30/12/2017

Rewind | 2017

Final do ano e época de relembrar publicações realizadas em 2017:

  • "Rap e pesquisa etnográfica", na Revista Desafios, da Uni-CV.
  • "Foreman of the empire? Re-analysis of the archipelago of Cape Verde", com Odair Barros Varela, no CEsA Workong Paper, do ICIEG;
  • "Gangues de rua: breve revisão da literatura e aproximação ao caso cabo-verdiano", na coletânea Estudos em comemoração do X aniversário do ISCJS: dinâmicas sociológicas, Estado e direito, do ISCJS.

Assim como comunicações em conferências e seminários internacionais:

  • "Netus di Cabral i rivuluson. Os jovens e os protestos públicos em Cabo Verde", no International Conference Activism in Africa, no ISCTE-IUL; 
  • "O que são periferias, afinal, e qual seu lugar na cidade?", I Seminário Internacional IMJA, na Maré do Rio de Janeiro;
  • "Violência(s), jovens e espaço urbano: uma análise dos gangues de rua na cidade da Praia, Cabo Verde", no Seminário de Tese de Doutoramento em Estudos Urbanos, na FCSH-UNL; 
  • "Over the seas - street art beyond Europe" no FRESH STREET#2 - International Seminar for the Development of Street Arts, no EUROPARQUE de Santa Maria da Feira; 
  • "Identidade thug e o estudo das violências em Cabo Verde: elementos para a emergência de uma sociologia de transgressão, no ICS/UnB; 
  • "Movimentos sociais e a luta antirracista" no I Seminário Internacional Tecendo Redes Antirracistas: África(s). Brasil e Portugal, na UnB.
[Imagem sacada da net]

27/12/2017

Mudam-se os tempos, mantêm-se os discursos

Há dias, a propósito das intervenções camarárias na zona de Ponta Belém, no Plateau, o PR da CMP, entre um discurso meio disparatado sobre o estudo do Provedor de Justiça em relação ao EMEP e o derrube da faixa de bloqueio de segurança da Avenida de Lisboa, disse que a dita intervenção tinha a ver com o fato da zona padecer de problemas sociais graves. Não me interessa aqui dissertar sobre a noção de problema social do Senhor PR, contudo, o interessante no seu discurso é a reprodução histórica do discurso de espaços marginalizados. Em 1863, cinco anos após a elevação da Praia à categoria de cidade, o então PR da Câmara determinava: "que no caminho de Fonte Ana e sítio denominado de Ponta Belém, se faça construir um pátio murado que sirva para depósito geral, onde sejam lançados todos os despejos de lixos e imundices da cidade". Tanto Ponta Belém como Madragoa, ambos situados nas pontas laterais do Planalto da Boa Esperança (aka Plateau), eram, por isso, consideradas zonas periféricas da cidade "com ruas estreitas, becos e pátios, habitadas por gente pobre que fogem um pouco à rigidez da quadrícula da cidade", sendo estes os únicos locais onde se permitiam que as "mulheres toleradas" (vulgo prostitutas) fossem viver. Curiosamente, Madragoa viu com o tempo a sua paisagem social mudar, enquanto que Ponta Belém não. Assim se entende a reprodução do discurso do atual PR da CMP.   

[Na imagem Cidade da Praia, no ano de 1975, vista mais ou menos da Achadinha. Foto apanhada no mural de J.Rex, que também a apanhou no mural de outra pessoa]

18/12/2017

Sim, delinquentes são os outros - parte 3

Há dias, acho que em Brasília, alguém disse que o discurso da contemporaneidade é banhado pela ideia do Estado de Direito, mas que na prática aquilo com que deparamos diariamente é um Estado de Privilégios. O que este estudo da Provedoria de Justiça sobre a EMEP vem mostrar é precisamente a confirmação daquilo que temos denunciando há já algum tempo. Uma Câmara Municipal que ostentativamente legitima uma empresa fora de lei gerida por um extorsionista de colarinho branco. Episódios que servem na perfeição como exemplos nas aulas de criminalidade organizada, quando o assunto é crime de colarinho branco ocupacional e corporativo (organizacional). 

[Imagem apanhada na net]

14/12/2017

"Dinâmicas Sociológicas, Estado e Direito" apresentado amanhã no ISCJS

Amanhã será apresentado o livro "Dinâmicas sociológicas, Estado e Direito. Estudos em comemoração do X aniversário do ISCJS", que conta com o artigo intitulado "Gangues de rua: breve revisão da literatura e aproximação ao caso cabo-verdiano", partes da Tese de Doutoramento em construção, em que a partir da revisão de literatura sobre o estudo dos gangues de rua, evidencio a pertinência da reformulação teórica no estudo da criminalidade urbana em Cabo Verde e onde a partir de um exercício crítico aos estudos ditos sociológicos que legitimam a tese da "desestruturação familiar" e se inscrevem numa extensão de um modelo de governamentalidade da criminalidade juvenil, ou melhor, numa caixa-de-ressonância dos discursos governamentais, apresento novas alternativas de análise e novos cenários que desafiam a segurança pública nacional e regional, na forma como ela tem sido pensada.     

[Na imagem Capa e Contracapa do Livro do ISCJS]

11/12/2017

Elementos para o desenvolvimento de uma sociologia de transgressão

Ka Ta Da de Hélio Batalha como introdução da minha fala no painel "Movimentos Sociais e Lutas Antirracista", no "I Seminário Tecendo Redes Antirracistas: África(s), Brasil e Portugal", na Universidade de Brasília, em que a partir do termo mandjaku construído em oposição ao termo cabo-verdianidade, discuto a hierarquia da morabeza nas ilhas enquanto atualização da hierarquia racial historicamente legitimada, reproduzido internamente através da distinção entre sanpadjudu e badio ou através da distinção entre kopu leti e identidade thug. Uma parte do meu trabalho de Doutoramento, em que através daquilo a que designo de sociologia de transgressão, inspirado nos ensinamentos de Jean-Marc Ela e o seu apelo ao anarquismo epistemológico, dialogo com a perspetiva contra-colonial de Nego Bispo, de modo a contornar as perspetivas pós-coloniais e de-coloniais de matriz eurocêntrica.    

[Imagem apanhada na net]

06/12/2017

Working paper CEsA, nº 161, Foreman of the empire?

Publicado em formato Working Paper pelo CEsA/CSG/ISEG-ULisboa, o artigo "Foreman of the empire? Re-analysis of the Readmission Agreement with the European Union and the repatriation in the archipelago of Cape Verde", escrito em parceria com Odair Barros Varela, em que a partir de dois projetos de pesquisa desenvolvidas entre os anos de 2012 e 2013 ("Facilitation of intra-regional labo migration in the ECOWAS region" - the case of Cape Verde e "Para além das remessas. A consolidação da sociedade cabo-verdiana da diáspora e as transformações sócio-culturais e políticas em Cabo Verde"), se questiona até que ponto o cenário do Acordo de Readmissão entre Cabo Verde e a União Europeia (especificamente a parceria de mobilidade) e as políticas de contenção de migração e gestão dos repatriados/deportados nas ilhas, se está ou não a (re)transformar Cabo Verde num "capataz do império", isto é, numa guarda pretoriana numa das fronteiras mais avançadas da Europa.

[Na imagem I Came I Saw I Got Deported by Mogul]

02/12/2017

Sim, delinquentes são os outros - parte 2

Há duas semanas, o Gestor da EMEP tinha dito que não iria falar sobre o assunto. Provavelmente, a CMP, o grande responsável por toda esta situação, pede ao homem para dizer algo. Sobre esta explicação, apenas confirma o seu legado de prática de extorsão legitimada pela CMP e pelo Sistema de Justiça. Vamos por partes: 1) diz o homem que a EMEP foi criada para disciplinar o estacionamento no Plateau, que era um caos. Ótimo. Contudo, a pergunta que fica é quem irá disciplinar as incivilidades do senhor Fernandes. 2) Que eu saiba, ninguém negou pagar o dístico de morador. O que acontece é que, em alguns casos, o senhor recusa conceder dísticos por supostas multas. Por exemplo, alguém residente pede um dístico, entrega os documentos exigidos e o homem diz que estes não servem (incluído a declaração de residência da CMP, o que pode ser interpretado como que chamar os serviços camarários de corruptos). Pede outros, a pessoa vai pagando estacionamento durante mais de três meses. Uma vez ou outra, recebe uma multa que vai se acumulando. Ao acumular, decide conceder o dístico, mas sob condição de pagar uma multa de centenas de contos. Este tipo de prática tem um nome. EXTORSÃO. Punido no código penal, o que faz dele um Fora da Lei. 3) Mesmo que as multas fossem legais, que não o são, existe um protocolo jurídico que a EMEP deverá seguir. Ele não o segue e atua. Mas, o munícipe vítima de extorsão e roubo institucional, ao seguir os corredores da justiça, depara-se com a burocracia colonial cabo-verdiana, burocracia que o senhor EMEP não está disposto a seguir. 4) Alguém diz ao senhor Fernandes que se a rua é pública, então ninguém deve pagar nada. Uma aulinha básica a este senhor sobre a diferença entre um bem público e um bem privado não custava nada. 5) Diz estar aberto ao diálogo, mas que não se vai render. Nem deste lado está previsto rendição e na falha da justiça pública, justiça privada se combate com contra justiça privada. 6) O PR da Pró-Praia, desempenha neste processo apenas a sua obrigação que é a defesa dos interesses dos munícipes ante delinquentes institucionais. Eu, pessoalmente, não tenho nada contra a EMEP ou a CMP, nem devo-os nada, mas, abomino delinquentes de colarinho branco, umas das principais razões da existência da outra delinquência, que se diz estar a combater.

[Na imagem Gangland East St. Louis Ghetto]

01/12/2017

Seminário do ECOA

Na próxima terça-feira, 05, apresento no seminário do Laboratório de Etnologia em Contextos Africanos, sediado no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília, a comunicação "Identidade thug e o estudo das violências em Cabo Verde: elementos para a emergência de uma sociologia de transgressão", parte do meu projeto de doutoramento.

[Na imagem Cartaz de divulgação do Seminário do ECOA]

28/11/2017

Manifestação contra a gestão criminosa dos parquímetros no Plateau

A EMEP foi criada para organizar os estacionamentos no Plateau. Até aí tudo bem. Contudo, através de uma gestão criminosa, legitimada pela CMP e pelo Sistema de Justiça, o homem que se diz Diretor da coisa, tem recorrido constantemente à prática de extorsão para roubar os munícipes, principalmente aqueles que vivem e trabalham no Plateau. Portanto, em solidariedade para com os lesados do crime institucional estabelecido nas ilhas, associo-me à chamada do Provedor da Praia para a MANIFESTAÇÃO CONTRA A GESTÃO CRIMINOSA DOS PARQUÍMETROS NO PLATEAU. Na quinta-feira, 30, às 17:00, na Praça Alexandre Albuquerque, no Plateau. Concentração a partir das 16:30.

[Na imagem Abuso da EMEP, NÃO!]

26/11/2017

Da série "achologia hi-tech"

O estudo sobre o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes de 2014 (que sustentou o Plano Nacional de Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes) e o estudo sobre os cuidados de saúde, incluindo a saúde sexual reprodutiva de 2015 apontam para indícios de turismo sexual em Cabo Verde. Sem falar dos casos em que o próprio Estado funciona como uma espécie de "proxeneta". Os campos de pesquisa destes estudos foram as cidades da Praia, Assomada, São Filipe, Mosteiros, Sal Rei, Santa Maria, Mindelo e Vila do Maio. Contudo, este tal de Humberto Lélis, baseado num bem apurado "achómetro hi-tech" diz que tal não existe e que não passam de relatos mitos.

Adenda: e existe ainda o artigo de José Carlos dos Anjos, "A eclosão do turismo sexual em Cabo Verde", quem tem como base, entre outros trabalhos, o estudo diagnóstico da situação de vulnerabilidade das crianças em situação de rua face às IST/VIH/SIDA  de 2005.

24/11/2017

I Seminário Internacional Tecendo Redes Antirracistas: África(s), Brasil, Portugal

Entre 6 e 8 de dezembro, na Universidade de Brasília, no Brasil, o I Seminário Internacional Tecendo Redes Antirracistas: África(s), Brasil, Portugal. Participarei como palestrante na mesa "Movimentos sociais e a luta antirracista", juntamente com Mamadou Ba e outros dois colegas brasileiros, e, como debatedor, ao lado de Miguel de Barros, na fala da jornalista Joana Gorjão Henriques, sobre "Racismo em português: o lado esquecido do colonialismo".

[Imagem sacada na net]

18/11/2017

Hip hop e produção acadêmica

Este mês de novembro, considerado mês do hip hop, marca uns 30 e tal anos da presença desta cultura urbana em Cabo Verde, já que a sua entrada nas ilhas aconteceu nos anos de 1980 e não nos anos de 1990, como às vezes ouço. Em termos de produção das ciências sociais, o rap tem sido enquadrado nos estudos culturas e em Cabo Verde, apesar de já haver estudos recentes no âmbito cultural, em que na esteira da proposta teórica de Stuart Hall reinterpreta-se temas como identidade e hibridismo cultural, embora faltando o carácter etnográfico, o estudo do rap (e de outras formas de arte e culturas urbanas) é ainda encarado como algo sem sentido e pouco acadêmico. Ainda assim, começa a surgir algumas publicações acadêmicas e alguns trabalhos monográficos de final de curso, em que destaco os meus trabalhos:

2017: Rap e pesquisa etnográfica, Revista Desafios, Cabo Verde.
2015: Cultura de rua e políticas juvenis periféricas: aspetos históricos e um olhar ao hip hop em África e no Brasil, Revista Famecos, Brasil (com R. Martins e M. Barros) .
2015: Do finason ao rap: Cabo Verde e as músicas de intervenção, Buala, Portugal.
2015: Lógicas de desafiar a mudança nas "periferias" do espaço urbano em (i)mobilização, In: Expressões artísticas urbanas: etnografia e criatividade em espaços atlânticos, Brasil.
2012: Rappers cabo-verdianos e participação política juvenil, Revista Tomo, Brasil.
2012: Rap Kriol(u): o pan-africanismo de Cabral na música de intervenção juvenil na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde, Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais, Brasil (com M. Barros).
2012: Cabo Verde. Rap dos anos de 1990: o fenómeno Tchipie na reconstrução e representação da identidade feminina e de resistência, Buala, Portugal.
2011: Tribos urbanas da Praia: os casos dos thugs e dos rappers, In: e-book_In Progress, Portugal. 

[Na imagem Hip Hop Konsienti by Dudu Rodrigues, 2009].

12/11/2017

Sim, delinquentes são os outros

Cheguei a ser contra a instalação dos parquímetros no Plateau, não por achar desnecessário, mas injusto com quem mora e trabalha no bairro. O processo da criação do EMEP foi algo muito pouco transparente e nunca entendi o modelo da colocação de guardas municipais na aplicação de multas, quando em outras partes do mundo, esta atividade surge como oportunidade de criação de empregos, sobretudo para jovens. Por exemplo, muitos "doutores" e demais aspirantes a qualquer coisa ligado ao poder por cá suportaram os estudos etc e tal neste tipo de trabalho. Enfim, opção políticas que só quem os tomou deverá explicar. No entanto, a coisa em si até funciona, mas funcionaria muito melhor se houvesse fiscalização e a CMP não assobiasse para o lado, legitimando assim o Presidente da coisa como o Senhor Todo Poderoso, poder que ele não detêm nem poderá deter. Quem paga os guardas municipais somos nós...  

Em 2014, perante vários episódios de delinquência institucional por parte da EMEP, o Provedor da Justiça de Cabo Verde chegou a denunciar práticas ilegais nas instruções de processos de contra-ordenações e na recusa de venda de dísticos mensais e fez uma série de recomendações, que não sei se foram ou não levadas em consideração. 

Esta denúncia apenas mostra que a EMEP funciona e continua a funcionar como um grupo organizado em práticas ilícitas, nomeadamente extorsão, com cumplicidade da CMP. Há outros casos de residentes do Plateau com dificuldades em obter o dístico anual de moradores de que têm direito, apenas porque o senhor Presidente entende, consultando a si próprio, que não deve conceder. Perante estas situações, o direito de habitação está evidentemente posta em jogo, para além de configurarem atitudes de delinquência institucional. Ainda assim, os responsáveis da nação querem que os cidadãos e, sobretudo os não-cidadãos, acreditem nas instituições cabo-verdianas. Isto depois das denúncias de Amadeu Oliveira, sobre a existência de uma Máfia do Sistema Judicial, assunto, aliás, já denunciado pelo Juiz Conselheiro Raul Varela.      

[Na imagem Gangster Rat by Banksy, 2006] 

31/10/2017

Violências, jovens e identidade thug

Num artigo a publicar no próximo mês, assunto aprofundado na Tese de Doutoramento em processo construtivo, vem a seguinte afirmação: "(...) uma análise secular das violências em Cabo Verde, nomeadamente no contexto santiaguense, complementado por um trabalho etnográfico, permite estabelecer relações entre o processo de desumanização do homem negro desterrado nas ilhas no período do tráfico negreiro e sua posterior construção em demônios populares após a criação da figura do "badio" (negro fujão), hoje (re)vivenciado no contexto urbano pela figura thug enquanto emblema identitário de resistência reconfigurado a partir das narrativas de Tupac".

[Imagem

25/10/2017

Da série "negrificar as mentes clarificadas"

Sempre que um cabo-verdiano falar na forma como a Europa trata os imigrantes africanos, que é péssimo, convém ele lembrar também como nós, os cabo-verdianos, tratamos os imigrantes do continente ("os mandjakus"), sobretudo nas nossas fronteiras. Sempre que falarem do SEF, lembrem-se da PN/PF. Sendo verdade que muitos do continente olham Cabo Verde como uma oportunidade de chegar à Europa, legal ou ilegalmente, é também verdade que, na última década, muitos killers cabo-verdianos olharam Senegal como uma oportunidade de fuga e/ou um caminho para se chegar à Europa, legal ou ilegalmente.

23/10/2017

Nós e a integração africana

Quando se trata de rankings e índices internacionais o cabo-verdiano acha ser o melhor em África e arredores. Nisto de integração africana, do ponto de vista econômico, é corriqueiro ouvir e ler dos "especialistas" das ilhas que o país anda a competir com o Senegal. Não está nada. Senegal está numa divisão muito superior. Cabo Verde só está à frente em termos de discurso. Aliás, numa altura em que se faz streap tease online dos candidatos cabo-verdianos à presidência da Comissão da CEDEAO, interessa ressaltar a falta de visão estratégica política e econômica (e também acadêmica) em relação à África, não obstante o discurso sobre a integração africana imposto pela União Europeia, como critério de uma suposta “integração europeia”, via parceria especial. Numa altura em que Dakar é efetivamente o hub econômico africano, demitimo-nos de tirar proveito das oportunidades de dar o tal salto, coisa que nunca saiu do papel (ou do discurso). No próximo dezembro, Senegal irá inaugurar um novo aeroporto internacional e de arrasto criar uma nova companhia aérea, porque sabem que a Transair é muito pequena para a grandeza da sua ambição e potencialidade. A mesma que alguém nas ilhas achou ter capacidade de substituir a TACV na rota Praia/Dakar. As ilhas perderam já há algum tempo a oportunidade de se tornar no principal hub aéreo da região. Perdeu imenso dinheiro (e oportunidades) e continua a perder. Neste aspeto, a TACV Internacional vem muito tarde e ao encerrar os voos Praia/Dakar o país perdeu uma mão cheia de oportunidades de crescimento imediato (ou de médio prazo). Muitas entidades com representação na Costa Ocidental de África que tinham intensão de participar no FMDEL, por exemplo, abortaram a sua presença devido à falta de voos regulares (eram cerca de 500 quilômetros. Hoje, há que se fazer muito mais quilômetros e gastar muito mais dinheiro para uma escala em Casablanca ou Lisboa). Para variar, o pessoal continua a fazer fuga à frente e a não refletir sobre os sucessivos erros. O país continua com o discurso pró-Europa e pró-EUA, numa altura em que a Europa e os EUA se instalam em Dakar e, ironicamente, a malta tem a habilidade de aumentar a distância aérea com o continente, este espaço natural para se fazer parcerias e em franco crescimento. 

Como diriam os meus amigos pan-africanistas, na fase em que as coisas estão, solução mesmo, se calhar, passa obrigatoriamente pela Renascença Africana…

[Na imagem Dakar de tous les contrastes by Mamadou Diop]

10/10/2017

Nós e o continente africano

Sobre a integração africana tão na moda discursiva nos dias que correm, a presidência cabo-verdiana da CEDEAO e afins, a afirmação de Elsa Fontes, transportado para a atualidade, vem muito a calhar: "Assim por uma curiosa reviravolta da história, a comunidade cabo-verdiana, em grande parte vinda da África no séc. XVI, regressa a ela num quadro de organizações administrativas portuguesas ou simplesmente para desenvolver o comércio com os indígenas. Em ambos os casos, levam para África o que os portugueses lhe trouxeram: a civilização europeia". 

[Imagem apanhada na net]

01/10/2017

Da série "goog cop bad cop"


Não conheço o caso em si, mas já em 2011, como indica este artigo, havia indícios de práticas do tipo por parte de alguns agentes da PN e, na altura, chegou-se a falar da existência de uma esquadrão da morte no interior da instituição policial ao serviço de uma das fações do narcotráfico nacional.  

[Imagem apanhada na net]

21/09/2017

Da vergonha nacional

Layi Erinosho, sociólogo nigeriano, escreveu em 2008 um interessante artigo intitulado Sociology, hypocrisy, and social order, em que chamava a atenção aos sociólogos africanos sobre a necessidade de incluírem no estudo das interações sociais e das relações internacionais em África o conceito hipocrisia, como um elemento chave de compreensão dos conflitos sociais e guerras persistentes no continente. No contexto cabo-verdiano, o conceito foi utilizado recentemente neste artigo sobre a comunidade LGBT.

De forma geral, hipocrisia significa um comportamento que pretende ter um padrão moral ou uma opinião que não reflete o que é real ou o verdadeiro ponto de vista do indivíduo ou insinceridade em virtude de fingir ter qualidades ou crenças que não se tem realmente. 

Isto para dizer que a cena dos cadernos "kumi-bebi" enquadra-se neste contexto. Eu que entendo o rap como uma forma de transposição artística de experiências individuais e coletivas ou como que um intelectualismo orgânico e o utilizo como uma ferramenta analítica com estatuto igual a qualquer outra fonte de pesquisa em ciências sociais (fazendo analogia à utilização dos textos literários pelos cientistas sociais nos trabalhos sobre a questão da identidade cabo-verdiana), ao transportar esta perspetiva aos restantes gêneros musicais populares no país, "kumi-bebi", "txoma minis", "sen djobi pa ladu" ou o mais antigo "soku na rostu" e dezenas de outras palavras slogans saídas de músicas popularizadas, não passam de representações da sociedade cabo-verdiana. A malta apenas observa a realidade que a circunda e a coloca em forma de música. Os políticos, na ânsia de ganhar popularidade e com isso alcançar o "povo", a legitima enquanto vox populi e os media fazem o resto. E desta equação toda, saem os senhores deputados... 

Vergonha nacional é a institucionalização do nepotismo e da cultura do macaco e do papagaio, a reprodução da mediocridade e do "lambebotismo", a banalização da ideia de liderança, a violência política e institucional, a segregação das oportunidades, a legitimação da precarização laboral, a criminalização da pobreza, a demonização da categoria juvenil em situação de marginalidade, a lapidação da coisa pública, a brutalidade policial, o aumento do custo de vida e o consequente empobrecimento da população, entre outras várias situações que diariamente o dito "povo" sente na pele. 

Lá onde os teóricos da moralidade crioula vêem crise de valores, eu vejo conflito de valores. Abrem mas é a pestana...

11/09/2017

Reler Cabral nos dias de hoje

"Há certas coisas que os camaradas não sabem e que lhes podem fazer confusão, mas a verdade é que em Cabo Verde mais gente aprendeu a ler e escrever do que na Guiné, no tempo dos colonialistas. Mas a percentagem de analfabetismo em Cabo Verde, contrariamente à vaidade de algum cabo-verdiano que tem a mania que sabe muito, é de 85%. Os tugas gabavam-se, dizendo que em Cabo Verde não há analfabetos. É falso! Mas daqueles que sabem ler, eu fiz a experiência em 1949, quando lá fui passar as férias, havia gente com o 2.º grau (já havia 4 ou 5 anos) no mato, em Godim ou em Santa Catarina, por exemplo, e a quem se lhes dava o jornal para lerem, mas não sabiam o que estavam a ler. Esses também são analfabetos que conhecem as letras. Há muita gente assim no mundo e até, às vezes, doutores. Mas é preciso perder muitas ilusões". - Amílcar Cabral, 1974. 

[Imagem apanhada na net]

22/08/2017

Centralização, desconcentração, descentralização, regionalização

O interessante nos últimos meses tem sido a constatação da estreia e da volta de vários "mandadoris di boka", um ano depois da mudança no poleiro político. Acho bem. Contudo, a situação simboliza uma espécie de consolidação do sistema político bi-partidário (ou se preferirem o sistema bi-clubístico) historicamente instalado nas ilhas. É certo também que alguns meninos acabados de trepar o poleiro andam a facilitar. Outra conjuntura política, algumas mesmas práticas da população mirim partidária. 

Ontem MAC#114, hoje Sokols aka Falcões Portugueses de Cabo Verde (aqui bem retratada por Maria Carvalho). Ontem contra o Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos, hoje contra a Centralização aka República de Santiago. Contudo, a bem verdade, é preciso sair da Praia, chegar a uma ilha verdadeiramente periférica, numa localidade periférica da periferia da ilha e lembrar aquilo que Fanon já tinha alertado, há 50 e tal anos atrás.

"Num país subdesenvolvido, os elementos dirigentes do partido devem fugir da capital como da peste. Eles devem residir, à excepção de alguns, nas regiões rurais. Deve-se evitar centralizar tudo na grande cidade. Nenhuma desculpa de ordem administrativa pode legitimar a efervescência de uma capital já superpovoada e superdesenvolvida em relação a nove décimos do território. O partido deve estar o mais possível descentralizado. É a única maneira de ativar as regiões mortas, as regiões que ainda não despertaram para a vida" - Frantz Fanon, 1961. 

[Imagem sacada da net]

19/08/2017

Da série Racismo à Portuguesa

Os cidadãos dos países de língua oficial portuguesa representam menos de 1% da população portuguesa. Ainda assim, 1 em cada 73 com mais de 16 anos em Portugal encontra-se preso, enquanto para os na nacionalidade portuguesa é um em cada 736. Em Sintra, 1 em cada 50, para 1 em cada 492. Na Amadora, 1 em cada 49, para 1 em cada 393 e, neste município, 1 cabo-verdiano tem 19 vezes de probabilidades de estar preso do que um português. Estes são os dados divulgados hoje pelo Público, que começa a segunda parte do projeto Racismo em Português, liderado pela jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques, com a série Racismo à Portuguesa, com um trabalho sobre o sistema judicial português e a forma como se manifestam as desigualdades raciais em diversa áreas, da educação ao emprego ou à educação.  

[Na imagem capa do Público de hoje]

15/08/2017

A ideia do bem contra o mal e a política de esquecimento que a moeda possui dois lados

Há três tipos de pseudo-intelectuais: 1) os "tudólogos", que dissertam sobre tudo e mais alguma coisa no alto do seu poleiro mental; 2) os desonestos, que conhecendo as coisas, optam por dissertar sobre aquilo que lhes convém; 3) os míopes, que entranhados ideologicamente na sua crença, dividem levianamente o mundo entre o bem e o mal, acreditando fazer parte do exército do bem, que numa espécie de cruzada moral, olham para todos os discursos contrários como errados e ideológicos. No entanto, de vez em quanto, aparece uns gênios provincianos iluminados que conseguem carregar ambas as caraterísticas, esquecendo que qualquer moeda possui dois lados. 

Isto para dizer, que quem estuda e conhece a dinâmica e a história do narcotráfico internacional sabe qual tem sido o papel desempenhado pelos serviços secretos ou instituições dos grandes projetos imperiais no tráfico transnacional de drogas. Ora como forma de obtenção de lucro ora como estratégia de desestabilização de países ou regiões considerados inimigas. No primeiro caso, a literatura histórica atribui a Rainha Vitoria o título de primeira mulher líder de um cartel de narcotráfico dirigido por um governo, com o objetivo de controlar o mercado do ópio. Muita pouca gente sabe que a chamada Era Vitoriana, período de expansão do Império Britânico e considerado época de mudança a nível industrial, cultural, política, científica e militar do mundo cristão dito "civilizado" foi suportada, em parte, pelo negócio da droga. O Porto de Hong Kong, então colônia Britânica, era na altura um dos principais espaços mercantis, onde, juntamente com outras rotas da região, o ópio era ativamente comercializado com o selo real. É sabido também a proveniência de uma parte do financiamento das fações de guerrilha comunistas sul-americanas. No segundo caso, quem conhece a literatura especializada, tanto sabe da estratégia utilizada pela secreta soviética neste domínio, como a política da heroína liderada pela inteligência norte-americana, nos finais da segunda guerra mundial, tão bem retratada pelo historiador Alfred W. McCoy, na obra The politics of heroin: CIA complicity in the global drug trade. O mesmo se pode dizer do papel desempenhado pela inteligência norte-americana na rota do narcotráfico asiático, no período da guerra do Vietnam ou, a nível de política interna, a estratégia de desestabilização das comunidades negras dos Estados Unidos com a introdução do crack pelos agentes do Movimento da Lei e Ordem, tendo este expediente servido para, a nível de política externa, financiar os Contras na América Central. 

[Na imagem Let Them Eat Crack by Banksy, 2008]

12/08/2017

Cabo Verde, Israel, política externa e o estado das coisas

Quem teve o privilégio de ler a obra de Renato Cardoso, sobre os feitos da diplomacia cabo-verdiana nos primeiros anos de vida como nação (in)dependente, sabe que o setor anda à deriva há já algumas décadas e não de um ano para cá. Eu entendo a aproximação com Israel numa onda de sacar dinheiro e competências na agricultura etc e tal. Nada contra. Sobre os argumentos de que esta aproximação impõe-se pela nossa matriz cultural judaico-cristão, sugiro uma leitura a Cheikh Anta Diop ou sobre o papel dos judeus no tráfico negreiro em Cabo Verde. Independentemente disto tudo, penso que declarar apoio incondicional (se for realmente este o caso) a um Estado Colonialista e Terrorista (que convém não confundir com o povo judeu) é algo, assim, desavisado. 

[Na imagem Os Boiadeiros by José Borges]

11/08/2017

Rede Internacional das Periferias

Em março último, no Seminário Internacional sobre as Periferias, sob o tema "O que são as periferias, afinal, e qual seu lugar na cidade?", no Rio de Janeiro, Complexo da Maré, o Conselho Estratégico do Instituto Maria e João Aleixo criou a Rede Internacional das Periferias, com o objetivo de articular as várias organizações em todo o mundo, unidas em um movimento de produção de conceitos, e metodologias de intervenção na cidade a partir da perspetiva das periferias e do paradigma da potência, de modo a propor políticas públicas colaborativas e inclusivas. 

O IMJA já tem disponível online o seu site, onde se poderá consultar as suas atividades. Atualmente decorre na Maré uma residência internacional que terá a duração de cinco meses, com participantes da América Latina (Brasil, México e Colômbia), África (Cabo Verde e Guiné-Bissau) e Europa (Portugal) e está agendado para o próximo ano o II Seminário em Portugal e o III Seminário em Cabo Verde, em 2019.  

[Na imagem I Seminário Internacional sobre as Periferias. Foto: Geledés]

10/08/2017

Reler Fanon nos dias de hoje, parte II

"A burguesia nacional será consideravelmente ajudada pelas burguesias ocidentais, que se apresentam como turistas amantes de exotismo, de caça e de casinos. A burguesia nacional organiza centros de repouso e de recreio, curas de prazer para a burguesia ocidental. A essa atividade dar-se-á o nome de turismo e será equiparada, circunstancialmente, a uma indústria nacional (...). Algumas vezes, sobretudo nos anos após a independência, a burguesia não hesita em confiar em bancos estrangeiros os lucros que retira do território nacional. Ao contrário, utilizam-se somas avultadas em despesas de ostentação, em carros, em casas de campo, tudo isso bem descrito pelos economistas como características da burguesia subdesenvolvida". - Frantz Fanon, 1961. 

[Imagem retirada da net]

09/08/2017

Sobre a(s) juventude(s)

Ontem, na Assomada, no âmbito da Semana da Juventude organizada pela Câmara Municipal de Santa Catarina de Santiago, dividindo o painel com Rony Moreira, entre outras upgrades analíticas, este post de há 3 anos atrás continua atual: o que falta a(s) juventude(s) cabo-verdianas é uma pitada de politização (que convém não confundir com partidarização) e consequente senso crítico (que convém não confundir com mandar bocas). 

[Imagem apanhada na net]

31/07/2017

Da série "foi sempre este o meu pensamento e ação"

"Hoje, os partidos e os sistemas partidários estão em crise. Também temos algum esgotamento dos partidos tradicionais". Afirmações do ex-Zé Pinóquio e atual Zé Cara de Lata, que diz ainda que o cansaço e crise dos partidos tradicionais têm levado ao surgimento de movimentos populistas. Para o pai do populismo e tio da partidarização da administração pública em Cabo Verde, a solução passa por uma outra relação das forças políticas tradicionais com a sociedade. 

O que realmente acho disto tudo é que se Zemas ainda não leu Fanon é hora de fazê-lo, não só pelo post anterior a este, mas, e, sobretudo, por tudo aquilo que escreveu no seu último panfleto livresco, que, pelos vistos, serve de orientação ao atual patron di zona, ou não fossem diretrizes internacionais, cuja cartilha a malta segue sem pestanejar.

Voltando à citação inicial, como lembrava Frantz Fanon, em 1961, "a noção de partido é uma noção importada da metrópole". Como recentemente afirmou John Dickie, no seu terceiro livro sobre a historiografia das máfias italianas, partido era o nome como a máfia era conhecida no início. Soubesse Zemas destas coisas, talvez a análise fosse ligeiramente diferente.

[Na imagem John Snow is Cara de Lata 3 by Alan Alan, 2017]

30/07/2017

Reler Fanon nos dias de hoje

"Mas quando a descolonização se dá em regiões que não foram suficientemente abaladas pela luta de libertação, encontramos esses mesmos intelectuais expeditos, maliciosos e astutos. Encontramos neles, intactas, as formas de conduta e as formas de pensamento a que se habituaram durante o contacto com a burguesia colonialista. Ontem, meninos bonitos do colonialismo, hoje, da autoridade nacional, organizam a pilhagem dos escassos recursos nacionais. Impiedosos, sobem através de estratagemas ou de roubos legais: importação-exportação, sociedades anônimas, operações de bolsa, favores, sobre esta miséria hoje nacional." - Frantz Fanon, 1961.    

[Na imagem Samuel L. Jackson as house nigga in Django Unchained, 2012]

17/07/2017

Jornalismo, Cabo Verde e narrativas racistas

Só para constar que esta notícia do A Semana sobre o tal "cidadão negreiro", que por acaso é nigeriano, tinha saído antes na RTC da seguinte forma: "homem negro, alto, forte e de olhos grossos amarelados assaltou, esta manhã, em São Vicente, a Casa de Câmbios". Narrativas destas, a lembrar o Correio da Manhã de Portugal e jornais afins, não é novidade em Cabo Verde, embora o pessoal acha que falar destas coisas é importar discussões alheias...

[Na imagem Help Racismo nos Outdoors, Praia. Foto: RWL]

13/07/2017

Da série "balcanização e pilhagem de África"

Numa época em que o pan-africanismo institucionalizado volta a querer mostrar a sua garra, torna-se forçoso recuperar a afirmação de Axelle Kabou: "Sabemos que a ajuda ao desenvolvimento, que substitui as reparações de crimes coloniais, poderia ter sido outra coisa que não um 'programa de irmãs de caridade', para retomar a expressão de Fanon, se os fundadores da Organização da Unidade Africana tivessem escolhido a verdadeira unidade, em vez de se dedicarem à balcanização da África". 

11/07/2017

Sem justiça não há paz

Nos tempos mais recentes, em Lisboa, após a invenção do "arrastão de Carcavelos", em junho de 2005, seguiu-se a invenção da "invasão da esquadra de PSP de Alfragide por cinco jovens negros", em fevereiro de 2015 (aquiaqui). Dois anos volvidos, Ministério Público acusa os 18 agentes da PSP envolvidos de sequestro, tortura e racismo. Cada um é acusado de terem cometido cerca de vinte crimes.

Adenda: Som e Fúria da TVI.

[Imagem sacada da net]

10/07/2017

Curso de Verão | Ativismos em África: Estado da Arte, Métodos, Contextos e Casos

Na sequência da Conferência Internacional Ativismos em África, acontecerá entre os dias 4 e 8 de setembro o Curso de Verão Ativismos em África: Estado da Arte, Métodos, Contextos e Casos, organizado pelo Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) e Instituto para as Políticas Públicas e Sociais (IPPS-IUL), do qual farei parte do corpo docente.

02/07/2017

Racismos e barbarismos

Sobre o regresso dos populismos europeus ligados ao racismo anti-negro e anti-árabe e os recorrentes atos racistas na Urban que põe ainda mais em evidência o racismo institucional português, nada melhor do que a mobilização da ideia sobre o barbarismo de Tzvetan Todorov: "Os bárbaros são os que consideram que os outros, por serem diferentes, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa ter feito estudos superiores ou ter lido muitos livros, logo, possuir um grande saber. Sabemos bem que isso não impediu atos perfeitamente bárbaros". 

[Imagem apanhada na net]

22/06/2017

Da série muda-se o pacote, mas o conteúdo é o mesmo

Não conheço o programa em si, muito menos sei se existe um outro como complemento, mas pela fala de quem apresentou a coisa, claramente uma medida excluidora de uma boa parte dos jovens cabo-verdianos. Convém não esquecer que todas as decisões políticas são frutos de escolhas, o que cria uma situação de violência política quando as decisões tomadas em nada se baseiam num conhecimento aprimorado do situação em que se pretende atuar, mas em meras questões ideológicas ou simplesmente casmurrice. Pior é, quando se ignora o fato de que estes tipos de escolhas sempre trazem no seu bojo consequências nefastas derivadas do mal-estar que cria. 

[Na imagem The Unaddressed by Fuaxreel]

17/06/2017

Criminalidade urbana e políticas repressivas

Cabo Verde desde 2005 (há quem defende que ainda mais cedo) adotou o paradigma inquisitório de combate à criminalidade, o que na prática significou o ataque aos efeitos e não às causas. Sendo assim, normal é que os índices da criminalidade não cessam de subir, apesar a cegueira do atual Ministro da Administração Interna. Desde 2010, eu e outros pesquisadores, tínhamos alertado para as consequências nefastas que as políticas exclusivamente repressivas (com rasgos de assistencialismos do serviço social da igreja do século XIX) poderiam trazer ao espaço social cabo-verdiano no geral e praiense em particular. Mas, como disse alguns, nós não fazemos ciência e nem sequer metodologia de trabalho temos. Os mesmos que de repente descobriram que a "raça" é uma importante variável a ter em conta no estudo de várias problemáticas em Cabo Verde, sobretudo na questão da criminalidade, bem como a necessidade de se fazer uma rutura com o legado eurocêntrico sob pena de continuarmos a reproduzir os discursos que consideram o continente africano como uma espécie de museu de antiguidades europeias. Contudo, destes, há os que não obstante a bazófia acadêmica ainda não perceberam que se encontram desatualizados e os que não obstante o avanço de ponto de vista epistemológico ainda não perceberam que lhe falta os sujeitos.  

Do fenômeno em si, num artigo publicado em 2012, chamava a atenção para o processo de redefinição dos grupos armados e sua atividade criminosa que a política repressiva cega poderia estar a conduzir. Cinco anos depois, as evidências são elucidativas. Nos anos de 1990, ao se constituir as crianças em situação de rua como um problema social, a prisão surgiu como solução. Encarcerou-se crianças com menos de 16 anos de idade (numa grotesca violação da Constituição da República) e os que tinham 16 anos foram condenados por crimes (na sua esmagadora maioria por furto e roubo) cometidos enquanto menores de idade (uma outra grotesca violação da Constituição da República). Levaram em média 4 anos de prisão. É verdade que o fenômeno das crianças em situação de rua, pelo menos daqueles que viviam e dormiam nas ruas, diminuíram significativamente, mas não a criminalidade ou a violência. Nos anos de 2000, tanto na Praia como no Mindelo, as antigamente chamadas "crianças de rua" desapareceram. Contudo, esse desaparecimento momentâneo não se deveu à aplicação de políticas públicas, porque o contexto de marginalização dessas famílias continuou igual. O diferente foi a transformação dos grupos de amigos de rua em gangues de rua, o que proporcionou às crianças que em situação normal se deslocassem para os centros da cidade em busca de sobrevivência, a emergência de um espaço de convivilidade, afirmação e partilha de táticas de sobrevivência nos limites do bairro.

Com o conflito armado declarado entre os grupos juvenis na Praia, a partir da segunda metade dos anos de 2000 (como consequência do conflito armado entre as fações dos agrupamentos menos jovens) a violência coletiva ganha novos contornos na cidade, aproximando daquilo a que Tatiana Moura denominou de novíssimas guerras. O que as evidências estatísticas nos mostram é que a pacificação dos bairros possibilitou o fim das trincheiras físicas urbanas, permitindo a livre circulação do pessoal, que não encontrando nichos de resistências territoriais, fez com que o chamado kasubodi ganhasse visibilidade, sobretudo devido à mudança do modus operandi da nova configuração da criminalidade coletiva. Esta última evidência transporta-nos de novo às políticas repressivas e à sua expressão física que é a prisão. Uma das críticas que hoje se faz à criminologia tradicional ou à sociologia clássica do crime é o fato de ainda não terem percebido o papel central das prisões na organização e sofisticação da criminalidade coletiva urbana. Convém não esquecer que as crianças que foram encarceradas por delito comum nos anos de 1990, ao serem libertos, a maioria encontrou nos gangues o único espaço possível de integração e afirmação e a sua volta à prisão deveu-se a crimes ainda mais violentos, por um lado, e que os membros de gangues encarcerados a partir de 2009 e libertos a partir de 2015, trouxeram novos aportes táticos à atividade criminal, por outro lado.

Arrogantemente diria que não perceber estas relações na compreensão do fenômeno da criminalidade urbana em Cabo Verde é um ato puramente idiota e ignorante, só possível num contexto fortemente marcado pela escravatura mental expressada na cultura do "papagaísmo" e "macaquismo" intelectual e científico.       

[Na imagem Mona Lisa by Urban Maeztro, Honduras]

13/06/2017

Lista de selecionados para o programa de residência IMJA

Publicada a lista de selecionados para o programa de bolsas de residência das periferias do IMJA. De Cabo Verde irá participar no programa o jovem sociólogo e ativista Alexssandro Robalo, com uma bolsa de pesquisa social nas periferias.

Co-fundador do coletivo IPUK, no qual coordena o Núcleo de Estudo da Arte Oral (NEAO), é ativista do Movimento Federalista pan-Africano e ex-líder associativo acadêmico, entre 2013 e 2014, e tem como interesse de pesquisa as músicas de protesto (rap), arte oral africana, descolonização epistemológica, movimentos sociais e lutas políticas. 

[Na imagem lista dos selecionados para a residência sobre as periferias do IMJA 2017]

28/05/2017

FRESH STREET #2 | Over the seas - street art beyond Europe

"Cegos", performance de intervenção urbana protagonizada pelo Desvio Coletivo, de São Paulo, grupo com qual dialoguei, juntamente com representantes de Macau e Israel, sobre arte de rua enquanto ato político, no painel "Over the seas - street art beyond Europe", no FRESH STREET #2.

[Na imagem Overview session #2, Santa Maria da Feira, Portugal. Foto by Circostrada Network, 2017]

17/05/2017

Rap, coerência e discurso político

Numa época em que no processo de afirmação juvenil e social muitos rappers e MC's são "obrigados" a higienizarem-se, ou seja, transformarem-se em artistas, como que se o rapper não é ele próprio um artista (que na prática significa estar com uma banda, simulando uma espécie de indigenização do rap, que na verdade não o é, fenômeno este que deve ser pensado apenas inserido numa lógica de luta simbólica entre uma suposta arte legítima e arte ilegítima também rotulada de música papel higiênico), a semana abre com a colocação nas ruas de duas boas obras do rap tal e qual como o gosto de ouvir.

Guerra Santa de Ex-Pavi e D12A5 de S.O.S.

Vídeo oficial de Deuses & Homens aqui.

Vídeo oficial de D12A5 aqui.

[Na imagem Guerra Santa de Ex-Pavi, 2017]

01/05/2017

Lucy Parsons - Take The Power Back - Rage Against The Machine

"Os anarquistas sabem que um longo período de educação precisa preceder qualquer grande mudança fundamental na sociedade, uma vez que não acreditam na miséria do voto, nem em campanhas políticas, mas sim no desenvolvimento de indivíduos com pensamento autônomo." - Lucy Parsons, Os Princípios do Anarquismo, 1890. 

Embora haja contradição a respeito, há quem defende que Lucy nasceu escrava. Certo mesmo é o fato dela ser uma das razões por hoje existir o primeiro de maio. Ativista, anarquista, feminista e escritora.

E num dia como hoje, di kumi i bebi, nada melhor do que um Take The Power Back dos Rage Against The Machine para subir a moral da malta subversiva. 

[Na imagem Lucy Parsons, 1853 - 1942]

30/04/2017

Programa de bolsas de residência sobre as periferias - IMJA

Com vista à construção do projeto Internacional das Periferias, na sequência do encontro da Maré em março último, o Instituto Maria e João Aleixo torna público o primeiro processo de seleção de bolsistas para residência em programa de formação (três para o continente africano) a ser realizado entre os meses de agosto e dezembro do corrente ano, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro. O critério de elegibilidade é ser da área das periferias, ter interesses em artes, ativismo ou empoderamento comunitário e ser politicamente engajado.   

29/04/2017

33 Masks

Quando chegas naquela fase da pesquisa em que constatas que a fala do Capitão Nascimento no final do Tropa de Elite 2 faz todo o sentido nas ilhas, que o cidadão comum está entregue aos tubarões e dás conta da enorme distância em que te encontras da malta que tenta explicar a coisa.  

[Na imagem 33 Masks by Zoo Project]

26/04/2017

III Congresso Internacional de Antropologia AIBR

Acontecerá em novembro, na cidade mexicana de Puerto Vallarta, o III Congresso Internacional de Antropologia AIBR, onde irei apesentar a comunicação "Jovens e representação do espaço público: uma discussão a partir do rap cabo-verdiano". O objetivo da comunicação é, por um lado, analisar a possível relação existente entre a sensação do mal-estar juvenil e a (r)emergência da reivindicação africana no discurso dos rappers com a governação do país na última década e, por outro, discutir o papel do rap nas contestações públicas e urbanas que surgiram nos últimos anos em Cabo Verde.   

[Na imagem atuação do PCC no Hip-hop Summer Fest, Praia, 2015. Foto RWL]

25/04/2017

Seminário de Tese de Doutoramento em Estudos Urbanos

Na próxima semana, juntamente com António Brito Guterres, irei participar no Seminário de Tese de Doutoramento em Estudos Urbanos, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde irei apresentar a comunicação "Violência(s), jovens e espaço público: uma análise das relações de rivalidade e ocupação de espaço público dos gangues de rua na cidade da Praia, Cabo Verde".

24/04/2017

Reflexão do dia

"Atualmente, pretende-se construir uma sociedade de conhecimento como se desde há séculos a humanidade tivesse vivido nas sociedades da ignorância." - Jean-Marc Ela, 2007. 

23/04/2017

Um post para reflexão e debate... se assim o entenderem

Quem conhece o submundo do crime em Cabo Verde sabe que a coisa é desorganizada, embora ande em constante namoro com o crime organizado internacional. No entanto, este cenário poderá estar prestes a mudar.

Quem conhece o submundo do crime internacional sabe que os casinos são um dos espaços favoritos e dos mais eficazes para a lavagem do dinheiro do crime organizado, assim como a banca. Quando se junta a isto uma companhia aérea, nem Roberto Saviano terá adjetivos para a classificar. 

Quem conhece a história e a literatura especializada dos casinos monopolizados macaenses sabe que por razões que aqui não interessam, nos anos de 1980, iniciaram um processo de subcontratação de algumas salas privadas do jogo ao crime organizado chinês que passaram a integrar o negócio através da gestão direta das mesmas. Tim Simpson descreveu esta conivência dos governantes de Macau na altura com a oligarquia das concessionárias dos casinos, os agentes estrangeiros reguladores dos jogos e o crime organizado como uma "rede de Estado transnacional" através da qual alguns aspetos do poder e da autoridade do Estado foram capturados por corporações estrangeiras localizadas nas chamadas zonas econômicas especiais. Misha Glenny designou este processo de "nexo político-criminoso".  

Quem conhece a literatura dos estudos urbanos e do turismo de casino sabe que os Integrate Resort & Casino são um update dos casinos monopolizados de Macau e que a sua exportação para fora do continente asiático faz parte de uma estratégia de implementação de projetos de replicação deste modelo sócio-espacial para outras paragens do globo, inicialmente experimentadas nas regiões vizinhas do continente asiático. Como mostrou Lydia Cacho, esta migração comportou a migração das tríadas.  

Quem conhece o conservadorismo analítico da criminologia tradicional e da sociologia clássica do crime sabe que ambas têm dificuldades em dar conta deste cenário e achar mera especulação a afirmação de que esta migração, quando confrontado com o crime desorganizado local e o crime organizado internacional que tem na auto-estrada 10 a rota privilegiada de passagem da droga sul-americana rumo à Europa, sem falar da atração para o arquipélago das máfias da sub-região que por questões de controlo geoestratégico do crime transnacional podem querer fazer presentes, poderá elevar rapidamente os índices de violência e criminalidade urbana para números nunca antes vistos.  

14/04/2017

Um post que diretamente nada tem a ver com a cena da isenção dos vistos apenas aos cidadãos europeus

Sobre a política de migração entre Cabo Verde e União Europeia, num artigo já há algum tempo no prelo, escrevi que tal comportava riscos na medida em que poderia colocar o país numa situação em que facilitaria a retirada coerciva dos nacionais cabo-verdianos e de nacionais de Estados terceiros e apátridas do território europeu sempre que estivessem em situação irregular, sendo que estes últimos poderiam ser deportados para Cabo Verde desde que fosse entendido que tivessem transitado o seu espaço físico no processo migratório. Sendo assim, o papel das ilhas como espaço de deportação onde os indesejados seriam desterrados ganharia novo alento, o que juntando ao receio da islamização, que normalmente é associada à imigração africana, poderia contribuir para o surgimento de conflitos raciais ou étnicos, numa sociedade onde existe uma hierarquização da morabeza. Isto tendo como referência a afirmação salientada por Pedro Marcelino que, em Cabo Verde, na relação com o outro que vem de fora, o indivíduo "branco" é percebido como estrangeiro, o chinês como comerciante e o nacional do continente africano como imigrante.