15/02/2015

Da série "muda o disco e toca o mesmo"

O pacote repressivo preparado pelo governo, em que se destacam o aumento das penas para crimes violentos e uma lei anti-gangue, em resposta ao atentado à vida do filho do primeiro-ministro (que é de facto esse o principal motivo da coisa), em Dezembro último, lembrou-me dois artigos no prelo para 2015. Uma escrita em 2011, cobrindo o biénio 2008-09, no âmbito do projecto intitulado "Mídia, direitos humanos e a (des)construção da opinião pública: uma análise comparada da cobertura dos meios de comunicação social sobre questões de direitos humanos nos PALOP", financiado pelo CODESRIA, e uma outra escrita em 2013 e apresentado no ECAS desse mesmo ano, cobrindo o triênio 2010-12, intitulado "The written press and the coverage of conflicts between gangs in Cape Verde". 

Pacotes repressivos existem desde 2005, e a polícia anti-gangue, criado sem a lei anti-gangue, está nas ruas desde 2007. Antes, em 2005, como resposta à primeira vaga deste novo tipo de criminalidade urbana foi criado o Piquete e a Polícia Militar em 2008 voltou pela segunda vez às ruas, desde a abertura democrática. Os "Ninjas", polícias especiais, têm feito strip tease nas ruas do Mindelo (e a BAC tem feito stripe tease auto na Praia) desde 2012. Neste mesmo ano foi criado a "Guarda Nacional", unidade especial militar, visando combater a criminalidade urbana e é de realçar a criação das unidades de passeio de cães anti-droga e anti-motim e das duas rodas com arma de guerra em punho com quem diariamente cruzamos pelas ruas da Praia city... e há os colegas de gabinete que acham um exagero a mobilização do conceito "novíssimas guerras"...

Em matéria de segurança interna, do combate ao crime organizado e afins, a meu ver, o que falta é um real investimento em políticas sociais, combate à segregação das oportunidades, sobretudo dos jovens, e medidas efectivas de repúdio ao crime organizado de colarinho branco. Se estamos hoje nesta situação, para além da lógica de reprodução do "alpinismo social" por parte de pessoas ditas de bem, que fazem dos partidos políticos ferramentas de auto-promoção social e grupal, a promoção da mediocridade institucional e a incapacidade (opcional?) de respostas pós-medidas repressivas são os principais motivos.  

Adenda: a malta gasta milhares de contos anualmente a promover encontros institucionais e tudo fica entre as quatro paredes. Lembro-me do ano passado, num desses encontros, um descendente de cabo-verdianos nos States ter recomendado a utilização dos bens apreendidos à economia do crime no tratamento da toxicodependência e demais causas sociais. Entretanto, vejo diariamente automóveis topo de gama a circular "xiqui si" com a insígnia da Polícia Nacional, suportado pelo nosso imposto, e espaços como Granja, Tenda El Shaddai e uma série de instituições de cariz social com dificuldades gritantes.    

[Na imagem cartaz da fracassada campanha de entrega de armas da MAI, 2014]