27/12/2016

Ode à estupidez

"Quando os badios trabalhavam com correntes nos pés, nós já brincávamos o carnaval em liberdade. Agora querem o que é nosso? Vão tocar tabanca! Não queremos o vosso batuque e as vossas africanices!" - Fernando Morais

Não conheço o gajo, nem vi em primeira mão o comentário, mas dizem que é real e que o gajo é um dos grandes artistas de carnaval da terra. Pode até ser. Contudo, a ignorância, além de ideológica, também é uma arte. Primeiro, quando os santiaguenses (que o nome badios deve-se à sua condição de livre autoproclamado) trabalhavam com as correntes nos pés, não existia nem são vicentinos, muito menos carnaval no Mindelo. Segundo, o problema não é a baboseira escrita pelo tal de Fernando Morais, que o coitado, por ter escrito o que escreveu, mostra não ser outra coisa senão um idiota. O problema é aquela boa parte de gente com este mesmo pensamento ideológico, que regojiza-se com a coisa dita por este energúmeno, mas que esconde-se atrás do Sistema Hipocrisia da terra, mostrando-se momentaneamente chocada. 

Vai ver o carnaval do Mindelo é algo cheio de "europeizices" e os mandigas são assim uma encarnação de vikings crioulos... e o idiota sou eu.    

[Imagem]

23/12/2016

Reload and upload

Sobre esta notícia, o que há a dizer é que se Zemas reúne todas as condições para Secretário Executivo da Comissão Executiva para a África não sei, mas que mudou estruturalmente o país não tenho dúvidas, sobretudo na reprodução do parasitismo estatal, desperdício organizado e no reforço do sistema de nepotismo. Passado o testemunho, outros protagonistas se posicionam. Contudo, os affaristi continuam os mesmos. Aquela malta surfista, que passando por empreendedores, agem normalmente à sombra do sistema político-partidário que lhes permite obter pequenos monopólios e contratos vantajosos. 

27/11/2016

Wake Up Afrika from STP

"Sobretudo Mulher" by Wake Up Afrika. 

Trabalho enquadrado num projecto recente promovido por uma jovem artista são-tomense, assente na ideia do pan-africanismo, que tem como objectivo contribuir para o despertar do continente africano através da valorização dos seus costumes, tradições, patrimônios, culturas e, acima de tudo, dos seus recursos humanos.

Adenda: no Buala.

20/11/2016

Make American Great Again

Por mais idiota que possa aparecer, a triologia The Purge (1, 2, 3) é a narrativa que melhor caracteriza o actual estado sociopolítico norte-americano...    

[Imagem sacada da net]

03/11/2016

Nós e a herança lombrosiana

Não da sentença em si, que coisa diferente não se poderia esperar, mas da justificação: "O Tribunal considerou Antany um 'psicopata de grau grave' não sendo isso uma 'doença', mas sim uma 'condição com que se nasce e se morre' e que não tem tratamento." O certo é que os nossos Juízes e classe afins, ou parte dela, encontram-se ainda no século XIX e o pensamento lombrosiano faz escola nas ilhas...

02/11/2016

Das continuidades históricas

Na edição n. 2, do Jornal O Manduco, de Setembro de 1928, com o título "Administradores... de concelhos", escreve-se o seguinte:

"São funcionários por nomeação arbitrária (...). Não representam os interesses legítimos do município senão os particulares da entidade que o nomeou. A sua função não é nem mais nem menos que uma consentida espionagem política. Daí a sua absoluta sujeição às vicissitudes das lutas partidárias. Mas em Cabo Verde temo-los visto agarrados sofregadamente ao cargo como modo de vida ou como pedestal de imaginadas grandesas e reais mesquinhas vinganças. A vida e na verdade um oceano de miséria (...) um e o outro não largam o osso por mais pontapés que apanham."

Quase 90 anos após este texto (hoje diríamos post), a coisa não mudou muito nestas ilhas à beira-mar a secar.

[Na imagem Glenn by Jean-Michel Basquiat, 1984]

01/11/2016

Activisms in Africa

Em Janeiro, na Conferência Internacional Activisms in Africa, no ISCTE-IUL, apresentarei a comunicação "Netus di Cabral i rivuluson. Os jovens e os protestos públicos em Cabo Verde", que tem como base um trabalho etnográfico no contexto juvenil urbano cabo-verdiano, com o qual se pretende, por um lado, relacionar o mal-estar social e a (re)mergência da reinvidicação da identidade africana por parte dos jovens em situação de marginalidade com o Estado pós-colonial cabo-verdiano e, por outro, discutir de forma exploratória a emergência dos movimentos juvenis surgidos em Cabo Verde nos últimos anos. 

Na sequência desta outra

29/10/2016

Da cultura do macaco e do papagaio


Tenho para mim que a violência simbólica é a pior das violências e que o que não é muito inteligente e algo como ter os pés bem fora do chão é este editorial do Expresso das Ilhas. A cegueira ideológica é uma coisa tramada e este editorial só prova que um trabalho de desconstrução ideológica bem mais aprofundada torna-se necessário.

Adenda: e a estupidez agudiza-se quando a figura por detrás do editorial afirma qualquer coisa como que os assuntos que os claridosos não trataram, não interessa... 

[Na imagem The Persistence of Memory de Salvador Dali, 1931]

25/10/2016

Da crise de conceitos

Como já disse e escrevi inúmeras vezes, os picos de criminalidade urbana em Cabo Verde têm sido cíclicos e se o analisarmos a partir de uma perspectiva de evolução secular (macroevolução da criminalidade), percebemos que em termos de crise, só se estivermos a falar de crise de conceitos* de uma certa sociologia fast food reproduzida nas ilhas por uma intelectualidade folclórica mui institucionalizada.

Sobre o tema em si, já que a conversa volta a ser criminalidade, segurança e afins, relembro aos mais incautos os textos "Cidadania, Mobilidade Juvenil e Coesão Social Urbana" e "Violências Urbanas, Gangues e Jovens", produzidos em 2013 e 2014 respectivamente,

*Considera-se crise de conceitos quando os conceitos mobilizados não permitem elucidar com total precisão os fenómenos analisados, em parte porque ao invés de se buscar construir formulações teóricas baseadas em pesquisas sólidas, localmente situadas, importa-se conceitos (porque de outro jeito não sai) que em nada se adequam à realidade analisada. 

23/10/2016

Cultura punk e a promoção de uma agenda subversiva

Um punk às antigas na tentativa de promoção de uma agenda subversiva, num contexto em que se efectiva o empobrecimento da população, em que se consolida uma cultura de mediocridade transvestida de políticas de nomeações de prémios de pessoas com provas dadas de incompetência crónica enquanto servidores públicos, em que se insiste na cosmetização social e na política do mais do mesmo em vários quadrantes de governação, em que se passa da política de jobs for the boys and girs para uma política de circulação de jobs... pelo meio, esta medida necessária, mas sem a parte da videovigilância, e a visão "clara e objectiva" de um partido em processo de desvario institucional total.

[Na imagem capa do álbum "Punk. London 40 Years of Sub-Versive Culture", 2016]

14/10/2016

Big brother is watching

Da sociedade panóptica de Jeremy Bentham e a visão de que o governo deveria promover a maior felecidade para o maior número de pessoas ao que hoje é chamado de "shenzhenismo social", uma política chinesa de controlo social que combina a monitorização visual com o que poderia ser designado de "infovigilância"... 


[Imagem]

07/10/2016

Criminalidade, segurança pública e afins

Sobre a criminalidade urbana já escrevi alguma coisa e é um trabalho ainda em curso. O que disse em tempos e foi tomado como um exagero, hoje é assumido com naturalidade e não fosse a "mentalidade túnel" do anterior executivo e seus lacaios muitas situações poderiam ter sido evitadas. O que posso salientar é que a criminlaidade nada tem a ver com a pobreza mas com as desigualdades, sendo o empobrecimento das populações apenas uma das suas facetas. Por desconhecer a coisa não diria que esta medida significa uma retumbante mudança de perspectiva entre o que era assumido na plataforma eleitoral e, posteriormente, suavizado no programa do governo, em matéria de segurança urbana. No entanto, tenho para mim que tudo irá depender daquilo que se quer dizer quando se fala de cidadania. Sobre a tomada em consideração das políticas de inclusão social nas acções de segurança pública, para além de um ganho considerável e um avanço na perspectiva anteriormente defendida pelo partido que suporta o governo, na prática, desde que não se cometa os erros do passado, é excelente...

[Imagem sacada na net]

04/10/2016

Da ressaca pós-eleitoral

Que fique saliente que o MPD venceu de forma como venceu as três batalhas em que se meteu este ano porque as pessoas assim quiseram e porque já estavam fartos do país ilusão de Zemas e companhia. Isto de falar que entramos numa nova ditadura ou num regime de partico único não passa de uma conversa da treta e típico de uma sociedade incapaz de se organizar fora da influência dos partidos políticos quer para fazer valer as suas reinvidicações ou os seus descontentamentos. Ir às urnas apenas de 4/5 a 4/5 anos não chega. Falar de uma suposta ilegitimidade da eleição de Zona é o mesmo que falar de uma suposta ilegitimidade dos outros candidatos, inclusive do tal Reitor da Universidade que atribuiu o Doutor Honoris Causa a Adriano Moreira, no dia internacional dos direitos humanos. Indo ao essencial, o que realmente deveria interessar aos analistas de prontidão não é a abstenção em si, que é um problema mundial, mas a forma ordinária como alguns dos nossos políticos têm reagido à coisa, à la deitar o lixo debaixo do tapete, num típico exercício de desviar do fundamental. 

[Imagem by Banksy]

01/10/2016

Da classe perigosa

Guy Standing apresenta o termo precariado em 2011, uma categoria criada nos anos de 1980 através da junção dos termos "precário" e "proletário", para designar uma classe emergente constituida por um número cada vez maior de pessoas que enfrentam vidas profissionais regidas pela insegurança. Uma classe com o potencial de provocar inatabilidade social pelo facto de circularem entre trabalhos temporáreos que acrescentam pouco significado e sentimento de pertença e realização pessoal às suas vidas, o que os torna frustados e revoltados. Esta situação explica porque dão-se pouco ao trabalho de votar em eleições, seja de que tipo for, o que têm contribuído para a erosão da legitimidade da democracia eleitoral a nível mundial.

Neste preciso momento em que se discute nas ilhas a cena da abstenção, o maior adversário de Zona numas eleições pouco sexy e beaucoup de chato, salvo as tiradas cómicas do tal senhor que afirma que caso ganhe irá aumentar o salário mínimo para números superiores ao salário médio, que tem garantido 500 milhões de financiamento para o desenvolvimento do país ou que toda a campanha do Marcelo Rebelo de Sousa nas últimas eleições presidenciais portuguesas foi copiada na sua campanha de 2011 graças às redes sociais, o que resta aos analistas eleitorais de prontidão é saírem da sua zona de conforto e actualizarem um pouco o seu repertório teórico-empírico.

Penso que a certos níveis de articulação teoria e prática não é preciso muita imaginação sociológica para se perceber também a relação da coisa em cima dita com a tão falada transacção de votos e a questão da violência individual e grupal no arquipélago dito de "morabeza".

[Imagem retirada do mural do facebook de Tchalé Figueira]

24/09/2016

Partidos políticos e violência eleitoral

Quer gostem ou não, tenho para mim que qualquer discussão séria sobre este assunto em Cabo Verde que não passe por uma reflexão a partir deste artigo é uma mera manobra de cosmética política e científica à la moda cabo-verdura.  

17/09/2016

Da promoção da imbecilidade intelectual

Que em Cabo Verde as instituições do ensino superior são geridas como que se do quintal do chefe e equipa dirigente se trata não é novidade. Que na Universidade de Cabo Verde, a rídicula política de criação e gestão dos cursos visa tão somente garantir horas ao corpo docente da casa e barrar a entrada de corpos estranhos à coorporação é pública. O que me espanta é como que um Professor Doutor cabo-verdiano, com melhor currículo que a esmagadora maioria dos docentes que ali vegetam, ex-professor universitário e pesquisador nos EUA com uma extensa rede de grupos de pesquisa no nosso continente é dado nota zero na sua área científica, naquela coisa bastante duvidosa que insistem em chamar de concurso. A continuar assim, a tal conversa de excelência, rigor etc e tal do ensino superior cá da casa já nem ao inglés conseguirá enganar.

[Imagem de Caras Ionut]

14/09/2016

Teoria Queer e a questão homossexual em Cabo Verde

Sobre o "casamento gay" na ilha da Brava, o que se espera é que volte a colocar a questão homossexual na agenda pública (e política), enfrentando o tal Sistema Hipocrisia (que se estende à cena da CRASDT) apontado neste interessante artigo, recentemente publicado no Brasil, com o título: ""Hipocrisia": a visão dos gays cabo-verdianos sobre o seu próprio sistema de género". E para aprofundar a reflexão, ""I want to marry in Cabo Verde": reflections on homosexual conjugality in contexts".

13/09/2016

Sobre a(s) juventude(s)

Desde 2008 tenho trabalhado a questão juvenil cabo-verdiana nas suas mais variadas dimensões e suas respectivas políticas em projectos de pesquisa comparativa, publicações académicas e encontros científicos, o que de me dá uma certa legitimidade de opinar sobre as políticas públicas para o sector da juventude em Cabo Verde. Sendo verdade que acho uma boa ideia a transferência dos centros da juventude para a tutela dos municípios e a extinção do Ministério da Juventude, a extinção da Direcção Nacional da Juventude não passa de um erro político (caso não se gostasse do nome, mudava-se para algo como Instituto, Gabinete, Conselho e podia perfeitamente ficar sob a tutela do Gabinete do Primeiro-Ministro caso os Ministérios do Desporto, da Educação ou mesmo da Cultura, tendo em conta a nossa realidade, não o quisesse) baseado em achologias pseudo-científicas promovidas por tudólogos profissionais. Quem conhece a literatura especializada e estuda o fenómeno juvenil sabe que é crucial haver uma estrutura, mínima que seja, com a missão de pensar políticas articulandas com outros sectores, e, sobretudo, regulamentar, fiscalizar e avaliar os eixos norteadores avançados pelo novo Programa do Governo. Considerar a juventude cabo-vediana uma prioridade para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável e equilibrada fica bonito no papel mas necessário é interrogarmos como é que um único Conselheiro vai conseguir fazer isso. Ao que parece, não se quer aprender com os erros do passado. Embora considere que as orientações estratégicas para o sector herdada do anterior executivo reproduz inconscientemente a criminalização de uma certa juventude, a assunção actual da ideia da transversalidade dos problemas dos jovens segue a mesma lógica criminalizante e homogeneizante da política anterior. Por fim, o que deve ser realçado é que ao contrário do discurso colonial repropuzido pelo rap nacional, activistas socio-culturais, políticos, consultores e pesquisadores de gabinete, a juventude cabo-verdiana está longe de estar perdida, no sentido que lhe se quer dar.
  
[Na imagem "Gerasom Perdido" de Pex, 2014]

12/09/2016

25 anos de "smells like teen spirit" dos Nirvana

Nos idos anos de 1990, no Liceu Domingos Ramos, enquanto quase toda a malta curtia ser yo, uma minoria, do qual fazia parte, era grunge, uma mistura de metal e punk com o do it yourself como filosofia de vida e smells like teen spirit como banda sonora. Havia cenas de gangues, "ganza" e pancadaria que se bastasse, mas nada de mortes e afins. Para alguns estudiosos, este foi o início do fim da era ideológica. Para mim, foi uma década de rebeldia que nada tinha de niilismo e o espírito teen continua inalterado.

07/09/2016

Eu e os 56,5%

Primeiramente eu não voto e sou da equipa dos 56,5%. Não meramente por rebeldia ou como parte de uma manifestação anti-política, mas por achar que fazer política não se limita ao dia de colocar a coisa na urna e, sobretudo, porque nenhuma das cinco candidaturas na Praia me disseram alguma coisa. Isto de voto em branco é muito bonito mas não me diz nada e idiota do cientista ou analista político que ignore a compreensão qualitativa da abstenção na análise das eleições dos novos tempos.

Preferindo evitar falar do PAICV e do seu erro de casting comunicacional e político, reconheço que a equipa suportada pelo MPD fez, nos últimos anos, um bom trabalho na Praia. em matéria de levantar o auto-estima dos praienses depois do furacão Filú e na arte da cosmética urbana. A sociologia urbana chama a esse segundo processo de esteticização urbana, o que quer dizer que é necessário muito mais para que de facto se alcançe o tão falado bem-estar social. que da minha felecidade trato eu.

Sinceramente, não vejo como que uma equipa que confunde política urbana com política imobiliária ou edificação de minis fitness park e afins com política de promoção de espaços públicos conseguirá alcançar o chamado urbanismo de coesão social, mas temos os próximos quatro anos para ver se a malta abre a pestana, sem grandes expectativas e djobendu senpri pa ladu.

Sobre as restantes candidaturas, o mês do carnaval que eu saiba é em Fevereiro, embora a malta da cidade dos mandingas inventou a cena do carnaval de verão.

[Imagem sacada na net]

03/09/2016

Eleições | Praia

Sigo campanhas eleitorais nas ilhas desde a dita chegada da democracia, em 1991. Inicialmente como um puto crurioso e, a partir de 2011, com pesquisador. De todas as que pude seguir, tenho para mim que, pelo menos na Praia, este último foi assim uma coisa muita má. O vazio do discurso na Fazenda e o vazio do discurso e de moldura urbana na Várzea, no fecho da coisa, obriga-me a aventar a questão se já não entramos numa era de crise de políticos em Cabo Verde. Por mais que a palavra FAIMO eleitoral seja assim uma coisa sexy (e uma boa desculpa para inglês ver), o que a malta ainda não entendeu é que por mais que a teatralidade é bonita, o pessoal cansa.  

[Imagem recuperada na net]

28/08/2016

Campanha eleitoral e "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana

Diz-nos a literatura especializada que a reforma eleitoral que inaugurou a era da política de massas transformou a política num negócio mais dispendioso e lucrativo. Diz-nos a literatura especializada que a Camorra, assim como uma boa parte dos sindicatos do crime no Brasil, EUA, África do Sul e noutras partes do mundo (incluindo a Europa dita civilizada), consolidaram-se nas prisões, resultado das políticas repressivas que proporcionaram o encontro de simples delinquentes locais com revolucionários patriotas. Diz-nos a literatura especializada que a Picciotteria, a facção primitiva da 'Ndrangheta, assim como a Cosa Nostra, inauguraram a relação violenta, corrupta e lucrativa entre criminosos, altos funcionários públicos e políticos da esquerda e da direita conservadora e liberal (e não só da esquerda, como se quer fazer passar por estas bandas). Aliás, um dos nomes com que a Máfia italiana foi inicialmente identificada era precisamente, o Partido.  

Diz-nos os factos, que em Cabo Verde, no dia 6 de Feverreiro de 2011, dia do voto nas eleições legislativas, houve ameaças e tirroteios nas imediações do local do voto, no Paiol, entre gangues de rua ligados ao PAICV e MPD, a culminar dias de tensão neste bairro e suas imediações territoriais entre grupo de activistas dos dois partidos, resultante da colocação no local de um outdoor de campanha com a famosa frase dita por Carlos Veiga, no debate televisivo com Zemas, "escreveu ou não escreveu". Sendo este o alto mais controverso da relação em época eleitoral entre partidos políticos (ou dos seus activistas) e gangues de rua (ou do crime organizado noutras paragens) nas ilhas, o assunto suscitou inúmeras conversas em vários espaços de convívio, havendo relatos da utilização sistemática de grupos armados pelos "homens de bem" ao longo da história do país, bem como noutras regiões do arquipélago pós-colonial. A título de exemplo, um ano mais tarde do caso do Paiol, nas eleições autârquicas de 2012, na cidade dos Mosteiros, houve acusações mútuas dos dois maiores partidos políticos do país sobre a utilização de gangues de rua da Praia (por parte do MPD) e de jovens deportados dos EUA (por parte do PAICV) como arma de intimidação eleitoral.   

Isto tudo para dizer que em relação ao mais recente acontecimento eleitoral na ilha do Fogo (aqui e aqui), para além de revelar uma espécie de amnésia histórica político-partidária e colectiva, o que não quer dizer que tem algo a ver com o assunto apontado em riba, indica que nestas coisas de "hooliganismo partidário" à cabo-verdiana, o buraco é bem mais em baixo. 


[Imagem]

21/08/2016

Cabo Verde e as desigualdades sociais

Entre o país da ilusão herdado do partido tambarina e a promessa do país de felecidade avançado pelo partido rabentola, o que importa neste momento é o país real apresentado nesta trilogia de reportagens sobre as desigualdades sociais, assinada pela jornalista Chissana Magalhães, no Expresso das Ilhas: 1) o desafio que persiste; 2) movimentos de denúncia e contestação; 3) ter ou não ter.

[Imagem]

07/08/2016

Rap, sociologia e movimentos de contestação

O meu primeiro contacto com o rap foi no início dos anos de 1990, no Liceu Domingos Ramos, na Praia, embora, nos finais dos anos de 1980, ainda criança, já seguia alguns jovens que ocupavam a Praça Alexandre Albuquerque, no Plateau, onde eram emitadas algumas acrobacias do break dance visionadas no filme Breakin'. No entanto, a escolha do rap como tema de estudo apenas aconteceu em 2010. Inicialmente, devido à percepção da relevância desta expressão musical no contexto dos gangues de rua e, posteriormente, com a frequência das últimas sessões do Festival Hip Hop Konsienti, promovida por Dudú Rodrigues, ao perceber que para além do rap funcionar como uma nova forma de protagonismo juvenil, afirmação de uma identidade cultural e de protesto, bem como um espaço por onde África estava a ser (re)descoberta, a cultura hip-hop proporcionava novas formas de socialização dos jovens.  

Se para muitos jovens africanos o rap funcionou como a voz de mudança e representação de um futuro de esperança e de unidade pan-africana, personagens como Mumia Abu-Jamal denuncia a sua utilização como uma espécie de soft power na propagação da ideologia e dominação modernista (norte-americana), assim como a exportação da misoginia e violência. Entendido como um fenómeno pós-colonial, apesar das críticas de Abu-Jamal, autores como Zine Magubane defendem que esse estilo musical tem fornecido aos jovens africanos uma poderosa ferramenta de crítica à modernidade ocidental, contribuindo para a sua indigenização. 

No caso cabo-verdiano, como escrevi aqui, o estudo do rap a partir da perspectiva de perto e de dentro e enquadrado naquilo que Jean-Marc Ela chama de "antropologia do próximo", proporciona evitar simultaneamente a reprodução do "complexo electra-claridoso" de que fala Aquilino Varela e do síndrome elitista de alguns intelectuais e investigadores cabo-verdianos, como também novas ferramentas analíticas de compreensão de uma parte da nova geração juvenil em processo de indigenização. Por outro lado, entender o fenómeno dos gangues de rua passa por tomar o gangsta rap como uma fonte etnográfica, situação esta, segundo John Hagedorn, completamente ignorada pelos criminologistas. 

30 e tal anos depois da apropriação do rap pelos jovens cabo-verdianos e de origem cabo-verdiana pelo mundo fora, nas ilhas, já surgiram versões nacionalizadas de Heavy D, 2 Pac, DMX, Gabriel O Pensador, Azagaia, entre outros. Entretanto, penso que nesta nova conjuntura sociopolítica muito se poderá ganhar a nível da maturidade democrática, caso venha a surgir uma espécie de versão cabo-verdiana da Keny Arkana.

Até lá, 13 rappers crioulos que estão a marcar a diferença do hip-hip dito "lusófono". Entre muitos outros cá nas ilhas que poderiam integrar esta lista, destaco Wolf Gang e Karaka, que pelo bem e pelo mal foram os dois maiores responsáveis na massificação do rap em Cabo Verde.  

[Na imagem "Repa" by Dudú Rodrigues, 2010. Do projecto PraiaPop: Tribus Urbanus]

22/07/2016

La rue nous appartient


Há erros que são humanos e desculpáveis mas há outros que são idiotices que ao se juntar doses duplas de arrogância transformam-se em autoritarismos bacocos. O que a história nos mostra é que até os tsunamis perdem força com o tempo e ocupações são políticas de rua úteis quando alguns sujeitos são colocados ante situações que violam o interesse colectivo. 


[Imagem apanhada na net]

03/07/2016

Cabo Verde e o "Trafficking in Persons Report 2016"

Em 2014, no âmbito do estudo sobre o abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes em Cabo Verde, chamamos a atenção para indícios da existência de tráfico humano em Cabo Verde para fins de exploração sexual na e a partir das ilhas de Santiago, São Vicente e Sal. 

Neste relatório (p. 116-117), Cabo Verde é colocado na lista dos países em observação e onde se encontram os países que não cumpriram os padrões mínimos no combate ao tráfico de pessoas, embora se reconheça alguns esforços em matéria de alterações no quadro legal. Em termos práticos, pouco ou nada foi feito. 

[Imagem sacada na net]

02/07/2016

"Monkey TNT Detonator"

Do disparate da criação da tal Agenda Anti-Cunha (da forma como foi criada) ao disparate da sua anulação (da não interiorização dos erros dos anos de 1990), o que fica é que para lá das politicas de despartidarização da Administração Pública, que mais se assemelha a políticas de des-paicvização e re-mpdização da mesma, as lógicas de compadrio e clientelismo que, em parte, explica a manutenção de alguns "surfistas do sistema" nos seus postos, ao que parece, ainda vigoram.

Concordando com a afirmação recente de um amigo, quem não se encontra nas listas do email ou do telefone dos novos donos do poleiro ou no dos seus seus amigos continuará segregado, o que coloca em dúvida o discurso cosmetizado da igualdade das oportunidades, méritos e afins, cimentando a ideia da reprodução de novos modelos de segregação das mesmas e, consequentemente, das desigualdades.

Com isto quero tão só dizer que percebo e concordo com o princípio mas descordo completamente com a condução da coisa. Contudo, devo também dizer que acho um must ouvir dos membros do gangue amarelo afirmações como "distribuição de tachos" e "bullying político"

21/06/2016

"Sociologia urbana, cidades globais e cidades pós-coloniais africanas" publicado amanhã pela RCVCJS

Amanhã, na Revista Cabo-Verdiana de Ciências Jurídicas e Sociais do ISCJS, será publicado o artigo intitulado "Sociologia urbana, cidades globais e cidades pós-coloniais africanas", onde abordo os principais contributos sociológicos no estudo das cidades ao longo da história e reflicto sobre a emergência do estudo pós-colonial das cidades africanas.  

[Na imagem cartaz do lançamento da Revista Cabo-Verdiana de Ciências Jurídicas e Sociais]

14/06/2016

Gaming and politics

Pois... fazemos de conta que não sabemos que o que está realmente em jogo é uma disputa pelo poder entre um grupo familiar e um grupo de pares do partido da situação, esta importante ferramenta de dominação social em Cabo Verde, e que um avanço como independente no contexto sócio-político actual é uma espécie de entrega de estafeta ao outro gangue político. Por isso, parem lá com esta palhaçada que fazemos de conta que não sabemos que os dois cliques partidários vão avançar juntos, que hoje o que realmente importa é esta posição do Vital Moeda.  

Adenda: e hoje a notícia que já se sabia desde a semana passada e tratar este processo como responsabilidade e inclusão ou é uma ignorância inocente ou uma ignorância engajada.      

09/06/2016

Sociedade de cunhas... parte II

Pouco mais de um ano depois de escrever esta posta, para lá da suposta descida da taxa do desemprego e do subemprego e afins em 2015, o que realmente me interessa são as informações relativas aos modos de procura de emprego em Cabo Verde. Dos inquiridos, 92,2% declararam ter solicitado directamente ao empregador e 80,8% responderam terem procurado junto de amigos, familiares, etc... (que também inclui, como é evidente, os partidos políticos). Apenas 12,3% conseguiram o emprego através de participação em concursos (ver aqui). A estatística, não obstante ser facilmente manipulável por motivos políticos etc e tal, é uma interessante ferramenta de análise para quem realmente a sabe ler de forma contextualizada... e então poderemos falar da ligação disto com aquela coisa a que chamo de segregação das oportunidades e do seu peso na reprodução das desigualdades sociais em Cabo Verde.

02/06/2016

Da série "thug life"

Vai e volta e a violência, criminalidade, delinquência e afins entra na agenda pública (ou nunca saiu). Do meu ponto de vista, continuamos aqui e embora queira acreditar que podemos caminhar para a aposta em políticas públicas inclusivas e participativas, pelo menos na Praia, o contexto social e urbano em construção poderá vir complicar ainda mais a coisa. Em 2011, quando falei pela primeira vez da geração Zé Pequeno e do financiamento público do armamento bélico dos grupos armados (aqui, aquiaqui, aqui e aqui) houve almas bem identificadas que falaram em invenção de objectos e de promoção de violência/delinquência. A questão que se põe é: porque é que não obstante a política de repressão iniciada em 2005 e a mudança de liderança nos grupos armados por via de prisões em massa, emigração e mortes, o "problema" da criminalidade urbana persiste? E vem se reconfigurando? Pois, para azar dos intelectuais folclóricos, que querendo furtar as suas capacidades natas de mau carácter projectam-na noutros, a resposta à questão carrega muitas balas nucleares e o biénio 2016/2017 promete... 

Por fim, uma comunicação de Agosto de 2013. Afinal, política também se faz a partir da academia, para desagrado dos muitos "cientistas puros".             

[Imagem sacada na net]

01/06/2016

As voltas que o mundo dá

A coisa agora é do tipo. O A Semana a brincar de ser o O Liberal e o O Liberal a brincar de ser o A Semana. Os membros do gangue amarelo apontando o dedo à ineficiência (eficiência há cerca de dois meses atrás) institucional e os membros do gangue verde preocupados com a célebre máxima dos custos para a imagem de Cabo Verde. 

[Na imagem Popeye by Roy Lichtenstein, 1961]

24/05/2016

Assembleia Nacional etc e tal

Há já algum tempo que não tinha visto ou ouvido as discussões na Assembleia Nacional. Achei piada e diria que o novo ciclo político parlamentar parece ter iniciado bem, o que não quer dizer que irei continuar a seguir. Logo se vê... das coisas ditas apetece fazer duas afirmações: 1) sobre os cargos de gestão da coisa pública necessário é varrer a casa caso contrário continuará tudo na mesma. Há Directores, Presidentes e afins há décadas no mesmo cargo sem qualquer resultado efectivo e gente colocada em lugares estranhos à sua formação que só lá estão por questões meramente partidárias ou de parentesco. 2) fala-se tanto de morosidade da justiça mas não se diz o essencial que tem entupido o sistema. O problema da incompetência e da preguiça de alguns agentes judiciais.   

[Na imagem Untitled (God/Law) by Jean-Michel Basquiat, 1981]

23/05/2016

Policy | politics

Nisto de chuvas de candidatos a candidatos às Câmaras Municipais, o que me interessa obviamente é a da minha cidade, Praia. Do PAICV não faço a mínima ideia quem possa vir a ser, embora já ouvi dizer que irá depender do nome que sair da escolha do MPD. Deste, entre um candidato com capital social negativo, um teimosamente teimoso e um com peso político (os restantes impostos pelo partido à sondagem não interessam a nada a esta posta), prefiro o último, entendendo ser este a mais valia de Agostinho Lopes. No entanto, o que eu preferir ou deixar de preferir não interessa a quem realmente deveria interessar, mas acho que seria um erro enorme os chefes verdes não partilhassem esta visão, visto que iriam sentir a médio-longo prazo este erro num contexto em que o costumeiro é pensar a curto prazo. 

O edil anterior teve a competência de embelezar a cidade e levantar o auto-estima dos seus habitantes, mas ambos sabemos que para se chegar ao tal desejado bem-estar e felicidade (nova moda no discurso político berdiano) é preciso aprofundar muito mais a coisa, o que uma suposta continuidade, por razões expressas acima, não irá alcançar (a não ser mudarem radicalmente o chip). Ainda mais quando a cidade capital está prestes a se transformar em uma gigantesca e luxuosa máquina de lavar dinheiro, com todos os desafios que esta transformação comportará (que obviamente ainda nem deram conta).

E isto leva-nos ao tema da moda, o da segurança. Antes de mais, penso que centrar a discussão na dimensão policial e/ou militar (aka repressão) é muito limitada. Conceptualmente, eu punha a coisa na dimensão da segurança humana, mas isso levaria-nos a outras discussões que muitos acham serem falsas questões. Nesta matéria, a visão do governo é clara: Política de Tolerância Zero (buscado no chamado Paradigma Criminal Inquisitório). Isto é, a continuidade daquilo que o PAICV vinha praticando desde 2005, com um saldo nulo (e aqui o discurso somos diferentes e fazemos diferentes não cola). Mas, sobre esta matéria irei debruçar num espaço melhor indicado. Sendo assim, resta então às Câmaras Municipais (e não só) o papel de complemento a esta política e é aqui que falta visão aos dois candidatos do mainstream partidário. 

Polícia Municipal. É esta a resposta camarária enquadrada na estratégia partidária em curso. A ideia até seria boa caso deixassem de lado o modelo português (que o brasileiro pior é ainda) da coisa, que nada tem a ver com a nossa realidade. Aliás, tal modelo apenas serviria caso a jurisdição da Polícia Municipal ficasse limitado ao Plateau. Mas lá está... importar modelos é o que realmente sabemos e é esta a visão dos dois primeiros candidatos a candidatos referidos. 

Desde pequeno ouço dizer que a cabeça foi feita para pensar... mas insistimos em não furtar a cultura do macaco e do papagaio.

21/05/2016

Straight Outta Lenfer dos Karaka

Há quem ache que a afirmação do rap cabo-verdiano passa pela presença constante nos circuitos dos festivais da música cabo-verdiana acompanhada de uma banda. Nada contra e ainda bem que assim é para alguns... no entanto, a meu ver, como mostram casos recentes, o que realmente esta situação representa é a afirmação de indivíduos particulares que perdem juntamente com as suas narrativas o estatuto de sujeitos. O que se tem tomado como a sua afirmação é simplesmente o seu reconhecimento em espaços de afirmação mainstream. Álbuns como Straight Outta Lenfer (baixar aqui), tal como muitos outros álbuns undergrounds de grupos activos no circuito da street provam de que o rap cabo-verdiano afirmou-se há já algum tempo.     

[Na imagem capa de Straight Outta Lenfer dos Karaka]

18/05/2016

Do optimismo trágico... parte III

A opção seria ter um projecto integrado, capaz de revitalizar a economia urbana, bem como criar melhores condições para a vida piscatória da cidade, sobretudo do bairro do Brasil, ou um projecto segregado (gentrificado), capaz de revitalizar a economia dos grupos que gravitam à volta do poder, assim como potenciar a chegada de organizações criminosas transnacionais. A opção seria, portanto, entre os projectos Marina e Hotel-Casino. O que se sabe é que o primeiro projecto levou um monumental "kasu-bodi" institucional, tendo o governo central em conluio com o local optado pelo segundo, simplesmente porque podem fazê-lo sem dar cavaco a ninguém.

Diz um dos membros da AJIC, suponho que o seu Presidente, já para lá de "jovem", que "tem havido um certo silêncio a respeito deste projecto, nomeadamente dos universitários, das ONG's, Igrejas, etc". Eu o que digo é que a desonestidade é um grande problema cabo-verdiano. Relembro esta, esta e esta posta, bem como esta sobre a ocupação do Djéu no ano passado. Em relação à promoção de discussões sobre o assunto, o DL de Agosto último é elucidativo. Com isto quero dizer que acho bem que se promova debates sobre este e outros temas candentes, mas não ignorando que o que tem matado a cidadania crítica colectiva nas ilhas é a desonestidade intelectual de uns e o "umbiguismo crioulo" de outros.  

Adenda: Debate sobre o assunto no Espaço Público da RCV em Fevereiro último.

[Na imagem Djéu da Praia. Foto de RWL, 2015]

11/05/2016

Ensino Superior e Pesquisa no ProGovIXLeg

O Programa de Governo da IX Legislatura está uma coisa muito sexy, sobretudo na parte do Ensino Superior e Promoção de Pesquisa. Escreveu-se ali, entre outras coisas, que se vai criar um Fundo Nacional de Apoio à Pesquisa e Regular (sem expedientes de "djobi pa ladu", já costumeiros por estas bandas) as Instituições do Ensino Superior de modo a garantir a qualidade. Até lá, em modo Do It Yourself que me é característico, irei continuar a dar aulas de forma precária como tem sido desde 2008 e financiar as minhas pesquisas e participações em (alguns) Congressos Internacionais através das consultorias (etc e tal) que a Máfia da coisa deixar escapar. De resto, para além da necessidade de se desbloquear e despartidarizar imediatamente a Uni-CV, uma releitura deste post faz-se útil.

[Na imagem Steve Jobs by Banksy]

05/05/2016

"Mi Tanbe N Krê"

Seguindo a moda do pós-20 de Março, intensificado nas últimas semanas, como não recebi telefonema de nenhum gabinete ministerial a oferecer um tacho, aproveito o tsunami de disponibilidades no seio do partido de momento para, igualmente, avançar a minha disponibilidade como candidato dos verdes à Presidência de uma Câmara Municipal qualquer do país, sob o lema "Mi Tanbe N Krê".  

[Imagem de Banksy]

28/04/2016

Nós, a histeria cibernética e as políticas de avestruz

É evidente que fazemos parte da sociedade global fast-food e histérica, com a particularidade de continuarmos teimosamente a acreditar na tese da sociedade de brandos costumes aka de "morabeza" e destinados a seguir políticas de avestruz. Não sei se este governo terá coragem de fazer as rupturas estruturais necessárias, que só vontade não chega. Lembro-me de ter escrito em 2013, no rescaldo dos acontecimentos de 2011, para um capítulo de um livro qualquer, que cerca de 20% dos presos na Cadeia Central da Praia passaram pelo serviço militar e que a maior preocupação da chefia policial, na altura, era lidar com agrupamentos associados a comportamentos delinquentes liderados ou tendo como membros ex-fuzileiros. Quando se vive numa situação sentimental que varia entre aspirações e frustrações, o mal-estar social e/ou individual provocado por este último, derivado da estrutura de oportunidades segregadas que continuamos a reproduzir, poderá transformar em algo explosivo. O que mediaticamente se vem chamando de "Massacre de Monte Tchota" tem muito a ver com isto, como tem a ver com o perigo dos resultados perversos da ideologia de Tolerância Zero e com o que de mau o bullyng militar (de colegas e, principalmente, de superiores) poderá provocar na estrutura mental de um jovem inserido numa sociedade culturalmente hipermasculinizada. Assim é nas Forças Armadas, bem como nas Forças Policiais... etc e tal.

Adenda: PR aceita demissão do Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.
      
[Imagem de Banksy]

15/04/2016

Da série "eu também quero ser homenageado e um tacho"

Na ora di bai, Zemas confessa que afinal não é o tal homem das impossibilidades. No entanto, vai ocupar o lugar na Universidade de Cabo Verde, que indirectamente ofereceu a si próprio. Sobre Tó, o Correia e Silva, há rumores que vai acampar para os lados da UNESCO, na cidade das luzes, depois de ter participado na tentativa de assassinato das Ciências Sociais e Humanas da terra, enquanto Ministro do Ensino Superior e das Ciências. Na hora das auto-homenagens, uns mais merecedores que outros, o ainda Primeiro-Ministro e ex-quase candidato a Presidente da República foi recentemente homenageado por uma ainda sua Instituição como o mondon que transformou a República numa espécie de quintal privado, não obstante o excelente primeiro mandato. 

[Na imagem Scull de Jean-Michel Basquiat, 1981]

12/04/2016

III Colóquio Doutoral

No estudo dos gangues, o mais importante não é procurar as diferenças entre eles mas as suas semelhanças. O mais importante é tomar os thugs como semelhantes aos seus cousins norte-americanos (sua referência inicial), cariocas (sua referência posterior) ou de qualquer outra cidade global do planeta e não como uma mera imitação destes. Colaboro da ideia dos actuais especialistas em gangues que para uma melhor compreensão do fenómeno com vista a uma intervenção mais eficiente, que contorne o discurso político militarizado suportado pela ideologia da Tolerância Zero, hoje também reproduzida nas nossas universidades, há que deslocar a análise das dimensões lei e ordem e/ou normas e valores (e os seus laivos eurocêntricos) para a análise da dimensão identitária. Igualmente, para além das fontes de informação etnográficas tradicionais, há que se tomar como fonte tanto o gangsta rap como o chamado rap consciente produzido nas ilhas. 

Na próxima semana, no III Colóquio Doutoral da Escola de Sociologia e Políticas Públicas do ISCTE-IUL, apresentarei a comunicação "Street fighters: jovens, processos identitários e gangues de rua na cidade da Praia", onde reflicto a pertinência do uso do conceito identidade social no estudo dos gangues em Cabo Verde, isto porque a importação e apropriação da identidade thug por parte dos seus membros evidencia produções de identidades simultaneamente de semelhança e diferença, assim como produções de pertenças assentes no antagonismo violento com outros grupos sociais baseados em bairros similares ou distintos.
  
[Na imagem gravação do vídeo Konsiensia dos Wolf Gang, 2014]

05/04/2016

Da série "os melhores em África e arredores"

Segundo dados do Institute for Criminal Policy Research, Cabo Verde é actualmente o país com a maior taxa de população prisional na sua sub-região e o quinto em África.

[Imagem apanhada na net]

04/04/2016

E se alguém lembrasse de inventar um The Cabo Verde Papers?


Logo de entrada são cerca de duas dezenas de empresas de lavagem de dinheiro com ligações a Cabo Verde. Uma investigação jornalística complementar por estas bandas, se houvesse jornalismo de investigação do tipo com capacidade de seguir o dinheiro, a começar pelo dinheiro de Dubai, se isso fosse feito, alcançava-se o mundo do narcotráfico, intimamente ligado aos outros tráficos, e obviamente, caso se continuasse a cavar, os nomes da malta dita do bem poderiam começar a surgir... mas lá está, são muitos ses. Por outro lado, que lindo seria se, numa escala menor, alguém lembrasse de inventar um The Cabo Verde Papers?  

[Imagem sacada na net]

25/03/2016

"come crawling faster / obey your master"

Master of Puppets, terceiro álbum dos Metallica, é o primeiro registo de metal a ser admitido na Biblioteca do Congresso dos EUA para preservação. Por cá, aberta a época de festa religiosa e de bajulação política, nada melhor que o refrão "come crawling faster / obey your master / your life burns faster / obey your master / Master" para abrir o fim-de-semana.  

[Na imagem capa de "Master of Puppets", 1986]

21/03/2016

Here we go... another day, another strike


Achei piada à intervenção hoje de manhã da jornalista da Lusa no SIC Notícias sobre as eleições de ontem. Não sei se foi frete mas penso que os resultados de ontem só surpreenderam os fanáticos e os que teimam em olhar a realidade do país da Corte ou através dos rankings internacionais feitos sem nenhum contacto com o terreno. Quem tem sofrido as consequências do capitalismo de compadrio, nepotismos e afins, consolidado nas ilhas nos últimos anos de boa governação tambarina, falou nas urnas. O som da mudança estava nas ruas para quem quisesse ouvir. Quanto a mim, adepto ferrenho da abstenção e do chamado voto útil, o dia seguinte é "here we go... another day, another strike". Ao espírito do Seek 'N' Strike dos Soulfly.

17/03/2016

"Subterraneament, Activ" de Victor Duarte

Quando se fala de um rap que toma em consideração tanto as estruturas como os sujeitos, fintando assim um movimento de (des)indigenização do rap em forja nas ilhas, vítima de uma violência simbólica sem precedentes, o nome de Victor Duarte surge naturalmente.

"Subterraneament, Activ", o seu novo trabalho, para baixar aqui. "2 Lod Da Mesma Moeda" para ouvir aqui.

[Na imagem capa de Subterraneament, Activ, 2016]

16/03/2016

Família, delinquência e reprodução da "barbaridade intelectual"

Em 2008, o Ministério da Justiça pagou por um pseudo-estudo sobre a delinquência juvenil em Cabo Verde para chegar à brilhante conclusão de que uma das causas principais da coisa seria a permanência nas ilhas da tal coisa da família desestruturada*. Sustentado por um ultraconservadorismo bacoco, considerou ainda que a união de facto é uma manifestação desta desestruturação. Hoje, através do canal You Tube da TV Record fico a saber pela boca de um destacado doutor malthusiano cá da praça que a solução para o combate à coisa passa pela sensibilização das mulheres muito pobres em como não devem ter filhos que normalmente vão-se transformar mais tarde em delinquentes. Neste último caso, gostaria de saber se a culpa da reprodução deste tipo de "barbaridade intelectual" é da jornalista que na ânsia de legitimar a reportagem legitima o discurso tonto deste tipo de doutores especialistas em ideias gerais ou se é deste doutor que não tendo a noção do ridículo transforma o nosso ouvido num contentor de lixo.

*De entre muitos outros trabalhos que desconstroem este argumento colonial e tosco, destaco os estudos de Lucia Oca González, Andreia Lobo e Filipe Martins & Celeste Fortes (aqui, aqui e aqui).  

Identidade e diferença

Por aquilo que vou lento e ouvindo a respeito do momento eleitoral que ora se atravessa, é coisa para dizer que a imbecilidade, momentaneamente (ou a confirmação de uma continuidade que só o pós-domingo próximo dirá), tomou conta desta nação dita global. 

O conceito identidade partidária (algo, que eu saiba, não trabalhado por estas bandas) poderia ser uma variável importante no entendimento do posicionamento de determinadas figuras no período eleitoral. Entretanto, penso que tal conceito seria ineficaz na explicação dos comportamentos Two-Faces, algo que vou aqui e ali descobrindo através desta coisa tramada que responde pelo nome de redes sociais. Uns quiçá pela defesa de cargos (ou de seus próximos), outros quiçá por um desejo de aceder a cargos (ou de seus próximos). Nada contra, que cada um é livre de escolher e fazer o que bem entender, desde que fique por essa escolha e evite desqualificar o outro. Quanto a isto, nada mais eficaz de que ler a dinâmica desse nosso espaço social global relacionando os conceitos identidade e diferença. Afinal, somos uma sociedade de plantações.

O melhor, aproveitando que nos aproximamos de Abril, mês do rock, pelo menos na Praia, é relembrar "Minimu na Panela" de Sana Pepper, o homenageado do Grito Rock Praia 2016 (noticiado pelo Feedback). Este sim, uma figura autêntica...

Adenda: na maneira como eu vejo as coisas, isto de seguir a líder (a pessoa) é meio caminho acelerado para o totalitarismo. Ainda mais quando a pessoa identificada como líder apresenta tiques ditatoriais.  

[Na imagem Two-Faces, Batman Arkham Knight (PS4), 2015]

09/03/2016

Da série "quem reduz menos o desemprego juvenil"

Como tínhamos apontado neste artigo, a comparação dos dados de desemprego na Praia nos anos de 2012 e 2013, que aumentou 5,6%, quando relacionado com o material de campo que serviu de base da escrita do mesmo, leva a supor que o contexto eleitoral poderá criar oportunidades laborais sazonais aos jovens. Isto porque os 37,8% de subempregados contabilizados pelo INE em 2013 quando somado à dificuldade no acesso às oportunidades laborais abre possibilidades ao recrutamento partidário dos jovens durante as eleições. A este fenómeno, que se enquadra num fenómeno maior, chamamos de "mercenarismo juvenil". Isto para dizer que, tendo em conta a forma como o INE calcula a taxa de emprego, com certeza que, pelo menos este ano, o desemprego, sobretudo o juvenil, irá diminuir. 

Ontem, conhecido como dia internacional da mulher, Praia acordou com as suas principais rotundas invadidas por jovens e menos jovens (des)empregados a saudar as mulheres da capital. Era tudo vermelho. Hoje, hora do almoço, as principais rotundas da capital findaram a manhã com o amarelo da Janira, a mulher stribilin e bodona. É o que diziam os cartazes ao lado da foto da líder paicvista. Achei piada três coisas: 1) a pessoalização de uma eleição para compor os assentos da assembleia nacional (o mesmo faz o MPD); 2) a tentativa forçada de apresentar a ex-ministra de várias pastas governamentais como o protótipo da mulher cabo-verdiana; 3) a utilização de atributos nativos machistas para designar uma mulher que se quer vender como a the best de entre o universo dos humanos.