29/09/2015

Os novíssimos condenados da terra

Em todas as partes onde existem bairros ditos clandestinos habitados maioritariamente por migrantes, a sua população é estigmatizada e culpabilizada pelo todo o mal que ali acontece. Nas ilhas turísticas cabo-verdianas, o tráfico de droga, a prostituição e a exploração sexual infanto-juvenil, a gravidez na adolescência, o aumento da criminalidade, as doenças sexualmente transmissiveis e a higiene pública são problemas sociais que dizem ter surgido por causa dos "de fora", mais concretamente "badios", guineenses, senegaleses e nigerianos. Na Praia, antes dos deportados e da cena thug, os folk devils eram nigerianos. No entanto, é interessante notar que nestas ilhas, estas questões são costumeiramente dissociadas dos estrangeiros de origem europeia que gerem negócios obscuros, do banditismo político-partidário dos caciques locais e da extorsão institucional, sobretudo a policial.

[Na imagem Bairro da Barraca, Sal Rei, Boa Vista. Foto de RWL]

24/09/2015

Representar Zona Ponta, Praia, Cabo Verde

Publicado no Brasil, na obra colectiva sobre expressões artísticas urbanas organizado por Lígia Ferro, Otávio Raposo e Renata de Sá Gonçalves, o artigo Lógicas de desafiar a mudança nas "periferias" do espaço urbano em (i)mobilização: representar Zona Ponta, Praia, Cabo Verde, na sequência da minha participação no V Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, em Vila Real, Portugal, em 2013, onde apresentei uma comunicação intitulada Rap Kriol(u) e a pesquisa etnogáfica: lógicas de desafiar a mudança no espaço urbano em (i)mobilização. A partir das narrativas de Pex e Hélio Batalha, rappers de Ponta D'Água, pretendi, por um lado, analisar a emergência de um movimento contestatário na cidade da Praia e, por outro, através dà pesquisa etnográfica, alargar o marco compreensivo das realidades subalternas ignoradas nas ciências sociais cabo-verdianas e no sistema político instituído.

Descrição do livro aqui

[Na imagem capa da obra colectiva]

20/09/2015

Da ilusão do saber

Escreve Jean-Marc Ela que seria perigoso erguer um muro de silêncio em torno de intelectuais como Cheikh Anta Diop (ou de muitos outros intelectuais africanos), o que, naturalmente, é de esperar que aconteça nos meios que pensam ter chegado aos Himalaias do saber não tendo, por isso, nada mais a aprender com os contributos africanos. Infelizmente, nós por cá, (re)criamos meios destes, onde seres pensantes através da cabeça dos outros a sofrer do Efeito Dunning-Kruger vomitam analiticamente oceanos de nada.

[Na imagem La tête dans les étoiles by Oakoak, 2015]

13/09/2015

Da desorientação política ou uma forma subtil de reconhecer o fracasso político

Diz o Primeiro-Ministro, Doutor Honoris Causa, que "em Cabo Verde [..] tudo é partidarizado e estatizado, o que condiciona sobremaneira o desempenho individual e da administração pública e as relações entre o Estado, a sociedade civil e os cidadãos". Obviamente já existe um conjunto de trabalhos nas áreas da sociologia, ciência política e relações internacionais a denunciar esta situação, mas que por ter sido realizado por pesquisadores nacionais fora dos expedientes partidários e institucionais, não tem sido levado em conta. Contudo, quando se ouve os desabafos tardios do Primeiro-Ministro, complementados pelo novel discurso da Presidente do PAICV, o que fica é que a tão premiada boa governação foi na realidade uma má governação mais ou menos bem cosmetizada. 
        
[Na imagem Dhaslim by Oakoak, 2014]

09/09/2015

Sobre as Petra's crioulas e o neonativismo bacoco

Derek Pardue, antropólogo norte-americano e estudioso do rap crioulo radicado em Lisboa, afirmou no XII Conlab, que rappers como LBC ou Chullage representam a versão contemporânea da geração conhecida como Claridosos. Obviamente a comparação nada tem a ver com o conteúdo das ideias defendidas mas com a autonomia intelectual alcançada num contexto de contingências. 

Pensando no rap cabo-verdiano, o rap que se produz nas ilhas, o mais perto que podemos chegar (salvo algumas excepções) é a uma espécie de neonativismo bacoco que de vez em quanto é salvo por uma ou outra narrativa como o caso deste Mundo Frio de Pex, em parceria com DoggSon. 

De outro lado, temos as nossas Petra's László's, especialistas em ideias gerais e infectadas pela miopia analítica. Estas, pseudo-estrelas de uma pequena franja do universo facebook, caso despissem as teorias infra-facistas, pisassem um pouco mais o campo de confrontação empírica e pensassem pelas próprias cabeças, do teclado saía menos disparates. Em comparação às Petra's crioulas, os tais rappers neonativistas passam num ápice de bacocos a intelectuais. 

[Imagem]