31/08/2018

Criminologia contra-colonial

W.E.B. Du Bois, entre o final do século XIX, início do século XX, enumera cinco pontos necessários para se compreender e solucionar aquilo que na altura se chamava de problema negro: 1) o desenvolvimento histórico do problema afro-americano; 2) a emergência de estudos afro-americanos; 3) uma revisão crítica dos estudos sociais científicos sobre os afro-americanos pós-1987; 4) a criação e/ou identificação de uma teoria e metodologia que deveria ser empregue nos estudos afro-americanos em oposição aos estudos eurocêntricos; 5) a necessidade deses estudos serem desenvolvidos por pesquisadores negros.  

Atualmente, a criminologia negra proposta nos anos de 1990 por Katheryn Russel-Brown, com o objetivo de abordar a relação entre a questão racial e o crime, no que se refere ao envolvimento de negros com o sistema judicial e criminal a partir de uma perspetiva histórica e a criminologia feminista negra, que problematiza a presença das mulheres negras no sistema carcerário, são as perspetivas criminológicas que mais se aproximam da pesquisa crítica proposta por Du Bois.

Contudo, no caso do continente africano, o livro Counter colonial criminology: a critique of imperialism reason, de autoria do criminólogo nigeriano Biko Agozino, editor da revista online African Journal of Criminology and Justice Study, pode ser considerado a maior referência atual na literatura sobre o crime no mundo africano global. Através daquilo que designa de criminologia contra-colonial, epistemologicamente comprometida e empiricamente objetiva, Agozino entende que esta perspetiva além de trazer à discussão os crimes do passado colonial e suas consequências atuais, irá contribuir significamente para o desenvolvimento de uma criminologia descolonizada e pan-africana.
  

29/08/2018

O PR, o SOFA e o Governo.CV

Sobre a confissão da sua Excelência Presidente da República em relação ao SOFA, o que há a dizer é que num país pobre como Cabo Verde que ora anda de mão estendida ora de pernas abertas (quando não anda simultaneamente das duas maneiras), uma verdadeira revolução política seria acabar primeiro com a figura parasita do PR e, posteriormente, atribuir uma maior autonomia municipal, ao invés daquela coisa que dá pelo nome de governos regionais, mas não sem antes de combater aquilo que o MPD chamou na sua plataforma eleitoral (no entanto desaparecido do Programa de Governo) de incivilidades administrativas, ou dito de outra forma, caciquismo criminoso local, que aqui funciona como uma espécie de extensão pós-colonial dos morgadios antes liderados por homens honrados tementes a Deus.

Entretanto, Luis Filipe Tavares desmente Jorge Carlos Fonseca.

[Na imagem primeira página do Expresso das Ilhas, n. 874, de 29 agosto de 2018]

22/08/2018

Redefinições

Redefinições (2016). Realizado em parceria com António Santa Maria, entre os anos de 2007 e 2008, o documentário retrata a experiência de uma parte dos estudantes cabo-verdianos em Lisboa. 

[Na imagem capa Redefinições, 2016]

15/08/2018

Tradados da transgressão e da desobediência civil

Algumas das leituras obrigatórias perante o contexto mundial e cabo-verdiano atual: "A desobediência civil" de Henry David Thoreau, "Discurso da dissidência de Noam Chomsky", "A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão" de Michel Onfray, "A dominação e a arte da resistência: discursos ocultos" de James C. Scott, "Mil planaltos. Capitalismo e esquizofrenia" de Gilles Deleuze e Félix Guatari, "Esboço para uma auto-análise" de Pierre Bourdieu, "Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar" de Jean-Marc Ela" e os "Condenados da terra" de Frantz Fanon.

[Imagem da capa do álbum Dosobeissance de Keny Arkana, 2008]

13/08/2018

Vidas e Obras

Vidas e Obras é um projeto de entrevistas conduzido por Pedro Marques, cujo principal objetivo é recolher, partilhar e valorizar o trabalho no mundo das artes, da sociedade, do desporto, do protesto e da intervenção. Aqui a entrevista recém-publicada de Miguel de Barros, sociólogo e investigador bissau-guineense. Aqui a minha entrevista publicada em março do ano passado. Em comum, trabalhos em conjunto sobre rap e ativismo juvenil. 

[Imagem sacada na net]

07/08/2018

(Re)qualificação urbana e qualidade de vida

Nunca se falou tanto em requalificação (ou qualificação) urbana, contudo, quando se assiste a um conjunto de atentados urbanos (públicos e ambientais) na Praia em nome da qualidade de vida, as questões pertinentes a colocar são: que tipo de qualidade de vida e para quem? Quem está a refazer a cidade? Como a está a refazer? Em nome e às custas de quem?  

[Imagem sacada na net]

03/08/2018

Escravatura como estado de espírito

No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ocupavam uma posição de poder à escala global sem precedentes orientados por planos cuidadosamente desenvolvidos para organizar o mundo. A cada região foi atribuída uma função e determinou-se que África seria confiada à Europa, que poderia tirar partido da sua reconstrução. Contudo, mais recentemente, intensificado pela administração Obama, os Estados Unidos decidem que também deveriam integrar a estratégia de tirar partido do continente africano, juntamente com a China (In: Noam Chonsky, Quem Governa O mundo?, 2016).   

Se entende assim a posição norte-americana em relação ao colonialismo europeu em África, bem como em relação à luta armada e, hoje, nós por cá, do PAICV ao MPD, amarrados neste estado de espírito do escravo bom, candidatamos novamente ao lugar de capataz do império, lugar que a bem verdade nunca largamos. Foi assim com a parceria especial com a UE no tempo da outra senhora e continua a ser assim com o SOFA no tempo da nova senhora.  

[Na imagem "Capataz, Com Chapéu" by Alan, 2018]