16/03/2016

Família, delinquência e reprodução da "barbaridade intelectual"

Em 2008, o Ministério da Justiça pagou por um pseudo-estudo sobre a delinquência juvenil em Cabo Verde para chegar à brilhante conclusão de que uma das causas principais da coisa seria a permanência nas ilhas da tal coisa da família desestruturada*. Sustentado por um ultraconservadorismo bacoco, considerou ainda que a união de facto é uma manifestação desta desestruturação. Hoje, através do canal You Tube da TV Record fico a saber pela boca de um destacado doutor malthusiano cá da praça que a solução para o combate à coisa passa pela sensibilização das mulheres muito pobres em como não devem ter filhos que normalmente vão-se transformar mais tarde em delinquentes. Neste último caso, gostaria de saber se a culpa da reprodução deste tipo de "barbaridade intelectual" é da jornalista que na ânsia de legitimar a reportagem legitima o discurso tonto deste tipo de doutores especialistas em ideias gerais ou se é deste doutor que não tendo a noção do ridículo transforma o nosso ouvido num contentor de lixo.

*De entre muitos outros trabalhos que desconstroem este argumento colonial e tosco, destaco os estudos de Lucia Oca González, Andreia Lobo e Filipe Martins & Celeste Fortes (aqui, aqui e aqui).