15/08/2017

A ideia do bem contra o mal e a política de esquecimento que a moeda possui dois lados

Há três tipos de pseudo-intelectuais: 1) os "tudólogos", que dissertam sobre tudo e mais alguma coisa no alto do seu poleiro mental; 2) os desonestos, que conhecendo as coisas, optam por dissertar sobre aquilo que lhes convém; 3) os míopes, que entranhados ideologicamente na sua crença, dividem levianamente o mundo entre o bem e o mal, acreditando fazer parte do exército do bem, que numa espécie de cruzada moral, olham para todos os discursos contrários como errados e ideológicos. No entanto, de vez em quanto, aparece uns gênios provincianos iluminados que conseguem carregar ambas as caraterísticas, esquecendo que qualquer moeda possui dois lados. 

Isto para dizer, que quem estuda e conhece a dinâmica e a história do narcotráfico internacional sabe qual tem sido o papel desempenhado pelos serviços secretos ou instituições dos grandes projetos imperiais no tráfico transnacional de drogas. Ora como forma de obtenção de lucro ora como estratégia de desestabilização de países ou regiões considerados inimigas. No primeiro caso, a literatura histórica atribui a Rainha Vitoria o título de primeira mulher líder de um cartel de narcotráfico dirigido por um governo, com o objetivo de controlar o mercado do ópio. Muita pouca gente sabe que a chamada Era Vitoriana, período de expansão do Império Britânico e considerado época de mudança a nível industrial, cultural, política, científica e militar do mundo cristão dito "civilizado" foi suportada, em parte, pelo negócio da droga. O Porto de Hong Kong, então colônia Britânica, era na altura um dos principais espaços mercantis, onde, juntamente com outras rotas da região, o ópio era ativamente comercializado com o selo real. É sabido também a proveniência de uma parte do financiamento das fações de guerrilha comunistas sul-americanas. No segundo caso, quem conhece a literatura especializada, tanto sabe da estratégia utilizada pela secreta soviética neste domínio, como a política da heroína liderada pela inteligência norte-americana, nos finais da segunda guerra mundial, tão bem retratada pelo historiador Alfred W. McCoy, na obra The politics of heroin: CIA complicity in the global drug trade. O mesmo se pode dizer do papel desempenhado pela inteligência norte-americana na rota do narcotráfico asiático, no período da guerra do Vietnam ou, a nível de política interna, a estratégia de desestabilização das comunidades negras dos Estados Unidos com a introdução do crack pelos agentes do Movimento da Lei e Ordem, tendo este expediente servido para, a nível de política externa, financiar os Contras na América Central. 

[Na imagem Let Them Eat Crack by Banksy, 2008]