08/12/2018

15ª Assembleia Geral do CODESRIA, 17-21 dezembro 2018

Jovens, processos identitários e sociedades em movimento: um olhar sócio-antropológico sobre os movimentos juvenis urbanos na Praia, Cabo Verde será o título da minha comunicação na 15ª Assembleia Geral do CODESRIA, entre os dias 17 e 21, em Dakar, no Senegal, sob o tema África e crise da globalização

[Na imagem cartaz do encontro]

02/12/2018

Nós e os discursos de conveniência

Apesar do desejo do primeiro-ministro, o que se constata é que Cabo Verde ainda é e vai continuar a ser nos próximos tempos um país repulsivo, principalmente para os cabo-verdianos. O grande desafio governamental, a meu ver, será responder a seguinte questão: como um país que nem sequer tem a capacidade de aproveitar as competências que cá estão (ou melhor dito, um país que tem a capacidade de segregar competências e oportunidades), devido à institucionalização dos esquemas clientelistas, pensa atrair competências da diáspora? E por falar em academia (se é que existe uma academia cabo-verdiana), o que há a dizer é que em tempos chegou ao país um quadro altamente formado e apesar de ter ficado por, pelo menos, duas vezes posicionado no topo dos ditos concursos públicos das instituições do ensino superior, foi ambas as vezes preterido por pessoas com competências bastante duvidosas, mas bastante bem conectadas. A solução foi re-imigrar... e este é apenas um de vários exemplos que não aparecem nas estatísticas oficiais. 

17/11/2018

Do USAID ao SOFA, passando pelos Corpos da Paz e a rede YALI

"O governo norte-americano é um dominador indireto excelente e habilidoso. Para fazer prevalecer os seus interesses energéticos, políticos e estratégicos Washington usa não só as manifestações do imperialismo clássico, como também implanta uma maquinaria diversificada, que vai desde a influência econômica até à presença militar e de segurança, através dos múltiplos discursos dos lugares-comuns universalistas: a preservação de paisagens e da biodiversidade, o desenvolvimento sustentável, a democracia, a boa governação e a promoção dos direitos humanos." - Pedro Baños, Asi se domina el Mundo, 2017. 

[Imagem apanhada na net]

14/11/2018

O programa nacional de saúde reprodutiva de Cabo Verde: alcances, limites e desafios

Publicado no Brasil, na revista Ciência & Saúde Coletiva, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, o artigo O programa nacional de saúde reprodutiva de Cabo Verde: alcances, limites e desafios, em parceria com Wilza Vieira Vilela e Cláudia Fernandes de Brito.

08/11/2018

_in progress 3

"'Oji ten sprimentada mola': aspetos episte-metodológicos sobre o estudo de grupos de homens armados na cidade da Praia, Cabo Verde" será o título da minha comunicação no _in progress 3: Seminário Internacional sobre Ciências Sociais e Desenvolvimento em África, que acontecerá entre os dias 15 e 16 de novembro, no ISEG - Lisbon School of Economics and Management/Universidade de Lisboa.

[Na imagem logotipo do seminário]

21/10/2018

Marginalidade territorial e inclusão

"'Violensia ben na txeia': marginalidade territorial e inclusão", publicado na última edição do Jornal A Nação, é o primeiro de uma série de pequenos artigos de opinião que comecei novamente a publicar em jornais impressos. Sem a pressão de ter publicações semanais ou quinzenais num ou noutro jornal, os artigos irão se debruçar sobre questões urbanas, culturas infanto-juvenis, cultura hip-hop, deportações, participação sociopolítica, gangues de rua e criminalidade organizada, temas que venho refletindo nos últimos anos em vários projetos de pesquisa e apresentando em vários encontros acadêmicos, bem como em reuniões de cariz social ou político tanto no país como no estrangeiro. 

[Na imagem Baía da Gamboa, Praia. Foto: RWL, 2017]

18/10/2018

A luta continua...

Embora é comum afirmar que a blogosfera cabo-verdiana sucumbiu perante o advento do facebook, sem descurar desse discurso, tenho para mim que a razão mais forte da sua entrada em coma foi a cooptação institucional e/ou político-partidário a partir de 2010 das suas vozes mais fraturantes. Pessoalmente sou de opinião que as postas do blogue, devido ao seu caráter permanente, ao contrário das postas do facebook, que possui um caráter mais efémero, funciona melhor como uma espécie de instrumento "situacionista" e é neste sentido que entendo a entrada do blogue A Luca Continua de Alexssandro Robalo, ativista do Movimento Federalista Pan-Africano, no que resta do universo blogosférico cabo-verdiano, com o objetivo de servir como uma plataforma pan-africana de reflexão e discussão política apartidária. 

16/10/2018

Da cultura do yes man

Pierre Clastres, antropólogo e etnólogo francês, na sua obra maior A Sociedade Contra o Estado, publicado em 1974, fruto do seu trabalho junto de tribos indígenas da América do Sul, entre 1962 e 1974, entende que "desde que há homens, houve também rebanhos humanos (associações raciais, comunidades, tribos, povos, Estados, Igrejas) e muitos a obedecer, em relação ao pequeno número dos que comandavam". Ou seja, que a obediência foi exercitada e cultivada duradouramente ente os homens, o que nos leva a pressupor que hoje, de um modo geral, há em cada indivíduo uma predisposição inata para isso, como um modo de consciência formal que ordena: "deves fazer incondicionalmente certas coisas e não fazer incondicionalmente outras".  

Capítulo 11 do livro digitalizado pelo coletivo Sabotagem.

[Imagem sacada na net]

27/09/2018

The revolution will not be televised

O assistencialismo mediático ou o espetáculo da caridade é definido como uma prática de legitimação social executada através dos meios de comunicação social de massa, hoje conhecido por redes sociais. Em termos reais, esta prática ajuda muito pouco, trazendo apenas benefícios pontuais e superficiais, mas sem transformar a sociedade. Trata-se, portanto, de um culto de personalidade e de criação clientelista com uma longa história nas ilhas, reatualizado pelos caciques partidários no pós-anos de 1990. Nos casos mais próximos de uma suposta emancipação social, resulta na criação de cidadãos inócuos... e o pior é quando se associa a sua pratica a um suposto ativismo político revolucionário. Adaptando Gil Scott-Heron há coisa, the revolution will not be televised...

[Imagem apanhada na net]

24/09/2018

Sobre a criminalidade e afins


Enquanto que nas ilhas, até onde sei, país normalmente posicionado nos lugares superiores do topo dos rankings de transparência, democracias e afins em África e arredores, a malta passa pelo governo e cargos administrativos estatais de topo, onde praticam descaradamente associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato, branqueamento de capitais, etc e tal, não só no pasa nada como saem com estatuto de empresários, homens de sucesso ou pretos e mestiços honrados e de bem.  

[Na imagem membros dos Yakuza, 1985. Fofo: AP]

20/09/2018

Bombtrack

Terminado o teatro, PR ratifica a coisa. Ideologicamente coerente com o sistema partidário cabo-verdiano pós-pós-moderno e num contexto completamente diferente de março de 2015. Numa sociedade cada vez mais focada no ativismo self, um Bombtrack dos Rage Against the Machine, ideologicamente bem demarcada, talvez sirva para uma espécie de reflexão. 

[Imagem sacada na net]

31/08/2018

Criminologia contra-colonial

W.E.B. Du Bois, entre o final do século XIX, início do século XX, enumera cinco pontos necessários para se compreender e solucionar aquilo que na altura se chamava de problema negro: 1) o desenvolvimento histórico do problema afro-americano; 2) a emergência de estudos afro-americanos; 3) uma revisão crítica dos estudos sociais científicos sobre os afro-americanos pós-1987; 4) a criação e/ou identificação de uma teoria e metodologia que deveria ser empregue nos estudos afro-americanos em oposição aos estudos eurocêntricos; 5) a necessidade deses estudos serem desenvolvidos por pesquisadores negros.  

Atualmente, a criminologia negra proposta nos anos de 1990 por Katheryn Russel-Brown, com o objetivo de abordar a relação entre a questão racial e o crime, no que se refere ao envolvimento de negros com o sistema judicial e criminal a partir de uma perspetiva histórica e a criminologia feminista negra, que problematiza a presença das mulheres negras no sistema carcerário, são as perspetivas criminológicas que mais se aproximam da pesquisa crítica proposta por Du Bois.

Contudo, no caso do continente africano, o livro Counter colonial criminology: a critique of imperialism reason, de autoria do criminólogo nigeriano Biko Agozino, editor da revista online African Journal of Criminology and Justice Study, pode ser considerado a maior referência atual na literatura sobre o crime no mundo africano global. Através daquilo que designa de criminologia contra-colonial, epistemologicamente comprometida e empiricamente objetiva, Agozino entende que esta perspetiva além de trazer à discussão os crimes do passado colonial e suas consequências atuais, irá contribuir significamente para o desenvolvimento de uma criminologia descolonizada e pan-africana.
  

29/08/2018

O PR, o SOFA e o Governo.CV

Sobre a confissão da sua Excelência Presidente da República em relação ao SOFA, o que há a dizer é que num país pobre como Cabo Verde que ora anda de mão estendida ora de pernas abertas (quando não anda simultaneamente das duas maneiras), uma verdadeira revolução política seria acabar primeiro com a figura parasita do PR e, posteriormente, atribuir uma maior autonomia municipal, ao invés daquela coisa que dá pelo nome de governos regionais, mas não sem antes de combater aquilo que o MPD chamou na sua plataforma eleitoral (no entanto desaparecido do Programa de Governo) de incivilidades administrativas, ou dito de outra forma, caciquismo criminoso local, que aqui funciona como uma espécie de extensão pós-colonial dos morgadios antes liderados por homens honrados tementes a Deus.

Entretanto, Luis Filipe Tavares desmente Jorge Carlos Fonseca.

[Na imagem primeira página do Expresso das Ilhas, n. 874, de 29 agosto de 2018]

22/08/2018

Redefinições

Redefinições (2016). Realizado em parceria com António Santa Maria, entre os anos de 2007 e 2008, o documentário retrata a experiência de uma parte dos estudantes cabo-verdianos em Lisboa. 

[Na imagem capa Redefinições, 2016]

15/08/2018

Tradados da transgressão e da desobediência civil

Algumas das leituras obrigatórias perante o contexto mundial e cabo-verdiano atual: "A desobediência civil" de Henry David Thoreau, "Discurso da dissidência de Noam Chomsky", "A política do rebelde: tratado de resistência e insubmissão" de Michel Onfray, "A dominação e a arte da resistência: discursos ocultos" de James C. Scott, "Mil planaltos. Capitalismo e esquizofrenia" de Gilles Deleuze e Félix Guatari, "Esboço para uma auto-análise" de Pierre Bourdieu, "Cheikh Anta Diop ou a honra de pensar" de Jean-Marc Ela" e os "Condenados da terra" de Frantz Fanon.

[Imagem da capa do álbum Dosobeissance de Keny Arkana, 2008]

13/08/2018

Vidas e Obras

Vidas e Obras é um projeto de entrevistas conduzido por Pedro Marques, cujo principal objetivo é recolher, partilhar e valorizar o trabalho no mundo das artes, da sociedade, do desporto, do protesto e da intervenção. Aqui a entrevista recém-publicada de Miguel de Barros, sociólogo e investigador bissau-guineense. Aqui a minha entrevista publicada em março do ano passado. Em comum, trabalhos em conjunto sobre rap e ativismo juvenil. 

[Imagem sacada na net]

07/08/2018

(Re)qualificação urbana e qualidade de vida

Nunca se falou tanto em requalificação (ou qualificação) urbana, contudo, quando se assiste a um conjunto de atentados urbanos (públicos e ambientais) na Praia em nome da qualidade de vida, as questões pertinentes a colocar são: que tipo de qualidade de vida e para quem? Quem está a refazer a cidade? Como a está a refazer? Em nome e às custas de quem?  

[Imagem sacada na net]

03/08/2018

Escravatura como estado de espírito

No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos ocupavam uma posição de poder à escala global sem precedentes orientados por planos cuidadosamente desenvolvidos para organizar o mundo. A cada região foi atribuída uma função e determinou-se que África seria confiada à Europa, que poderia tirar partido da sua reconstrução. Contudo, mais recentemente, intensificado pela administração Obama, os Estados Unidos decidem que também deveriam integrar a estratégia de tirar partido do continente africano, juntamente com a China (In: Noam Chonsky, Quem Governa O mundo?, 2016).   

Se entende assim a posição norte-americana em relação ao colonialismo europeu em África, bem como em relação à luta armada e, hoje, nós por cá, do PAICV ao MPD, amarrados neste estado de espírito do escravo bom, candidatamos novamente ao lugar de capataz do império, lugar que a bem verdade nunca largamos. Foi assim com a parceria especial com a UE no tempo da outra senhora e continua a ser assim com o SOFA no tempo da nova senhora.  

[Na imagem "Capataz, Com Chapéu" by Alan, 2018]

31/07/2018

The Vietnam War

The Vietnam War (2017). Realizado por Ken Burns e Lynn Novick, a série retrata a carnificina da guerra do Vietnam (1961-1973) em busca de respostas sobre o que realmente aconteceu, o porquê da invasão norte-americana e da resistência em abandonar uma guerra sem sentido, destacando as razões vietnamita em iniciar uma luta armada contra a colonização francesa (colonização essa apoiada mais tarde militarmente pelos Estados Unidos), as mentiras compulsivas da administração norte-americana baseada numa suposta conspiração comunista global liderado por Moscovo e Pequim (conspiradores com quem o anti-comunista Nixon acabou por se aliar), as desigualdades de tratamento dos soldados negros na estrutura militar instalada no Vietnam, os violentos protestos anti-guerra, o escândalo watergate e os crimes de guerra em nome do "bem" perpetuados pelos militares norte-americanos.  

Algo que complementado com a leitura de "Quem governa o mundo?" de Noam Chonsky poderia servir de ponto de partida para uma discussão assumidamente ideológica acerca do SOFA e da crônica amnésia histórica dos dois maiores partidos políticos cabo-verdianos, suas claques e aficionados.

05/07/2018

5 de julho

Quantitativamente os dados do INE são elucidativos em relação aos ganhos da independência, mesmo sendo ela meramente simbólica. Ainda assim, qualitativamente, há 3 anos, enquanto o poder instituído celebrava os 40 anos da independência, uma parte da juventude praiense insistia na retórica da celebração dos 40 anos da dependência. Um parte dela hoje na rua. Há 7 anos (e não há 2 anos), Praia teve a maior enchente na rua e por detrás da coisa estavam gente ligada ao MPD, alguns hoje Ministros (sem esquecer o incentivo direto de UCS). Portanto, vir agora falar de partidarização amarela da manifestação, se não um exercício ignorante é de certeza desonesto. Não esquecer que em Cabo Verde o Estado é total. Ou melhor, o Partido é total. Ou melhor ainda, o partido é uma mera ferramenta nas mãos de grupos de interesses baseados em relações familiares e/ou de afinidades (o que torna interessante os processos de reconversão de capitais) com vista o acesso e a acumulação de recursos e, consequentemente, de poder. Assim, em Cabo Verde, bem como em muitos outros lugares que achamos ser culturalmente superiores, quem controla o Partido dominante controla o Estado e por extensão os recursos e, naturalmente, o poder. Isto vem acontecendo ao longo da história e não tem muito a ver com luta de classe tout court, a não ser quando enquadrado num exercício intelectual marxista importado. 

Em termos de manifestações de protesto pós-2008 em Cabo Verde, é evidente que o maior beneficiário foi o MPD. E muito por culpa do vazio deixado pela dita sociedade servil. Mesmo assim, como tenho dito e escrito, a vitória verde em março de 2016 apenas serviu para adiar o inevitável: uma provável explosão político-social. No entanto, há uns tantos desavisados que não perceberam que isto é um processo com início na segunda metade de 2000 (com raízes bem mais profundas) e não no pós-2016. O problema é que algumas análises ditas sociológicas, na maioria das vezes baseadas numa sociologia portátil, estão elas próprias partidarizadas. A sociologia, bem como todas as outras ciências sociais (inclusive as ditas exatas), para lá dos discursos de objetividade e neutralidade axiológica, sempre esteve ao serviço de ideologias coloniais e institucionais. Erro ou reprodução de uma cultura de mediocridade, como salientou certa vez Edgar Morin, é não ter consciência disso. 

[Imagem sacada no INE-CV twitter]

01/07/2018

Revolution starts in the streets

Em Cabo Verde todos estamos direta ou indiretamente dependentes do Estado, visto que ele é total. Contudo, há uns (uma minoria) que não se sentem acorrentados e outros (uma maioria) destinados a servir. Daí a metáfora sociedade servil de Suzano Costa. As marchas de protesto em Cabo Verde por não serem algo sistemático e funcionarem apenas como um instrumento de reação, por falta de uma agenda transformadora, destinam-se quase sempre a um momento orgásmico, bem como uma oportunidade de protagonismo umbiguista. Não sou eu a dizer, mas acontecimentos recentes assim o dizem. Sobre o próximo 5 de julho, até acho cheio de simbolismo etc e tal, ainda assim, não me aquece nem me arrefece porque sou mais para a cena da desobediência civil e ocupação permanente das imediações dos espaços nacionais de poder com uma pauta bem definida e completamente transparente.  

[Imagem sacada na net]

30/06/2018

Cabo Verde e a estupidez diplomática

Ouvir do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Defesa e Comunidades de Cabo Verde que os EUA é o único país capaz de garantir segurança a Cabo Verde seria estranho não fosse Luis Filipe Tavares o gajo a ocupar esse cargo. A sua irracionalidade derivado do seu txupa-obismu e miopismo público em relação aos EUA vem desde os tempos da TCV. O que choca é a sua tamanha incapacidade analítica não só da história, como da política e das relações internacionais. Aliás, em relação a isso, a Assembleia Nacional é um tesouro. Sobre os 200 anos de cooperação Cabo Verde/EUA (que até faz sentido, uma vez que a independência é meramente simbólica), esta aula de Abel Djassi Amado na primeira edição da Universidade Nhanha Bongolon diz tudo. 

Quanto ao acordo em si, convém primeiro lembrar que vem dos tempos de Zemas e sua clique de rapina. Depois, o que há a dizer é que isto anda algo parecido com aqueles adolescentes que vêem no gangue a única forma de se protegerem, mal dando conta que enquanto espaço histórico e culturalmente violento, um gangue é o último sítio capaz de garantir proteção a quem quer que seja. Muito pelo contrário!        

[Imagem apanhada na net]

24/06/2018

Do Estado da Nação


Entendo violência política, também, como uma situação em que o Estado conhecendo uma determinada realidade social e, embora tendo capacidade de mitigação de um específico problema, nada ou pouco faz por mera questão de prioridades baseadas em interesses corporativos... e criminalidade negligente do Estado, também, como uma situação em que o Estado sabendo do risco de perda de vida humana decorrente de uma determinada decisão, o toma sem se precaver de medidas alternativas. 

[Imagem de Yuran .H, 2018]

22/06/2018

E que tal um movimento de cidadania insurgente para a substituição da estátua Diogo Gomes pelo memorial de Amílcar Cabral?

Mudança de memorial de Amílcar Cabral gera polêmica na cidade da Praia 

No ano de 2009, no Festival Hip Hop Konsienti, Nax Beat cantou:

(...) N' ka kre odja statua di Cabral rostu pa simiteriu | Di Diogo Gomes rostu pa palasiu di guvernu | Dja sta bon di rodidju ku purtugues* (Nax Beat . Odja, Obi, Ntendi, Dipoz Fala - Vizon Kritiku - 2009).

Vejamos a coisa deste jeito: ao invés da costumeira tática reativa, aproveitando a suposta deixa da CMP, pela boca do seu PR, de que a decisão não é definitiva e que estão abertos a discutir desapaixonadamente essa questão, que tal a malta se organizar num movimento de cidadania insurgente (ou se preferirem, o termo mais soft movimento de pressão total) e exigir a mudança do memorial de Amílcar Cabral para o Plateau. Aliás, falar de centralidade e juntar esta palavra àquela da memória, o futuro memorial de Amílcar Cabral só fica bem no atual local onde se encontra a estátua de Diogo Gomes. De ponto de vista simbólico, tal ato representa uma ação contra-colonial. Por outro lado, ainda no âmbito simbólico, uma estátua de Diogo Gomes na rotunda do Homem de Pedra a espreitar de mansinho o Palácio do Governo faz todo o sentido.     

*(...) Não quero ver a estátua de Cabral com a cara virada para o cemitério | E a do Diogo Gomes virada para o palácio do governo | Chega de esquemas com os portugueses.

[Na imagem Amílcar Cabral by Hélder Cardoso, 2017. Foto RWL]

11/06/2018

Universidadi Nhanha Bongolon

Apesar das idiotices que já li e ouvi sobre a Universidadi Nhanha Bongolon, ela não é nem tem ou poderia ter pretensão de ser uma Instituição de Ensino Superior (que diga-se de passagem, existe a mais no território nacional). Aliás, apenas num contexto marcado por formalismos coloniais tal relação se aventa. Ela é um espaço que tem como ambição transformar-se numa plataforma transnacional de discussão horizontal de conhecimento(s) alternativo(s), orientada por uma epistemologia de transgressão e organizado periodicamente de forma itinerante. É promovido por um conjunto de coletivos africanos e cabo-verdianos constituído por ativistas e pesquisadores comprometidos com a ideia da emergência de uma ação colaborativa de política engajada com base ideológica libertária e pan-africana, criada na sequência de iniciativas como Djumbai Libertariu e Universidade Kwame N'Kruma. Integra um conjunto de outras ações em construção e, para além de um espaço de produção de conhecimento(s) alternativo(s), pretende ser, igualmente, um espaço de promoção de conhecimento(s) através de publicações em formato de dossiês temáticos.

[Na imagem Stand de Livros na Universidadi Nhanha Bongolon. Foto RWL]

02/06/2018

Da série "reprodução da cultura do macaco e do papagaio"

Não sei qual o mais idiota, se o intelectual provinciano que ignora propositadamente e, por conseguinte, ideologicamente, que a relação entre a pobreza e delinquência foi estabelecida no século XIII pelo frade católico e epistemólogo Tomás de Aquino (Karl Marx só nasceu nos finais do século XIX), desenvolvido posteriormente no século XIV pelo humanista e renascentista Thomas More ou se a sua claque online.

[Imagem tirada da net]

31/05/2018

Planetary Gentrification

Nos dias que correm, para além dos discursos da economia do conhecimento, os discursos da estética nas economias ganham relevância, levando àquilo a que vários autores dos estudos urbanos têm denominado de esteticização da economia, da vida quotidiana e das paisagens urbanas. Sharon Zukin, por exemplo, utiliza o conceito para dar conta da duplicidade contrastante e bipolarizada que carateriza as novas economias urbanas. Segundo a autora, as atividades econômicas exigem crescentes preocupações de natureza estética, ao nível da arquitetura dos edifícios, do mobiliário e decoração, da imagem de uma marca, da apresentação dos espaços. dos objetos comercializados e do próprio pessoal de atendimento ao público, como parte integrante de estratégias de competitividade econômica. Isto acentua cada vez mais o processo de esteticização das paisagens urbanas. Contudo, nas traseiras desses espaços (ou como se disse por aqui na campanha eleitoral de 2012, nas ruas de trás), essas preocupações de esteticização estão ausentes. Embora espaços marginais, estes compõem igualmente as novas economias urbanas, visto estarem povoados de trabalhadores precários e restantes "classes perigosas". Estas observações, complementadas pela leitura do Planetary Gentrification, entre várias outras obras sobre o tema, ajudam na compreensão das atuais dinâmicas urbanas pós-Consenso de Washington, entendido aqui como uma (re)atualização da Conferência (Consenso) de Berlim em formato urbano globalizado e globalizante, e abrem um campo de possibilidades de análise da atual questão urbana praiense, assim como dá importantes pistas de reflexão sobre a situação social e criminológica que hoje se vive das "ilhas gentrificadas" do Sal e da Boa Vista. 

30/05/2018

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação

As voltas do passado: a guerra colonial e as lutas de libertação. Livro organizado por Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, editado pela Tinta da China. A apresentação terá lugar nas cidades de Lisboa, Coimbra, Praia e Mindelo nos dias 7, 8, 12 e 14 de junho respetivamente e na cidade de Bissau no mês de setembro. Conta com 47 artigos assinados por 51 autores. Com Miguel de Barros, numa nova parceria, assino a entrada sobre o assassinato de Amílcar Cabral e a disputa atual do seu legado entre os "velhos camaradas" e os "novos cabralistas" na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

[Na imagem Capa do Livro]

28/05/2018

X Congresso Português de Sociologia

"Jovens e processos identitários no contexto urbano cabo-verdiano: uma discussão a partir das organizações de rua na cidade da Praia" será o título da minha comunicação no X Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia

23/05/2018

De gangues a organizações de rua: grupos de jovens armados e a construção de uma cultura de resistência

De gangues a organizações de rua: grupos de jovens armados e a construção de uma cultura de resistência. Artigo em que procuro, por um lado, refletir sobre a necessidade da recuperação do legado de W.E.B. Du Bois no estudo dos gangues de rua, que, no caso cabo-verdiano, obriga-nos à mobilização dos conceitos de identidade racial, de gênero e de resistência como alternativa teórica para uma melhor compreensão sobre a apropriação da palavra thug pelos jovens em situação de desafiliação e, por outro, através da discussão sobre a adaptação da teoria dos movimentos sociais no estudo dos gangues, procuro fugir às interpretações sociológicas conservadoras e moralistas que normalmente são reproduzidas nos estudos sobe a delinquência juvenil em Cabo Verde, na tentativa de perceber em que medida a estética politizada do gangsta rap difundido por Tupac proporcionou a esses jovens um sentido e uma consciência histórica no processo de reconstrução da sua identidade social e política.

Um olhar alternativo em relação ao debate sobre a criminalidade urbana em Cabo Verde e em modo busca de elementos para a construção de uma agenda de política colaborativa de segurança comunitária e urbana,

[Na imagem Spasu Triseru Mundu, 2015. Foto: RWL]

14/05/2018

Da série "raízes"...

A primeira vez que ouvi falar de raízes como pano de fundo para um evento de promoção desta coisa chamada inovação etc e tal foi em 2009, nos bastidores do Festival Hip Hop Konsienti, liderado por Dudu Rodrigues. Tinha algo a ver com o passado esclavagista das ilhas, seu legado e a capacidade criativa de superação do cabo-verdiano comum, longe das frases feitas institucionalizadas e institucionalizantes. 

Acho interessante essa cena do TEDxPraia, contudo, uma aula de história crítica não custava nada à malta-organizativa da coisa. Dizem eles que "nenhum país poderá avançar com clareza e projetar o seu futuro com audácia e inovação sem conhecer, de antemão, os traços do seu passado". Este passado, definido pelos inovadores do pedaço, é de que "Cabo Verde é um país descoberto e construído por navegadores portugueses, entre outras nacionalidades (que não as africanas) que pelas suas águas passaram (a escravatura, essa violência inventada por essa gente bloqueadora do desenvolvimento e pouco dado a inovações, empreendedorismos e afins), carrega na sua essência o encanto pelas viagens, tanto por prazer, como pela luta por uma vida melhor (a emigração forçada, também inventada por essa gente primitiva que leu muita literatura negra diasporizada)". 

Não sei, mas acho que a malta ou assistiu poucas aulas de história, mesmo aquela dos descobrimentos dado na Escola Pós-Colonial, ou é simplesmente intelectualmente inconsciente ou mesmo inconsistente. Provavelmente a higienização intelectual importada da literatura brasileira nos anos de 1930 deve ser urgentemente considerado como um problema sócio-histórico nas ilhas. Quanto a isso, no prelo um artigo abusado em parceria com Alexssandro Robalo para (re)abrir as hostilidades... até lá, fiquemos com a clareza da malta... 

[Na imagem Raízes de Dudu Rodrigues, 2009]

05/05/2018

Karl Marx... 200 anos depois de seu nascimento

Karl Marx nasceu a 5 de maio de 1818 e não obstante as tentativas provincianas de um punhado de pseudo-analistas das ilhas em criminalizá-lo, a sua análise socioeconômica é tão atual hoje como foi ontem. Por isso, é com satisfação ter tomado parte do bando que pensou e organizou a conferência alusiva à sua data de nascimento (ver aqui), com o apoio da Livraria que carrega o nome de um comunista cabo-verdiano. Embora não seja um marxista, a sua influência é evidente nos meus trabalhos, não obstante a sua visão eurocêntrica e, por vezes, racista, ou não fosse ele um homem do seu tempo e espaço social. Contudo, longe da conferência sobre Marx ser uma apologia ao socialismo ou comunismo como se especulou nas últimas semanas, tratou-se tão-somente de um espaço subversivo e reflexivo sobre o momento sociopolítico global. 

De tudo o que se disse na parte da discussão, destaco o seguinte: Marx tem sido culpado de todo o tipo de mal que se fez em nome do socialismo ou comunismo. Contudo, nesta mesma base, esses bons cristãos, católicos e democráticos, portanto, homens negros honrados e do bem, que de pensamento próprio tem muito pouco, em nenhum momento se lembram de acusar Cristo de todo o tipo de mal que se fez em nome do cristianismo, em que se destacam as cruzadas, o sistema esclavagista e a inquisição.    

[Na imagem um dos cartazes da conferência] 

04/05/2018

Da estupidez

Em tempos, coisa de dois anos mais coisa menos coisa, soube que um "professor universitário" cabo-verdiano disse numa sala de aula que prova de que o negro é atrasado em termos intelectuais é o fato de existir menos de 1% de intelectuais negros no universo da intelectualidade mundial. Hoje, numa outra sala, soube que um outro "professor universitário" associou o fenômeno kotxi po a uma manifestação de incivilidade e considerou o espaço da sua performance como propício ao desenvolvimento de atividades delinquentes. Não sei se vale a pena qualquer comentário perante tamanha estupidez, nem sei se os ditos cujos são referências, em termos acadêmicos, a alguém. Apenas penso que o nível do ensino superior de um país também é medido pelas mentes que enfeitam as suas instituições.  

[Imagem sacada da net]

30/04/2018

O Som do Tempo

O Som do Tempo (2017). Realizado por Arthur Moura, o filme retrata o desenvolvimento do movimento hip-hop no Rio de Janeiro, Brasil. A parte final, sobre a mercantilização e a "pop-larização" do rap, daria uma boa reflexão sobre a coisa feita por cá.  

[Na imagem capa de O Som do Tempo]

26/04/2018

Como diz o outro, "cabo-verduras"

Diz a Senhora Chefe do PAICV que "o MPD fez uma campanha à esquerda e agora quer governar à direita". Contudo, esqueceu a Senhora ex-Ministra de mencionar que o PAICV governou os últimos anos à "nova direita" e que o governo do MPD, apesar do discurso "fazer diferente", mais não faz do que seguir a "boa governação" anterior sob os parâmetros internacionalmente impostos, como defendido apaixonadamente por Zemas no tal Gestão das Impossibilidades

Diz o senhor PR do Parlamento Pan-Africano que podem aprender muito em matéria de democracia com Cabo Verde. Dizem os cabo-verdianos (76%) que estão nada/pouco satisfeitos com o funcionamento da sua democracia e que (80%) os políticos estão-se a cagar no sentido de os representar condignamente. 

[Na imagem capa do Expresso das Ilhas de ontem]

23/04/2018

Human Rights 2018 (ano de 2017)

Que os Estados Unidos não tenham grandes exemplos a dar em matéria do respeito pelos direitos humanos é sabido (ver o relatório mundial 2018 da Human Rights Watch). No entanto, este relatório não deixa de ser válido. Antes, a reação do governo à coisa cabia ao A Semana. Hoje, os senhores ministros descartam meninos de recado... com isso perde-se o essencial da discussão, desviando-a para coisas triviais, se calhar propositadamente.  

[Imagem sacada na net]

16/04/2018

RCSL-SDJ Lisbon 2018 Meeting

A secção temática da Sociologia do Direito e da Justiça, da Associação Portuguesa de Sociologia, realiza entre os dias 10 e 13 de setembro, no ISCTE-IUL, o encontro Law and Citizenchip Beyond the States. "Jovens, políticas públicas e organizações de rua: uma releitura teórica-empírica dos grupos de jovens armados em Cabo Verde" é o título da minha comunicação. 

[Imagem de RWL, 2016]

30/03/2018

Detroid

Detroid (2017). Realizado por Kathryn Bigelow, o filme retrata os acontecimentos ocorridos em 1967 no Motel Algiers, em Detroid, durante a rebelião na cidade, em que um grupo de jovens negros (e duas acompanhantes brancas) foram vítimas de racismo e criminalidade policial por um "gangue legal" local. Volvidos 51 anos, em várias cidades dos EUA, do Brasil, da África do Sul, assim como em cidades europeias como Paris, Londres, Lisboa e demais contextos onde o racismo se institucionalizou enquanto prática estatal, os corpos negros e não brancos continuam a ser humilhados e massacrados impunemente em nome da Política de Lei e Ordem. 

Como afirma John Hagedorn, o grande erro das ciências sociais na compreensão do fenômeno da proliferação dos gangues nos pós-1970 foi ter ignorado o racismo (e sobretudo a permanência dela e sua relação com a desmoralização social e construção da identidade de resistência nos jovens desafiliados) enquanto variável explicativa. Portanto, a mobilização de W.E.B. Du Bois, sociólogo negro norte-americano, epistemologicamente segregado por Robert Park e Escola de Chicago com conluio de Booker T. Washington, para além de uma restituição de justiça histórica, é uma estratégia epistemológica de rebater estas questões na sociologia e nos estudos do crime e da violência. 


29/03/2018

Como escreveu W.E.B. Du Bois, o problema negro é a criminalidade branca

Mário Machado, uma espécie de Derek Vinyard tuga antes da prisão, o tal que concedeu uma entrevista à TVI de shotgun em punho a incentivar crimes de ódio, o que lhe valeu uma pena de 10 anos de prisão. O tal líder dos skinhead fação Hammerskin tuga, que participou no assassinato do cabo-verdiano Alcindo Monteiro, nos anos de 1990, o que lhe valeu uma pena de 4 anos de prisão. O tal que criou o partido Nova Ordem Social, de ideologia racista e nacionalista, por achar a malta do PNR uns meninos de coro. O tal que passa a vida a acusar jovens negros da periferia de banditismo e cria os Red & Gold, clique tuga dos Bandidos, grupo este identificado pelo FBI como um gangue de motoqueiros especializados no tráfico de drogas e armas, proxenetismo e extorsão.

LBC é quem tinha razão. São os criminosos legais a darem a cara. Como escreveu W.E.B. Du Bois, o problema negro é a criminalidade branca... 

22/03/2018

Plano Nacional de Cuidados

O Governo de Cabo Verde, através do Ministério da Família e Inclusão Social, lança o Plano Nacional de Cuidados (2017-2019), um importante instrumento político no combate à crise de cuidados resultante da dissolução das redes tradicionais de apoio às famílias e, consequentemente, a desigualdade de gênero. Igualmente, uma boa medida de promoção de autogestão familiar. Contudo, o seu resultado prático irá depender de ações governamentais mais estruturantes que estão na origem de vários "problemas sociais", entre os quais o fenômeno criminal, mais concretamente a criminalidade urbana juvenil.

[Imagem sacada na net] 

16/03/2018

O que realmente falta aos servidores públicos nas ilhas é uma pitada de coragem na hora de decisão e alguma seriedade e coerência intelectual...

Na discussão epistemológica sobre a produção do espaço, alguns autores acusam certos intelectuais da esquerda (e da direita, bem como aqueles "riba muru" aka oportunistas ou mesmo eurocêntricos) de miopia epistemológica por adotarem uma posição analítica "de mão única", do centro para a periferia. O principal sintoma deste olhar míope, segundo esses autores, encontra-se na negação do protagonismo dos sujeitos da periferia na produção do espaço e na sua própria emancipação, além da consideração do periférico como um subproduto das relações hegemônicas, como algo marginal, e, portanto, economicamente menos eficiente ou improdutivo ("informal", "legal", "clandestino"), socialmente perigoso ("marginal" ou, nas leituras assistencialistas, "carente"), politicamente conservador ("lumpen") e moralmente desajustado ("imoral").

Estendendo essa discussão à fala do governo pela boca de Olavo Correia, o representante da Tecnicil no governo, a coisa é a mesma. Isto porque, falar em formalizar o informal numa sociedade institucionalmente informal, para além de sintomas agudas de miopia epistemológica, representa ela própria uma contradição empírica. Com isto não quero dizer que não se deve combater a evasão fiscal e já agora o crime de colarinho branco, visto que o crime organizado corporativo e a criminalidade de Estado há muito que tem feito escola em Cabo Verde. 

Numa dimensão micro e não muito difícil de se fazer, apesar das relações sociais de compadrio, típicas de uma sociedade pequena e provinciana, a meu ver, o remédio passaria por começar de fato a se fazer diferente no combate à acumulação ilegal (e nalguns casos ilícitas) de riqueza, em que destaco o levar a sério do tal discurso de saneamento econômico e se começar a agir contra a prática institucionalizada dos funcionários que possuem dois contratos a tempo inteiro em instituições públicas (normalmente nos cargos especiais de governação e não só) e privadas (sobretudo nas instituições do ensino superior). Para além duma ação do tipo contribuir para o combate efetivo da segregação de oportunidades, penso que reestruturava as contas do Estado. 

Por último, convém dizer que engana-se quem pensa que funcionários do Estado desaparecidos encontram-se ligados apenas no Ministério da Educação. Há tempos falou-se de ex-polícias na folha de pagamento do Ministério da Administração Interna e sabe-se de "pessoas de bem" a residir no país ou no estrangeiro, que continuam a receber um salário "digno", mesmo estando formalmente fora do sistema estatal.

O que realmente falta aos servidores públicos nas ilhas é uma pitada de coragem na hora de decisão e alguma seriedade e coerência intelectual...

[Imagem surrupiada na net]

15/03/2018

E a luta continua

Brasil viveu uma ditadura sangrenta entre 1964 e 1985. Primeiro com o Golpe e agora com a ocupação militar do Rio de Janeiro, a nova ditadura vai-se instalando e o assassinato de Marriele Franco, ativista negra e feminista com uma tese de mestrado sobre as UPP's, é apenas mais um episódio disso mesmo... e a luta continua.

07/03/2018

Don't keep calm. It's time to wake up

A afirmação da escritora e ativista queniana Micere Githae Mugo, nos idos anos de 1990, de que os intelectuais africanos constituíam, na altura, uma raça de crianças mimadas (designação de Fanon à elite burguesa colonizada), que se auto-elegeram de chefes da comunidade, ao invés de serem seus elementos constitutivos cai, ontem e hoje, que nem uma luva à situação político-partidária das ilhas pós-colônias ultramarinas.  

24/02/2018

Conferência Internacional Amílcar Cabral: O Combatente Anônimo pelos Direitos Fundamentais da Humanidade

Nos dias 1 e 3 de março, irá realizar na FCSH-UNL a Conferência Internacional Amílcar Cabral: O Combatente Anônimo pelos Direitos Fundamentais da Humanidade. "Street soldjas: uma (re)leitura do pensamento de Cabral a partir das narrativas dos jovens em situação de marginalidade em Cabo Verde" é o título da minha comunicação.  

22/02/2018

Fazer cocô é obrigatório. Fazer merda é opcional

O relatório do Banco Mundial de 2012 aponta a precariedade dos docentes do ensino superior em Cabo Verde, inclusive na universidade pública, como um obstáculo ao desenvolvimento da área, visto que o regime a tempo parcial faz com que raramente os docentes consigam preparar adequadamente as aulas, reunir-se com os estudantes, participem nos comitês acadêmicos da instituição ou conduzir pesquisas. Diz também o relatório que esta precariedade estende-se aos docentes com contrato integral, na medida em que são na sua maioria de um a dois anos, o que não contribui para o incentivo de tomarem iniciativas, de serem inovadores ou de investirem no desenvolvimento da instituição. Obviamente que isto já sabíamos, mas dito pelo BM chama a atenção da malta, eles que tanto gostam das coisas ditas por gente de fora. Contudo, há outras dimensões de precariedade que o relatório não identifica: 1) a resistência das instituições de ensino superior em contratar doutores, mesmo que a tempo parcial, com argumentos de saneamento orçamental. Com receio de perder a ocupação, no caso da malta sem outras opções, aceita-se um salário de licenciado ou mestre. 2) os casos de alguma preferência de contratação da malta com cargo público, o que facilita os lobbies. Como salienta Jean Marc-Ela, a migração entre as universidades e o aparelho do Estado no contexto africano é um dos entraves do desenvolvimento da coisa (que no nosso caso convém ser relacionado com a questão da representação de poder), sem mencionar a questão do crédito de favores.

Isto a propósito desta afirmação do premier português sobre a precariedade no ensino superior no espaço referência da malta. Por cá, os instrumentos existem e, portanto, é uma mera questão de vontade política ao invés da reprodução do discurso do mais do mesmo, já que na prática, o Estado tem sido, direta ou indiretamente, o maior subsidiador da coisa.   
[Imagem sacada na net]

16/02/2018

Publicado o artigo "Rap and the representation of public space in Praia city"

Publicado em Inglaterra, pela Sean Kingston Publishing, o livro "Lusophone hip-hop: 'who we are' and 'where we are': identity urban culture and belonging", em que participo com o artigo "Rap and the representation of public space in Praia city", escrito em 2012, uma primeira reflexão exploratória sobre uma das dimensões dos processos de afirmação social dos jovens na cidade da Praia.

[Na imagem Capa do Livro]

05/02/2018

Praia e a população infanto-juvenil desaparecida


O estudo que suportou o Plano Nacional de Combate à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, realizado em 2014, apontou para a existência de vários casos de desaparecimento de crianças e adolescentes em Cabo Verde, que as autoridades policiais alegavam se tratar, na maioria das vezes, de fugas provisórias das mesmas e de falhas na comunicação entre familiares e vizinhos. Contudo, verificou-se no estudo que muitos casos destes desaparecimentos nunca foram resolvidos. A falta de sistematização das informações policiais não permitiu, na altura, quantificar estes casos, de modo a possibilitar uma análise mais exaustiva desta dimensão do estudo. 

[Imagem sacada na net]

16/01/2018

Mia Couto, Cabo Verde e colonização do pensamento

Os cidadãos cabo-verdianos receberam cidadania portuguesa em 1914 como exemplo de assimilação bem sucedida. Como escreve Pedro Rabaçal, na obra Portugueses em África, aquilo que parecia ser óbvio aos olhos dos europeus, era negado pelos cabo-verdianos: não se consideravam africanos, mas portugueses. Contudo, como afirmou Abílio Duarte certa altura, apesar das ilhas tivessem sido apresentadas como um sucesso das políticas assimilatórios, na prática, a sua população foi deixada entregue à miséria. "Os cabo-verdianos adotaram tanto da cultura portuguesa que se escandalizaram aquando da Exposição Colonial de Paris (1931) em que um quadro mostrava a cultura da purgueira por um negro de tanga, vestimenta fora de moda até entre os africanos mais pobres e puros de raça" (p. 330). Como refere Rabaçal, a elite local se indignou tanto com o cenário apresentado em Paris que um dos seus membros proeminentes afirmou que "a incultura em matéria colonial é vulgaríssima e das colônias só se sabe que são terra de pretos". 


[Imagem sacada na net]