23/04/2017

Um post para reflexão e debate... se assim o entenderem

Quem conhece o submundo do crime em Cabo Verde sabe que a coisa é desorganizada, embora ande em constante namoro com o crime organizado internacional. No entanto, este cenário poderá estar prestes a mudar.

Quem conhece o submundo do crime internacional sabe que os casinos são um dos espaços favoritos e dos mais eficazes para a lavagem do dinheiro do crime organizado, assim como a banca. Quando se junta a isto uma companhia aérea, nem Roberto Saviano terá adjetivos para a classificar. 

Quem conhece a história e a literatura especializada dos casinos monopolizados macaenses sabe que por razões que aqui não interessam, nos anos de 1980, iniciaram um processo de subcontratação de algumas salas privadas do jogo ao crime organizado chinês que passaram a integrar o negócio através da gestão direta das mesmas. Tim Simpson descreveu esta conivência dos governantes de Macau na altura com a oligarquia das concessionárias dos casinos, os agentes estrangeiros reguladores dos jogos e o crime organizado como uma "rede de Estado transnacional" através da qual alguns aspetos do poder e da autoridade do Estado foram capturados por corporações estrangeiras localizadas nas chamadas zonas econômicas especiais. Misha Glenny designou este processo de "nexo político-criminoso".  

Quem conhece a literatura dos estudos urbanos e do turismo de casino sabe que os Integrate Resort & Casino são um update dos casinos monopolizados de Macau e que a sua exportação para fora do continente asiático faz parte de uma estratégia de implementação de projetos de replicação deste modelo sócio-espacial para outras paragens do globo, inicialmente experimentadas nas regiões vizinhas do continente asiático. Como mostrou Lydia Cacho, esta migração comportou a migração das tríadas.  

Quem conhece o conservadorismo analítico da criminologia tradicional e da sociologia clássica do crime sabe que ambas têm dificuldades em dar conta deste cenário e achar mera especulação a afirmação de que esta migração, quando confrontado com o crime desorganizado local e o crime organizado internacional que tem na auto-estrada 10 a rota privilegiada de passagem da droga sul-americana rumo à Europa, sem falar da atração para o arquipélago das máfias da sub-região que por questões de controlo geoestratégico do crime transnacional podem querer fazer presentes, poderá elevar rapidamente os índices de violência e criminalidade urbana para números nunca antes vistos.