27/02/2016

Da promoção da delinquência

Isto começou como já se esperava. Mesmo muito mal. Primeiro: a campanha eleitoral só começa legalmente na próxima semana. Segundo: mesmo que já se tenha começado, "a campanha eleitoral consiste na apresentação das propostas e programas político-eleitorais e na justificação e promoção das candidaturas, com vista à captação de votos, no respeito pelas regras do estado de direito democrático". Terceiro: sendo assim, "é proibido o recurso à actuação de agrupamentos musicais ou artistas na realização de comícios ou reuniões públicas de campanha eleitoral... excepto artistas culturais tradicionais... de carácter marcadamente local ou comunitário e de cariz amador". 

Obviamente não se pode esperar que um burro aja de um momento para outro como um cavalo quando tudo o que aprendeu na vida foi viver como um burro. Pierre Bourdieu chama a isso de habitus. Mas o mais curioso nesta história é a (in)acção da chefia policial da Praia. A mesma que há uns meses atrás tentou impedir por ordens superiores e de forma ilegal o concerto do rapper Hélio Batalha no Warehouse.

Depois fala-se de delinquência etc e tal. Quando o próprio partido-Estado no momento em que não age como tal, a incentiva. Infelizmente terei de dar razão aos apontamentos de Roberto Briceno-León sobre a violência urbana na Venezuela. É caso para perguntar, e agora?

Adenda: e eu que li o livro de Zemas, confesso que tinha pensado que o impossível já tinha sido transformado em possivel... estou confuso.

[Imagem de Misha Gordin]

22/02/2016

Artigo sobre deportados dos EUA e da UE publicado pela Uni-CV

Em Setembro de 2012 foi organizado, na cidade da Praia, o Colóquio Internacional sobre as Ciências Sociais em Cabo Verde, em que participaram dezenas de pesquisadores nacionais e estrangeiros com trabalhos sobre o quotidiano das ilhas ou na sua Diáspora. O livro apresentado semana passada na Uni-CV, "As ciências sociais em Cabo Verde: temáticas, abordagens e perspectivas teóricas", organizado por Cláudio Alves Furtado, Pierre-Joseph Laurent e Iolanda Évora, é um resultado do Colóquio e conta com o artigo "Emigrantes e Deportados em Cabo Verde", escrito em parceria com Celeste Fortes.

Dias antes desse Colóquio. no Atelier GNT/CODESRIA enquadrado neste projecto, em que se discutia os resultados preliminares sobre os achados de campo no que toca à realidade dos jovens cabo-verdianos expulsos dos Estados Unidos e da União Europeia, fomos acusados de fazer parte de uma Universidade secreta com agenda obscura, em parte a propósito dos comentários de Odair Barros Varela sobre o acordo de readmissão acabado de assinar com a União Europeia e da insistência de Jandira de Barros na questão dos direitos humanos. O campo de pesquisa tinha acabado de nos dar indicações de que Portugal, o segundo país que mais deporta cabo-verdianos, o faz de forma tão ou mais violenta do que os Estados Unidos, facto só agora descoberto pela nossa imprensa, a reboque da imprensa portuguesa. 

Curiosamente, os mesmos que nos acusaram de pertencer a tal Universidade secreta mostram-se hoje bastante preocupados com os direitos humanos etc e tal.    

[Na imagem capa do livro]

21/02/2016

Deportação

As autoridades cabo-verdianas falam em "violação dos direitos humanos". As mesmas autoridades que assinaram, em 2012, o acordo de readmissão com a União Europeia que facilita deportações não só de seus nacionais como de nacionais de Estados terceiros e apátridas, sendo que estes últimos poderão ser deportados para Cabo Verde desde que seja entendido que transitaram o seu espaço físico (terra, mar ou céu) no processo migratório. 

11/02/2016

Próxima semana no ISCTE-IUL, Lisboa

Na próxima semana apresentarei duas comunicações em Lisboa, ambos no ISCTE-IUL. No dia 17, "Deportados e/ou readmitidos? O lugar de Cabo Verde nas políticas migratórias internacionais", nos Encontros Mensais sobre Experiências Migratórias, baseado neste projecto, coordenado por Iolanda Évora, cujo artigo "Emigrantes e deportados em Cabo Verde", com Celeste Fortes, será lançado dia 18 do corrente mês, na Praia, no livro "Ciências Sociais em Cabo Verde: temáticas, abordagens e perspectivas teóricas" e no artigo no prelo, com Odair Barros Varela, intitulado "Foremen of the Empire? Re-analysis of the readmission agreement with the European Union and of repatriation in the cape verdean archipelago".

No dia 18, "Os processos identitários e o estudo de gangues de rua. Apontamentos teóricos e aproximação ao caso cabo-verdiano", no Seminário de Doutoramento em Estudos Urbanos, baseado numa parte teórica da minha Tese de Doutoramento.  

[Imagem apanhada na net]

05/02/2016

Da série "por favor chamem uma ambulância"

É um facto de que, em Cabo Verde (que é o que interessa aqui), o período eleitoral é aquele momento em que as pessoas perdem a noção do ridículo (ainda mais quando coincide com o período carnavalesco). Tenho a Carla Carvalho, pessoa que estimo muito, como inteligente e uma referência da sua geração, por isso devo entender este artigo (na sequência deste) como um desabafo de alguém com sintomas de "partidite aguda", uma doença que está eleição a eleição a transformar-se numa questão de saúde pública. Só fazendo este enquadramento patológico poderei entender o argumento de que votar na líder do PAICV é um acto de activismo pela igualdade de género ou, pior ainda, que quem não o fizer não poderá no futuro levantar a bandeira de igualdade de género. Deve haver outros atributos que se lhe possa trazer vantagens. Embora penso que cada um deva apoiar quem bem entender e da forma como bem entender, argumentos ridículos como os apresentados nesse último artigo, em que a bandeira da ciência através da sociologia (que a sociologia pública não é isso) é hasteada, é no mínimo reprovável. É que de repente isto está a deixar de ser uma luta político-partidária ou de argumentos políticos para se tornar numa luta sexista entre mulher e homem. 

[Imagem de Misha Gordin]

02/02/2016

VI Congresso da APA

No VI Congresso da APA deste ano apresentarei com Ema de Barros a comunicação "O bairro do Plateau e as políticas de nobilitação urbana. Um olhar cruzado entre a sociologia e a arquitectura", onde para além de tentarmos perceber em que medida a população que reside e trabalha no bairro do Plateau foi envolvida ou envolveu-se no processo da sua (re)estruturação, pretendemos igualmente analisar de que forma a intervenção urbana no bairro tem contribuído para a concretização de um tipo de urbanismo de coesão social.    

[Na imagem cartaz do Congresso]