29/10/2016

Da cultura do macaco e do papagaio


Tenho para mim que a violência simbólica é a pior das violências e que o que não é muito inteligente e algo como ter os pés bem fora do chão é este editorial do Expresso das Ilhas. A cegueira ideológica é uma coisa tramada e este editorial só prova que um trabalho de desconstrução ideológica bem mais aprofundada torna-se necessário.

Adenda: e a estupidez agudiza-se quando a figura por detrás do editorial afirma qualquer coisa como que os assuntos que os claridosos não trataram, não interessa... 

[Na imagem The Persistence of Memory de Salvador Dali, 1931]

25/10/2016

Da crise de conceitos

Como já disse e escrevi inúmeras vezes, os picos de criminalidade urbana em Cabo Verde têm sido cíclicos e se o analisarmos a partir de uma perspectiva de evolução secular (macroevolução da criminalidade), percebemos que em termos de crise, só se estivermos a falar de crise de conceitos* de uma certa sociologia fast food reproduzida nas ilhas por uma intelectualidade folclórica mui institucionalizada.

Sobre o tema em si, já que a conversa volta a ser criminalidade, segurança e afins, relembro aos mais incautos os textos "Cidadania, Mobilidade Juvenil e Coesão Social Urbana" e "Violências Urbanas, Gangues e Jovens", produzidos em 2013 e 2014 respectivamente,

*Considera-se crise de conceitos quando os conceitos mobilizados não permitem elucidar com total precisão os fenómenos analisados, em parte porque ao invés de se buscar construir formulações teóricas baseadas em pesquisas sólidas, localmente situadas, importa-se conceitos (porque de outro jeito não sai) que em nada se adequam à realidade analisada. 

23/10/2016

Cultura punk e a promoção de uma agenda subversiva

Um punk às antigas na tentativa de promoção de uma agenda subversiva, num contexto em que se efectiva o empobrecimento da população, em que se consolida uma cultura de mediocridade transvestida de políticas de nomeações de prémios de pessoas com provas dadas de incompetência crónica enquanto servidores públicos, em que se insiste na cosmetização social e na política do mais do mesmo em vários quadrantes de governação, em que se passa da política de jobs for the boys and girs para uma política de circulação de jobs... pelo meio, esta medida necessária, mas sem a parte da videovigilância, e a visão "clara e objectiva" de um partido em processo de desvario institucional total.

[Na imagem capa do álbum "Punk. London 40 Years of Sub-Versive Culture", 2016]

14/10/2016

Big brother is watching

Da sociedade panóptica de Jeremy Bentham e a visão de que o governo deveria promover a maior felecidade para o maior número de pessoas ao que hoje é chamado de "shenzhenismo social", uma política chinesa de controlo social que combina a monitorização visual com o que poderia ser designado de "infovigilância"... 


[Imagem]

07/10/2016

Criminalidade, segurança pública e afins

Sobre a criminalidade urbana já escrevi alguma coisa e é um trabalho ainda em curso. O que disse em tempos e foi tomado como um exagero, hoje é assumido com naturalidade e não fosse a "mentalidade túnel" do anterior executivo e seus lacaios muitas situações poderiam ter sido evitadas. O que posso salientar é que a criminlaidade nada tem a ver com a pobreza mas com as desigualdades, sendo o empobrecimento das populações apenas uma das suas facetas. Por desconhecer a coisa não diria que esta medida significa uma retumbante mudança de perspectiva entre o que era assumido na plataforma eleitoral e, posteriormente, suavizado no programa do governo, em matéria de segurança urbana. No entanto, tenho para mim que tudo irá depender daquilo que se quer dizer quando se fala de cidadania. Sobre a tomada em consideração das políticas de inclusão social nas acções de segurança pública, para além de um ganho considerável e um avanço na perspectiva anteriormente defendida pelo partido que suporta o governo, na prática, desde que não se cometa os erros do passado, é excelente...

[Imagem sacada na net]

04/10/2016

Da ressaca pós-eleitoral

Que fique saliente que o MPD venceu de forma como venceu as três batalhas em que se meteu este ano porque as pessoas assim quiseram e porque já estavam fartos do país ilusão de Zemas e companhia. Isto de falar que entramos numa nova ditadura ou num regime de partico único não passa de uma conversa da treta e típico de uma sociedade incapaz de se organizar fora da influência dos partidos políticos quer para fazer valer as suas reinvidicações ou os seus descontentamentos. Ir às urnas apenas de 4/5 a 4/5 anos não chega. Falar de uma suposta ilegitimidade da eleição de Zona é o mesmo que falar de uma suposta ilegitimidade dos outros candidatos, inclusive do tal Reitor da Universidade que atribuiu o Doutor Honoris Causa a Adriano Moreira, no dia internacional dos direitos humanos. Indo ao essencial, o que realmente deveria interessar aos analistas de prontidão não é a abstenção em si, que é um problema mundial, mas a forma ordinária como alguns dos nossos políticos têm reagido à coisa, à la deitar o lixo debaixo do tapete, num típico exercício de desviar do fundamental. 

[Imagem by Banksy]

01/10/2016

Da classe perigosa

Guy Standing apresenta o termo precariado em 2011, uma categoria criada nos anos de 1980 através da junção dos termos "precário" e "proletário", para designar uma classe emergente constituida por um número cada vez maior de pessoas que enfrentam vidas profissionais regidas pela insegurança. Uma classe com o potencial de provocar inatabilidade social pelo facto de circularem entre trabalhos temporáreos que acrescentam pouco significado e sentimento de pertença e realização pessoal às suas vidas, o que os torna frustados e revoltados. Esta situação explica porque dão-se pouco ao trabalho de votar em eleições, seja de que tipo for, o que têm contribuído para a erosão da legitimidade da democracia eleitoral a nível mundial.

Neste preciso momento em que se discute nas ilhas a cena da abstenção, o maior adversário de Zona numas eleições pouco sexy e beaucoup de chato, salvo as tiradas cómicas do tal senhor que afirma que caso ganhe irá aumentar o salário mínimo para números superiores ao salário médio, que tem garantido 500 milhões de financiamento para o desenvolvimento do país ou que toda a campanha do Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas eleições presidenciais portuguesas foi copiada na sua campanha de 2011 graças às redes sociais, o que resta aos analistas eleitorais de prontidão é saírem da sua zona de conforto e actualizarem um pouco o seu repertório teórico-empírico.

Penso que a certos níveis de articulação teoria e prática não é preciso muita imaginação sociológica para se perceber também a relação da coisa em cima dita com a tão falada transacção de votos e a questão da violência individual e grupal no arquipélago dito de "morabeza".

[Imagem retirada do mural do facebook de Tchalé Figueira]