30/01/2017

Rap e pesquisa etnográfica

Amanhã será publicado a edição número 3 da Revista Desafios, no Campus do Palmarejo da Uni-CV, em que participo com o artigo "Rap e pesquisa etnográfica", escrito em 2013, na sequência da participação no V Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia desse mesmo ano, em Vila Real, Portugal, com a comunicação "Rap Kriol(u) e a pesquisa etnográfica: lógicas de desafiar a mudança no espaço urbano em (i)mobilização", como complemento do artigo publicado em 2015 nesta obra colectiva. O artigo analisa, por um lado, em que medida o rap, entendido como prática cultural juvenil urbana, tem revitalizado o exercício da cidadania e, por outro, de que forma uma pesquisa etnográfica engajada ajuda a alargar o marco compreensivo de realidades subalternas ignoradas nas ciências sociais, contribuindo assim para o "empoderamento" juvenil individual e colectivo.   

[Na imagem convite do lançamento da edição n. 3 da Revista Desafios]

29/01/2017

A volta do tempo que nunca partiu

Numa altura em que tanto se fala em cooperação científica, não ter consciência de que o que aqui se tem feito nessa matéria não passa de uma reprodução do modelo de pesquisa de tipo colonial é estar-se intelectualmente desatento.

Sobre esta matéria, Jean-Marc Ela, escreveu que aquilo que se designa de cooperação científica, a partir da lógica de se estar a trazer à África as Luzes do Ocidente (a meu ver, tanto por via da Europa como por via das Américas), traduz a estranha sensação de que os campos de pesquisa estão em África e os conhecimentos no Ocidente, sem falar da processo de canibalização do outro em que tal prática se inscreve, como são provas os inúmeros casos por cá observados.

Aquilo a que chamei de sociologia da transgressão, no International Conference Activisms in Africa, realizado ainda este mês, em Lisboa, encontra inspiração na ideia de epistemologia da transgressão de Ela e pretende ser uma arma epistemológica com capacidade bélica de abrir uma brecha na Cidadela científica do Norte, uma vez que há que "reconhecer que se a ciência moderna não começou com o Ocidente, a mesma também não termina com ele".     

28/01/2017

A Era do Imprevisível

O livro a Era do Imprevisível foi escrito em 2009 por Joshua Cooper Ramo, pai do termo Consenso de Beijing e Diretor executivo do Kissinger Associates, uma das principais empresas mundiais de consultoria geoestratégica, numa época em que já se dizia que teríamos entrado num momento de perigo.

Segundo Ramo, tudo o que nos rodeava, as ideias e instituições em que confiávamos para a nossa proteção e segurança estavam a falhar e as melhores ideias dos nossos líderes pareciam piorar ainda mais os nossos problemas ao invés de resolvê-los. A ideia de uma guerra global contra o terrorismo acabava por produzir, no final, terroristas mais perigosos e a luta para deter a crise financeira parecia estar a acelerar a sua chegada. Da ideia defendida de que que apesar dos pesares, esta nova era proporciona igualmente um panorama de possibilidades e de esperança de que a coisa mais inconcebível de todas possa ser que cada um de nós tem o poder de salvar o mundo... surge Trump e a dita era da pós-verdade. 

Nesta embrulhada toda, resta-nos a paixão dos The Damned em formato New Rose e a ideia de que o punk, para além de representar ainda hoje o expoente máximo da liberdade e afins, é assim uma cena mesmo boa, como provam estas 40 rajadas que abanaram o sistema.      

22/01/2017

Decolonizar é o caminho...

A antropóloga cabo-verdiana Celeste Fortes tem sido uma das maiores vozes a se insurgir publicamente contra aquilo que pode ser chamado de uma tentativa de "genocídio científico" da nova geração de pesquisadores cabo-verdianos por parte dos pesquisadores mais velhos, por um lado, e de alguns cabo-verdianistas, por outro. Esta malta tende a criar um gueto de citações do tipo: cito-me para que me cites, mas evite citar os outros para que não se sintam legitimados. Existe também aqueles que impedem os seus orientandos de citar os não pertencentes ao gueto ou aqueles coitados que simplesmente não o fazem por preguiça. Citar um pesquisador é afirmar que este tem direito de existir naquilo que convém designar por comunidade científica. Sendo assim, como explica o sociólogo camaronês Jean-Marc Ela acerca deste assunto no contexto africano, intencionalmente a estratégia desta malta prende-se com o medo de perder o monopólio dos discursos acerca dos assuntos cabo-verdianos e por isso o único remédio ao alcance é ignorar, sobretudo quando tentam passar a ideia de terem descoberto a pólvora. No entanto, o que ainda não perceberam é que uma pesquisa de qualidade não precisa de empurrões porque impõe-se por si só. 
     

21/01/2017

Dos sonhos perigosos à confirmação do fenómeno Trump

Na sequência da série de eventos de rua iniciados em 1999, em Seattle, e consolidados a partir de 2011, Slavoj Zizek afirmou qualquer coisa como esta ser a década em que se sonhou perigosamente em duas direções: sonhos de emancipação que mobilizaram manifestantes em Nova Iorque, na Praça Tahir, em Londres, Atenas, entre outros lugares, incluindo por estas bandas, e sonhos destrutivos e obscuros que serviram de impulso para Breivik e para os populistas racistas de toda a Europa e dos Estados Unidos.      

[Imagem de John Darkow, Columbia Daily Tribune, 2015]

20/01/2017

Da política do esquecimento e da balcanização das coisas

Num dia como hoje, este post de 2014 parece atual. Do mesmo modo, a reprodução colonial da sociedade do morgadio e da capela, espelhada na necessidade costumeira de paternalização de alguns acontecimentos nacionais, bem como na tentativa constante da prática de uma política do esquecimento e da balcanização das coisas, inclusive no seio dos jovens.

...e um post lembrança para reflexão.

[Na imagem The field next to the other road by Jean-Michel Basquiat, 1981]