13/09/2016

Sobre a(s) juventude(s)

Desde 2008 tenho trabalhado a questão juvenil cabo-verdiana nas suas mais variadas dimensões e suas respectivas políticas em projectos de pesquisa comparativa, publicações académicas e encontros científicos, o que de me dá uma certa legitimidade de opinar sobre as políticas públicas para o sector da juventude em Cabo Verde. Sendo verdade que acho uma boa ideia a transferência dos centros da juventude para a tutela dos municípios e a extinção do Ministério da Juventude, a extinção da Direcção Nacional da Juventude não passa de um erro político (caso não se gostasse do nome, mudava-se para algo como Instituto, Gabinete, Conselho e podia perfeitamente ficar sob a tutela do Gabinete do Primeiro-Ministro caso os Ministérios do Desporto, da Educação ou mesmo da Cultura, tendo em conta a nossa realidade, não o quisesse) baseado em achologias pseudo-científicas promovidas por tudólogos profissionais. Quem conhece a literatura especializada e estuda o fenómeno juvenil sabe que é crucial haver uma estrutura, mínima que seja, com a missão de pensar políticas articulandas com outros sectores, e, sobretudo, regulamentar, fiscalizar e avaliar os eixos norteadores avançados pelo novo Programa do Governo. Considerar a juventude cabo-vediana uma prioridade para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável e equilibrada fica bonito no papel mas necessário é interrogarmos como é que um único Conselheiro vai conseguir fazer isso. Ao que parece, não se quer aprender com os erros do passado. Embora considere que as orientações estratégicas para o sector herdada do anterior executivo reproduz inconscientemente a criminalização de uma certa juventude, a assunção actual da ideia da transversalidade dos problemas dos jovens segue a mesma lógica criminalizante e homogeneizante da política anterior. Por fim, o que deve ser realçado é que ao contrário do discurso colonial repropuzido pelo rap nacional, activistas socio-culturais, políticos, consultores e pesquisadores de gabinete, a juventude cabo-verdiana está longe de estar perdida, no sentido que lhe se quer dar.
  
[Na imagem "Gerasom Perdido" de Pex, 2014]