06/04/2015

De 7 de Outubro de 2011 a 30 de Março de 2015

Existe por aqui uma espécie de política de esquecimento, sobretudo no sector da comunicação social (e dos analistas de plantão). Para lá do mérito da MAC#114 no chamamento para este último protesto e da tentativa de partidarização do mesmo (que nas ruas estiveram pessoas de vários quandrantes sociais e ideológicos), convém não esquecer que em Outubro de 2011, um grupo de jovens sem cara conseguiu colocar nas ruas da Praia cerca de 2000 pessoas a protestar contra a má gestão da crise energética no país. Nem a Associação Pró-Praia conseguiu tanto. É verdade que o sucesso do mesmo deveu-se, em parte, à luta interna no PAICV, fazendo com que o defunto Movimento de Cidadania, criado no interior do partido amarelo, tivesse aderido em massa. Como na altura o visado era o Governo liderado por Zemas, ninguém no MPD piou sobre uma suposta influência dessa ala amarela. A comunicação social estava mais interessada no que acontecia lá para as bandas dos Ocuppy e Indignados (já que o visado era o papai), e o A Semana conseguiu encontrar na parada à frente da casa do Primeiro-Ministro um grupo de "thugs" armados. 

O problema da falta de luz pouco-a-pouco foi melhorando, embora teve novo surto algures em 2014, mas Humberto Brito continuou a desgovernar o seu ministério. Um ano mais tarde, no bairro de Tira Chapéu, a Associação Quilombo protestou contra a construção daquilo que chamaram de "Casa Para Alguns", tendo José Maria Neves afirmado ter ficado bastante satisfeito com o protesto juvenil. Recebeu a malta de Tira Chapéu no seu gabinete, prometeu entregar o espaço do rés-de-chão do edifício às associações comunitárias para fins sociais e como só Zemas sabe fazer, deu o dito pelo não dito pouco tempo depois. 

Se o primeiro protesto não foi partidarizado, embora a questão partidária tivesse peso no seu sucesso momentâneo, o segundo foi completamente partidarizado, na medida em que os jovens foram acusados pelos simpatizantes e militantes do PAICV como estando a mando do MPD, embora, posteriormente, por terem posicionado contra uma decisão camarária, foram automaticamente associados ao PAICV. O primeiro foi espontâneo, coisas típicas do facebook, mas o segundo foi premeditado, embora na última hora houve uma espécie de traição de "pé de galos" de outras comunidades. Faltou em ambos um projecto (ou uma agenda). 

De 2011 para cá (para não irmos mais atrás) tem havido vários protestos, de todos os tipos, um pouco por todo o lado, e de facto, no dia 30 de Março houve vários colectivos espontâneos que aderiram à coisa. Pessoalmente identifiquei, além da MAC, uns sete e o seu sucesso momentâneo (que espera-se continuar) deve-se a três momentos indissosiáveis: a incapacidade da classe política em fazer uma leitura diacrónica do descontentamento popular em relação à sua má prestação, que culminou no gatilho por ela accionada com a aprovação da coisa; que levou a que os discursos ocultos dos cidadãos transformassem em discursos públicos; por sua vez favorecidos, de novo, pela conjuntura política no PAICV. 

Logo no dia 27, houve um pequeno ensaio, que embora veio a se saber depois que foi mobilizado pelo JPAI, a maioria que lá apareceu, fê-lo por convicção política e não partidária, tendo inclusive vaiado a chefe do partido (avaliada negativamente pelos dados do Afrobarometer, embora isto tenha escapado à comunicação social, bem como aos analistas de plantão), para descontentamento dos seus seguidores. Ficou claro nesse dia que a mobilização do dia 30 de Março promovida pela MAC só não teria impacto caso fosse declarado Estado de Sítio. Contudo, nem os mais optimistas estariam à espera de cerca de cinco mil pessoas nas ruas, em simultâneo, nas quatro maiores cidades do país (seguidos posteriormente pela população da Boa Vista e Fogo). A UNTCS-CS até conseguiu isso no ano passado, mas interferências partidárias (ou pressões) fez com que as duas maiores organizações sindicais do país tivessem desmobilizado os trabalhadores.