28/08/2016

Campanha eleitoral e "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana

Diz-nos a literatura especializada que a reforma eleitoral que inaugurou a era da política de massas transformou a política num negócio mais dispendioso e lucrativo. Diz-nos a literatura especializada que a Camorra, assim como uma boa parte dos sindicatos do crime no Brasil, EUA, África do Sul e noutras partes do mundo (incluindo a Europa dita civilizada), consolidaram-se nas prisões, resultado das políticas repressivas que proporcionaram o encontro de simples delinquentes locais com revolucionários patriotas. Diz-nos a literatura especializada que a Picciotteria, a facção primitiva da 'Ndrangheta, assim como a Cosa Nostra, inauguraram a relação violenta, corrupta e lucrativa entre criminosos, altos funcionários públicos e políticos da esquerda e da direita conservadora e liberal (e não só da esquerda, como se quer fazer passar por estas bandas). Aliás, um dos nomes com que a Máfia italiana foi inicialmente identificada era precisamente, o Partido.  

Diz-nos os factos, que em Cabo Verde, no dia 6 de Feverreiro de 2011, dia do voto nas eleições legislativas, houve ameaças e tirroteios nas imediações do local do voto, no Paiol, entre gangues de rua ligados ao PAICV e MPD, a culminar dias de tensão neste bairro e suas imediações territoriais entre grupo de activistas dos dois partidos, resultante da colocação no local de um outdoor de campanha com a famosa frase dita por Carlos Veiga, no debate televisivo com Zemas, "escreveu ou não escreveu". Sendo este o alto mais controverso da relação em época eleitoral entre partidos políticos (ou dos seus activistas) e gangues de rua (ou do crime organizado noutras paragens) nas ilhas, o assunto suscitou inúmeras conversas em vários espaços de convívio, havendo relatos da utilização sistemática de grupos armados pelos "homens de bem" ao longo da história do país, bem como noutras regiões do arquipélago pós-colonial. A título de exemplo, um ano mais tarde do caso do Paiol, nas eleições autârquicas de 2012, na cidade dos Mosteiros, houve acusações mútuas dos dois maiores partidos políticos do país sobre a utilização de gangues de rua da Praia (por parte do MPD) e de jovens deportados dos EUA (por parte do PAICV) como arma de intimidação eleitoral.   

Isto tudo para dizer que em relação ao mais recente acontecimento eleitoral na ilha do Fogo (aqui e aqui), para além de revelar uma espécie de amnésia histórica político-partidária e colectiva, o que não quer dizer que tem algo a ver com o assunto apontado em riba, indica que nestas coisas de "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana, o buraco é bem mais em baixo. 


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