07/08/2016

Rap, sociologia e movimentos de contestação

O meu primeiro contacto com o rap foi no início dos anos de 1990, no Liceu Domingos Ramos, na Praia, embora, nos finais dos anos de 1980, ainda criança, já seguia alguns jovens que ocupavam a Praça Alexandre Albuquerque, no Plateau, onde eram emitadas algumas acrobacias do break dance visionadas no filme Breakin'. No entanto, a escolha do rap como tema de estudo apenas aconteceu em 2010. Inicialmente, devido à percepção da relevância desta expressão musical no contexto dos gangues de rua e, posteriormente, com a frequência das últimas sessões do Festival Hip Hop Konsienti, promovida por Dudú Rodrigues, ao perceber que para além do rap funcionar como uma nova forma de protagonismo juvenil, afirmação de uma identidade cultural e de protesto, bem como um espaço por onde África estava a ser (re)descoberta, a cultura hip-hop proporcionava novas formas de socialização dos jovens.  

Se para muitos jovens africanos o rap funcionou como a voz de mudança e representação de um futuro de esperança e de unidade pan-africana, personagens como Mumia Abu-Jamal denuncia a sua utilização como uma espécie de soft power na propagação da ideologia e dominação modernista (norte-americana), assim como a exportação da misoginia e violência. Entendido como um fenómeno pós-colonial, apesar das críticas de Abu-Jamal, autores como Zine Magubane defendem que esse estilo musical tem fornecido aos jovens africanos uma poderosa ferramenta de crítica à modernidade ocidental, contribuindo para a sua indigenização. 

No caso cabo-verdiano, como escrevi aqui, o estudo do rap a partir da perspectiva de perto e de dentro e enquadrado naquilo que Jean-Marc Ela chama de "antropologia do próximo", proporciona evitar simultaneamente a reprodução do "complexo electra-claridoso" de que fala Aquilino Varela e do síndrome elitista de alguns intelectuais e investigadores cabo-verdianos, como também novas ferramentas analíticas de compreensão de uma parte da nova geração juvenil em processo de indigenização. Por outro lado, entender o fenómeno dos gangues de rua passa por tomar o gangsta rap como uma fonte etnográfica, situação esta, segundo John Hagedorn, completamente ignorada pelos criminologistas. 

30 e tal anos depois da apropriação do rap pelos jovens cabo-verdianos e de origem cabo-verdiana pelo mundo fora, nas ilhas, já surgiram versões nacionalizadas de Heavy D, 2 Pac, DMX, Gabriel O Pensador, Azagaia, entre outros. Entretanto, penso que nesta nova conjuntura sociopolítica muito se poderá ganhar a nível da maturidade democrática, caso venha a surgir uma espécie de versão cabo-verdiana da Keny Arkana.

Até lá, 13 rappers crioulos que estão a marcar a diferença do hip-hip dito "lusófono". Entre muitos outros cá nas ilhas que poderiam integrar esta lista, destaco Wolf Gang e Karaka, que pelo bem e pelo mal foram os dois maiores responsáveis na massificação do rap em Cabo Verde.  

[Na imagem "Repa" by Dudú Rodrigues, 2010. Do projecto PraiaPop: Tribus Urbanus]