16/03/2018

O que realmente falta aos servidores públicos nas ilhas é uma pitada de coragem na hora de decisão e alguma seriedade e coerência intelectual...

Na discussão epistemológica sobre a produção do espaço, alguns autores acusam certos intelectuais da esquerda (e da direita, bem como aqueles "riba muru" aka oportunistas ou mesmo eurocêntricos) de miopia epistemológica por adotarem uma posição analítica "de mão única", do centro para a periferia. O principal sintoma deste olhar míope, segundo esses autores, encontra-se na negação do protagonismo dos sujeitos da periferia na produção do espaço e na sua própria emancipação, além da consideração do periférico como um subproduto das relações hegemônicas, como algo marginal, e, portanto, economicamente menos eficiente ou improdutivo ("informal", "legal", "clandestino"), socialmente perigoso ("marginal" ou, nas leituras assistencialistas, "carente"), politicamente conservador ("lumpen") e moralmente desajustado ("imoral").

Estendendo essa discussão à fala do governo pela boca de Olavo Correia, o representante da Tecnicil no governo, a coisa é a mesma. Isto porque, falar em formalizar o informal numa sociedade institucionalmente informal, para além de sintomas agudas de miopia epistemológica, representa ela própria uma contradição empírica. Com isto não quero dizer que não se deve combater a evasão fiscal e já agora o crime de colarinho branco, visto que o crime organizado corporativo e a criminalidade de Estado há muito que tem feito escola em Cabo Verde. 

Numa dimensão micro e não muito difícil de se fazer, apesar das relações sociais de compadrio, típicas de uma sociedade pequena e provinciana, a meu ver, o remédio passaria por começar de fato a se fazer diferente no combate à acumulação ilegal (e nalguns casos ilícitas) de riqueza, em que destaco o levar a sério do tal discurso de saneamento econômico e se começar a agir contra a prática institucionalizada dos funcionários que possuem dois contratos a tempo inteiro em instituições públicas (normalmente nos cargos especiais de governação e não só) e privadas (sobretudo nas instituições do ensino superior). Para além duma ação do tipo contribuir para o combate efetivo da segregação de oportunidades, penso que reestruturava as contas do Estado. 

Por último, convém dizer que engana-se quem pensa que funcionários do Estado desaparecidos encontram-se ligados apenas no Ministério da Educação. Há tempos falou-se de ex-polícias na folha de pagamento do Ministério da Administração Interna e sabe-se de "pessoas de bem" a residir no país ou no estrangeiro, que continuam a receber um salário "digno", mesmo estando formalmente fora do sistema estatal.

O que realmente falta aos servidores públicos nas ilhas é uma pitada de coragem na hora de decisão e alguma seriedade e coerência intelectual...

[Imagem surrupiada na net]