03/04/2015

"Povu na Poder" by Hélio Batalha

No prelo encontra-se um artigo meu sobre as lógicas de desafiar a mudança a partir das "periferias", numa sociedade em (i)mobilização, em que a partir dos rappers da Zona Ponta (Ponta D'Água), mais precisamente Pex e Hélio Batalha, busco reflectir sobre a infrapolítica e os discursos ocultos (James Scott), as linguagens subalternas (Jean-Marc Ela), as continuidades coloniais (Achille Mbembe e Odair Barros Varela), a cultura política (Leão de Pina) e a letargia da sociedade civil (Suzano Costa).

Ouvi "Povu na Poder" (inspirada em "Povo no Poder" de Azagaia) pela primeira vez no lançamento do livro sobre o hip-hop brasileiro (Andreia Moassab), em Jeneiro último, no espaço "Triseru Mundu", em Lém Cachorro, e uma segunda vez, no dia 28 de Março, na Livraria Pedro Cardoso, numa conversa à volta da cultura hip-hop em Cabo Vede. Tal como já escrevi noutros espaços, o rap cabo-verdiano tem-se constituido nos últimos tempos como uma voz subalterna e um discurso oculto de uma boa parte de jovens e a história tem indicado que esse tipo de discurso quando assumido pela população no espaço público poderá desencadear-se em protestos de massa. Ver o caso moçambicano em 2010, na chamada Revolta do Pão.

Se, por um lado, a tentativa forçada de encostar o protesto de 30 de Março a uma facção do PAICV reforça a tese de partidarização da sociedade cabo-verdiana, por outro, percebé-lo como uma continuidade de acções de determinados agrupamentos juvenis em alguns bairros da Praia, mobilizando aquilo que Ulrich Beck chamou de subpolítica, para lá de mostrar um total desconhecimento empírico do quotidiano juvenil nos "bairros", evidencia um conhecimento teórico muito básico em matéria do estudo das juventude(s) e das recentes formas de protesto em África.

[Na imagem capa do single Povu na Poder de Hélio Batalha].