02/02/2015

Reflexões avulsas (do XII Conlab)

Na Mesa Redonda de abertura do XII Conlab, entre outras coisas, Boaventura de Sousa Santos tocou num ponto crucial: a investigação social africana continua a ser produzida na sua esmagadora maioria em centros de investigação do Norte (Brasil incluído), por investigadores não africanos (ou africanistas). Para lá das conspirações europeistas, que segundo Achille Mbembe é marca característica do discurso nacionalista pós-colonial, reproduzido também pela nossa juventude, essa ausência, olhando para Cabo Verde, poderá ser igualmente pensada a partir do vazio em matéria de políticas de incentivo à produção académica, não obstante a proliferação do ensino superior.

Neste artigo de opinião (p. 22-23), Luca Bussotti, reflectindo sobre o caso moçambicano, toca em alguns pontos essenciais que bem servem para retratar o nosso caso. Lá como cá, a produção académica dos investigadores termina, na prática e salvo raríssimas excepções (para ser mui optimista), com a defesa do doutoramento (ou mestrado). Não existem centros de investigação dignos desse nome (e há os iluminados que confundem centros de investigação com agências de consultorias) e as universidades, lá como cá, não elaboraram mecanismos capazes de fomentar produção científica dos seus docentes, apesar dos discursos cheios de nada em momentos institucionais solenes. Não existem fundos para participar em congressos internacionais (onde surgem várias oportunidades de pesquisas transnacionais) ou, como aponta Bussotti, nos contratos dos docentes não existem cláusulas que os obriga a publicar pelo menos um artigo científico por ano. Contudo, em alguns casos, exige-se no contrato que o docente identifique a instituição a que pertence em encontros e publicações, embora depois não se tenha o interesse ou a competência em capitalizar essas participações...

Nesta comunicação, que em parte acabou por consolidar um mal-estar institucional, ou neste artigo de opinião, publicado no início de 2014, exponho friamente estas questões.

[Na imagem Mesa Redonda de abertura do Congresso no Auditório da Reitoria da UNL]