurança), seria necessário assumir as políticas a partir de uma análise adequada das realidades sobre as quais se pretendia actuar, sem oportunismo nem utilitarismos.   

[Foto: Don McCullim, 2004]

24/02/2020

Do conceito deportação ao conceito readmissão

Quando, em 2017, publicamos este working paper, o objectivo era trazer à discussão conceptual uma possível redefinição do conceito da deportação, já que tinha sido assinado, pouco tempo antes, o acordo de readmissão que confirmava Cabo Verde como uma fortaleza avançada euro-norte-americana no Atlântico Médio, visto abrir portas para a admissão de deportados de países terceiros, desde que tivesse transitado o arquipélago na sua viagem para o Norte.

Isto a propósito da notícia sobre os oito deportados cabo-verdianos dos EUA nesta semana, em que a preocupação jornalística (e/ou social) centrou-se numa suposta contaminação da sociedade cabo-verdiana do modus operandi destes jovens, ignorando o fato de que a onda de violência de rua transnacional cabo-verdiano e a consequente desestruturação da criminalidade semi-organizada local, do que propriamente com uma suposta reprodução nas ilhas da actividade criminal destes deportados. Contudo, o que não se falou foi o transporte, neste mesmo voo privado, de deportados de países terceiros, mesmo não tendo transitado as ilhas.

[Foto: Robert Frank, 1956]

23/02/2020

Da reprodução social e política

Sobre a sociedade morgadia do século XIX, escrevia António Pusich, que "em Santiago e Fogo, esta mediocridade se transmite de pais a filhos, os quais por não conhecerem outra situação, ficam vivendo na insocialidade, libertinagem e ociosidade concentrando-se só nestes pontos as suas principais ideias. Nada procuram conhecer ou indagar do que os pode instruir e civilizar, e desta forma vivem na ignorância, cercados de vícios, assim como de negros, escravos ou livres, todos seus domésticos; e enfatuados no título de Morgados para se verem mais tranquilos, cedem desde logo na mão de algum mais privado fâmulo a administração das suas fazendas; e aquele feitor orgulhoso com este pequeno poder, e ignorante inteiramente das suas obrigações, não faz mais que oprimir os miseráveis escravos, segundo as suas paixões. Deste modo a ruína daquelas herdades é infalivelmente por todos os modos contempladas". 

Embora seja necessário enquadrar o contexto colonial e racista em que surge, este tipo de discurso é hoje reproduzido por uma certa elite herdeira da Irmandade dos Homens Pretos, uma espécie de aristocracia escrava ladinizada e de confiança do seu amo, saída das entranhas das milícias de caça aos negros auto-libertos. Por outro lado, ignorando o seu carácter racista, diria que retrata na quase perfeição (a continuidade) o sistema sócio-político-partidário e associativo edificado nas ilhas.    

[Foto: RWL, 2014]

12/02/2020

INE e os dados semestrais de 2019 do mercado de trabalho

Quando se olha os dados do país fora do escopo político-partidário, a realidade é bem mais interessante. Existe esta tendência imediatista de mostrar serviço político e administrativo, o que leva certos responsáveis institucionais e políticos a cair muitas vezes em lugares comuns ideológicos que não passam disso mesmo. 

Longe das polémicas sobre possíveis manipulações dos dados do desemprego vis metodologias utilizadas, o que os principais indicadores do mercado de trabalho do primeiro semestre do ano de 2019 nos diz é que, tomando como referência o septénio  2013-2019, há um ligeiro aumento da taxa do emprego em 2019 (50,9%), quando comparado com 2013 (50,3%), mas inferior a 2016, ano em que alcançou a taxa mais elevada (54,2%). Pelo contrário, há uma diminuição da taxa de actividade (60,1% em 2013 e 57,1% em 2019) que teve também em 2016 o seu ponto mais alto (63,7%). A relação existente entre época eleitoral e aumento de emprego e de actividade não é novo e é daqueles fenómenos que normalmente não se dá muita atenção, mas muito quer dizer sobre a nossa democracia eleitoral.  

Em relação à taxa do desemprego, que é onde se concentra as maiores discussões, na maioria das vezes olhadas isoladamente, atinge na metade do ano de 2019 a sua taxa mais baixa, mas que deve ser entendido num contexto mais amplo de aumento da taxa do subemprego que atinge em 2019 o mesmo número que em 2013 (21,7%) e de inactividade que a partir de 2018 atingiu as maiores taxas  (44,4% em 2018 e 42,9% em 2019). Um dado interessante que permite elucidar sobre o tipo de emprego criado é o aumento de 7% da taxa de subemprego em relação a 2018.

No que toca à população juvenil, digam o que disserem de ponto de vista político-partidário, o certo é que o documento ao limitar-se a apresentar os dados a partir de 2017, inviabiliza um exame mais detalhado, embora, não deva ser diferente do cenário geral.   

[Foto: RWL, 2019]

11/02/2020

Sobre o estado do ensino superior

Sun Tzu, sobre as três maneiras através das quais o governante poderá trazer infortúnio ao seu próprio exército, afirma que "interferir na administração do exército sem entender os assuntos militares (...) leva o exército a baralhar-se". Um exercício interessante seria pensar a gestão das Instituições do Ensino Superior nas ilhas a partir desde postulado.   

[Foto: Paul Strand, 1964]

07/02/2020

O ensino superior e os processos de periferização global

Luca Bussotti, numa entrevista para a Revista Debates Insubmissos sobre os movimentos sociais, considera que o ensino superior e os pesquisadores, sobretudo africanos, deveriam ter um papel mais activo na crítica aos processos de periferização global, mas que tal não acontece porque se limitam a reproduzir o saber de matriz ocidental. "Podemos vislumbrar uma tendência clara, mais acentuada nos países do hemisfério sul, mas presente também em algumas realidades ocidentais, acerca do ensino superior, que responde perfeitamente a tendência da periferização global de que falava anteriormente: uma tendência de reduzir a capacidade de fazer pesquisa e produzir saber por parte da academia, sobretudo o saber não orientado por lógicas de mercado e por encomendas. Isso acontece mediante processos bastante simples, tais como o corte constante em termos financeiros (assumindo várias denominações, por vezes aliciantes), o que deixa pouco espaço aos processos de investigação, reduzindo cada vez mais as universidades a liceus melhorados, com uma parte didáctica preponderante e, muitas vezes, repetitiva. devido à falta de diálogo com a investigação e a extensão".

[Imagem: Dasic Fernández, 2014]

06/02/2020

Da forma de fazer política urbana

No ano passado o PR da CMP, numa entrevista, disse que o seu objectivo político é transformar a Praia numa Lisboa ou num Paris. Entre o final e o início deste ano, o novo chefe da EMEP, numa outra entrevista, disse que a Avenida Amílcar Cabral, no Plateau, popularmente conhecida como a avenida principal, vai ser transformada numa avenida pedonal entre o Mercado do Plateau e o Quintal da Música. 

Desde que se crie alternativas de estacionamento, sobretudo para os que habitam e trabalham no bairro (há uns meses se apresentou o parque subterrâneo na Praça Alexandre Albuquerque), e um sistema de transporte público eficiente (que poderá passar pela formalização e organização dos "hiaces" urbanos), acho o projecto interessante e pertinente. Contudo, conhecendo a forma irresponsável como as sucessivas equipas camarárias tem decidido e planificado, tenho as minhas dúvidas, até porque diz-se que a coisa estará pronto ainda este ano.

O mais grave é o desencontro entre o discurso sobre a nova forma de governação urbana com base na participação da população e a forma como as decisões são tomadas, ao estilo de um Governo Autárquico Autoritário luz e guia do povo.

Convém não esquecer que se está a falar de uma avenida projectada no século XIX para servir de eixo de ligação entre a zona litoral da cidade para as localidades do interior da ilha, tornando-se até hoje numa das mais movimentadas do país. Na semana passada, por exemplo, devido a um ligeiro bloqueio numa das partes da rua por detrás do Tribunal, viu-se o caos.   

Percebe-se, como é evidente, pela cultura de importação de modelos com escola no país, de onde vem a ideia. Esquece-se é que Lisboa ou qualquer outra cidade europeia, está, em tese, estruturalmente preparada. 

[Foto: Décio Barros, 2018]

15/01/2020

Cabo Verde e o discurso importado da Guerra às Drogas

O principal argumento apresentado pelo governo cabo-verdiano para a assinatura do SOFA, além de questões que tem a ver com a segurança das ilhas, é a luta contra o narcotráfico no Atlântico Médio. 

O que a história nos mostra é que no caso do Afeganistão, onde a papoila de que se extrai o ópio, cultivada tradicionalmente ao longo de séculos, o seu cultivo foi praticamente erradicada na era dos talibán, por considerarem-no contrário ao Islão. Contudo, o fato é que desde a invasão do território, em 2001, por forças da coligação lideradas pelos EUA, para além de se tornar num dos territórios mais inseguros do planeta, a produção do ópio não deixou de crescer, alcançando números nunca antes vistos, apesar de se saber que a sua comercialização servia também para sustentar a insurreição. 

Entender hoje as questões ligadas à geopolítica do narcotráfico, a partir da chamada Guerra ás Drogas liderada pelos EUA, obriga-nos a visitar a história imperialista e colonialista da era vitoriana na Ásia, na chamada Guerra do Ópio, que segundo autores como Amin Maalouf e alguns militares chineses, teve como principal fundamento a recusa da China a abrir-se ao lucrativo tráfico de drogas que o Reino Unido pretendia dominar e que resultou no maior narcotráfico organizado por um Estado que a história conheceu.      

[Imagem: Banksy, 2008]

02/01/2020

"Cabo Verde - cinco séculos de história, cinco séculos de revoltas"

Da rotunda a Santa Catarina. Por uma abordagem das sublevações nacionais à luz do republicanismo (2014). Trabalho de Sara Mascarenhas, centrado na explicação do surgimento dos movimentos de resistência em Cabo Verde do século XIX e início de século XX pela influência dos ideais liberais e republicanos despertados em Portugal. . 

É notório que a obra seria muito mais rica caso a autora tivesse dialogado com outros trabalhos já publicados, problema esse ainda persistente e sem fim à vista no mundo académico das ilhas. Cruzado com outros trabalhos sobre o tema, fica saliente a prática historicamente reproduzida de "uma pequena elite, detentora dos principais postos administrativos (...), logra atingir objectivos pessoais pela actuação e manobra sobre a massa (...), descontente face a determinadas situações abusivas que enfrentam no seu quotidiano, resultando daí sublevações locais com contornos políticos levados a cabo por indivíduos sem a mínima consciência do devir político nacional".

[Imagem: Leão Lopes, 2010]

01/01/2020

Ano XII

Doze meses depois do último post e numa altura em que faz doze anos, o ku-frontalidadi volta ao seu estilo original de ativismo político apartidário e insurgente. Espaço de desobediência, politicamente posicionado na chamada ala esquerda-radical anti-institucional, numa conjuntura legislativa dominada por uma facção político-partidária auto-identificada com a chamada nova-direita, baseada nos ideais trabalho-religião-família-mas sem pátria, paradoxalmente, amamentada pelo Estado.

Usando as palavras de Michel Onfray, "a associação da esquerda ao demoníaco não é destituída de razão, sem fundamento ou qualquer funda de verdade. De fato, o demónio, o diabo, é aquele que, dentro da lógica cristã, preferiu se revoltar, desobedecer a Deus. Submeter-se, não reflectir, aceitar a ordem e a lei definidas e desejadas por Ele, eis o que constituía a legitimidade angélica das criaturas aladas. Em compensação, o espírito das trevas, o diabo, define aquele que escolheu exercer a sua liberdade, sua autonomia, sua independência e opta pelo livre arbítrio contra a submissão aos imperativos divinos. Princípio libertário contra princípio da autoridade, (...), eis o que permite desde o presente uma tipologia mais precisa da esquerda de que falo".

[Foto: Stuart Davis, 2010]