28/04/2016

Nós, a histeria cibernética e as políticas de avestruz

É evidente que fazemos parte da sociedade global fast-food e histérica, com a particularidade de continuarmos teimosamente a acreditar na tese da sociedade de brandos costumes aka de "morabeza" e destinados a seguir políticas de avestruz. Não sei se este governo terá coragem de fazer as rupturas estruturais necessárias, que só vontade não chega. Lembro-me de ter escrito em 2013, no rescaldo dos acontecimentos de 2011, para um capítulo de um livro qualquer, que cerca de 20% dos presos na Cadeia Central da Praia passaram pelo serviço militar e que a maior preocupação da chefia policial, na altura, era lidar com agrupamentos associados a comportamentos delinquentes liderados ou tendo como membros ex-fuzileiros. Quando se vive numa situação sentimental que varia entre aspirações e frustrações, o mal-estar social e/ou individual provocado por este último, derivado da estrutura de oportunidades segregadas que continuamos a reproduzir, poderá transformar em algo explosivo. O que mediaticamente se vem chamando de "Massacre de Monte Tchota" tem muito a ver com isto, como tem a ver com o perigo dos resultados perversos da ideologia de Tolerância Zero e com o que de mau o bullyng militar (de colegas e, principalmente, de superiores) poderá provocar na estrutura mental de um jovem inserido numa sociedade culturalmente hipermasculinizada. Assim é nas Forças Armadas, bem como nas Forças Policiais... etc e tal.

Adenda: PR aceita demissão do Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.
      
[Imagem de Banksy]

15/04/2016

Da série "eu também quero ser homenageado e um tacho"

Na ora di bai, Zemas confessa que afinal não é o tal homem das impossibilidades. No entanto, vai ocupar o lugar na Universidade de Cabo Verde, que indirectamente ofereceu a si próprio. Sobre Tó, o Correia e Silva, há rumores que vai acampar para os lados da UNESCO, na cidade das luzes, depois de ter participado na tentativa de assassinato das Ciências Sociais e Humanas da terra, enquanto Ministro do Ensino Superior e das Ciências. Na hora das auto-homenagens, uns mais merecedores que outros, o ainda Primeiro-Ministro e ex-quase candidato a Presidente da República foi recentemente homenageado por uma ainda sua Instituição como o mondon que transformou a República numa espécie de quintal privado, não obstante o excelente primeiro mandato. 

[Na imagem Scull de Jean-Michel Basquiat, 1981]

12/04/2016

III Colóquio Doutoral

No estudo dos gangues, o mais importante não é procurar as diferenças entre eles mas as suas semelhanças. O mais importante é tomar os thugs como semelhantes aos seus cousins norte-americanos (sua referência inicial), cariocas (sua referência posterior) ou de qualquer outra cidade global do planeta e não como uma mera imitação destes. Colaboro da ideia dos actuais especialistas em gangues que para uma melhor compreensão do fenómeno com vista a uma intervenção mais eficiente, que contorne o discurso político militarizado suportado pela ideologia da Tolerância Zero, hoje também reproduzida nas nossas universidades, há que deslocar a análise das dimensões lei e ordem e/ou normas e valores (e os seus laivos eurocêntricos) para a análise da dimensão identitária. Igualmente, para além das fontes de informação etnográficas tradicionais, há que se tomar como fonte tanto o gangsta rap como o chamado rap consciente produzido nas ilhas. 

Na próxima semana, no III Colóquio Doutoral da Escola de Sociologia e Políticas Públicas do ISCTE-IUL, apresentarei a comunicação "Street fighters: jovens, processos identitários e gangues de rua na cidade da Praia", onde reflicto a pertinência do uso do conceito identidade social no estudo dos gangues em Cabo Verde, isto porque a importação e apropriação da identidade thug por parte dos seus membros evidencia produções de identidades simultaneamente de semelhança e diferença, assim como produções de pertenças assentes no antagonismo violento com outros grupos sociais baseados em bairros similares ou distintos.
  
[Na imagem gravação do vídeo Konsiensia dos Wolf Gang, 2014]

05/04/2016

Da série "os melhores em África e arredores"

Segundo dados do Institute for Criminal Policy Research, Cabo Verde é actualmente o país com a maior taxa de população prisional na sua sub-região e o quinto em África.

[Imagem apanhada na net]

04/04/2016

E se alguém lembrasse de inventar um The Cabo Verde Papers?


Logo de entrada são cerca de duas dezenas de empresas de lavagem de dinheiro com ligações a Cabo Verde. Uma investigação jornalística complementar por estas bandas, se houvesse jornalismo de investigação do tipo com capacidade de seguir o dinheiro, a começar pelo dinheiro de Dubai, se isso fosse feito, alcançava-se o mundo do narcotráfico, intimamente ligado aos outros tráficos, e obviamente, caso se continuasse a cavar, os nomes da malta dita do bem poderiam começar a surgir... mas lá está, são muitos ses. Por outro lado, que lindo seria se, numa escala menor, alguém lembrasse de inventar um The Cabo Verde Papers?  

[Imagem sacada na net]