28/02/2015

Da série "vídeos que nunca irão passar na TCV"

Escrevi algures que existe um tipo de rap cabo-verdiano simbolizando a fala do subalterno e representando o "mundo de baixo", expressão de uma nova forma de protesto juvenil oculto a que Jean-Marc Ela apelou para que os pesquisadores africanos estivessem atentos. A nova narrativa dos Vice City enquadra-se neste tipo de rap, de cariz pós-colonial, em que através da crítica ao legado colonial (re)constroi-se uma identidade contestatária contra aquilo a que Samir Amin chamou de farsa democrática.

"Indiferença" é resultado de mais um trabalho colaborativo com o gangsta rap (revolutionary gangsta rap) praiense.

[Imagem de Dudu Rodrigues, 2008]

23/02/2015

O Estado, o crime e nós, o Zé povinho

Na Assembleia Nacional discute-se segurança e Zemas fala de episódios de violência em Cabo Verde. O que me preocupa realmente num dia como hoje é a confirmação de um ladrão de electricidade (baseado numa notícia do Expresso das Ilhas nunca desmentida) à frente do INPS. O tal instituto especialista em conluir com instituições gangsters lideradas por gente de bem, que se calhar ontem até assistiram a missa do nosso Cardeal, para roubarem o trabalhador comum... pronto já disse.

[Na imagem Expresso das Ilhas, Julho 2008]

21/02/2015

15/02/2015

Da série "muda o disco e toca o mesmo"

O pacote repressivo preparado pelo governo, em que se destacam o aumento das penas para crimes violentos e uma lei anti-gangue, em resposta ao atentado à vida do filho do primeiro-ministro (que é de facto esse o principal motivo da coisa), em Dezembro último, lembrou-me dois artigos no prelo para 2015. Uma escrita em 2011, cobrindo o biénio 2008-09, no âmbito do projecto intitulado "Mídia, direitos humanos e a (des)construção da opinião pública: uma análise comparada da cobertura dos meios de comunicação social sobre questões de direitos humanos nos PALOP", financiado pelo CODESRIA, e uma outra escrita em 2013 e apresentado no ECAS desse mesmo ano, cobrindo o triênio 2010-12, intitulado "The written press and the coverage of conflicts between gangs in Cape Verde". 

Pacotes repressivos existem desde 2005, e a polícia anti-gangue, criado sem a lei anti-gangue, está nas ruas desde 2007. Antes, em 2005, como resposta à primeira vaga deste novo tipo de criminalidade urbana foi criado o Piquete e a Polícia Militar em 2008 voltou pela segunda vez às ruas, desde a abertura democrática. Os "Ninjas", polícias especiais, têm feito strip tease nas ruas do Mindelo (e a BAC tem feito stripe tease auto na Praia) desde 2012. Neste mesmo ano foi criado a "Guarda Nacional", unidade especial militar, visando combater a criminalidade urbana e é de realçar a criação das unidades de passeio de cães anti-droga e anti-motim e das duas rodas com arma de guerra em punho com quem diariamente cruzamos pelas ruas da Praia city... e há os colegas de gabinete que acham um exagero a mobilização do conceito "novíssimas guerras"...

Em matéria de segurança interna, do combate ao crime organizado e afins, a meu ver, o que falta é um real investimento em políticas sociais, combate à segregação das oportunidades, sobretudo dos jovens, e medidas efectivas de repúdio ao crime organizado de colarinho branco. Se estamos hoje nesta situação, para além da lógica de reprodução do "alpinismo social" por parte de pessoas ditas de bem, que fazem dos partidos políticos ferramentas de auto-promoção social e grupal, a promoção da mediocridade institucional e a incapacidade (opcional?) de respostas pós-medidas repressivas são os principais motivos.  

Adenda: a malta gasta milhares de contos anualmente a promover encontros institucionais e tudo fica entre as quatro paredes. Lembro-me do ano passado, num desses encontros, um descendente de cabo-verdianos nos States ter recomendado a utilização dos bens apreendidos à economia do crime no tratamento da toxicodependência e demais causas sociais. Entretanto, vejo diariamente automóveis topo de gama a circular "xiqui si" com a insígnia da Polícia Nacional, suportado pelo nosso imposto, e espaços como Granja, Tenda El Shaddai e uma série de instituições de cariz social com dificuldades gritantes.    

[Na imagem cartaz da fracassada campanha de entrega de armas da MAI, 2014]

13/02/2015

Da violência do Estado no espaço público

Curiosamente, três dias antes do caso Kova M conversava com Kromo e Fredy, na cantina da FCSH-UNL, nos bastidores do XII Conlab, sobre a violência policial contra os negros nos EUA e Europa, Portugal incluído, e sobre o facto de não se falar muito publicamente da brutalidade policial em Cabo Verde (que nas percepçções de LBC e Hezbo MC é fisicamente ainda pior do que em Portugal)... e cinco dias antes, com Mamadou Ba e LBC, algures pelas bandas do Intendente, a preocupação centrava-se na violência do Estado no espaço público, mais precisamente nos casos do cerco aos bairros "etnizados" e violência policial racista nas periferias de Lisboa. Ferguson e Kova M são situações locais que espelham um problema global. Por estas bandas, já é momento de começarmos a reflectir em conjunto e de forma despartidarizada a questão da violência do Estado no espaço público, em que a brutalidade policial é apenas uma de suas várias dimensões.

[Na imagem cartaz do debate comunitário na Kova M]

06/02/2015

Quem invadiu quem e porquê?

Em 2005 inventou-se o arrastão de Carcavelos. A nova narrativa policial, ampliada pela Mídia, é a da invasão da esquadra da PSP de Alfragide por cinco jovens negros (portugueses e cabo-verdianos), um deles deficiente. Não sei se o objectivo é criar uma espécie de Charles Hebdo luso, fazendo com que a negrofobia se instale numa sociedade em que o racismo encontra-se institucionalizado. Tenho para mim que uma instituição que tem como agentes enurgúmenos ostentando símbolos nazis, que diariamente provocam jovens negros residentes nos "espaços ultramarinos internos", não devem ser levados a sério (e com isso não quero dizer que os jovens dos bairros são todos uns santinhos). Toda a narrativa é falsa e insustentada e fica por explicar como é que um jovem deficiente desarmado invade uma esquadra cheia de pittbulls fardados. A questão deveria ser posta da seguinte forma: quem invadiu quem e porquê? 

Daquilo que se sabe, a PSP de Alfragide, como é costume, entrou Kova M ontem à tarde, numa operação de rotina, tendo detido um jovem, prontamente agredido no local. Mediante os protestos dos moradores perante mais essa actuação desastrosa, responderam a tiro, acertando com três tiros de caçadeira uma moradora do bairro. Ya, as balas eram de borracha... e como é também rotina quando alguém do bairro é conduzido à esquadra, sobretudo em situações do tipo, funcionários da Associação Moínho da Juventude ali se deslocarem com o objetivo de prestarem algum tipo de apoio. Desta vez, foram a vez de LBC e Kromo, monitores do Moínho, acompanhados por mais três amigos. O objectivo era prestar queixa contra mais esta desastrosa actuação policial no bairro. Foram detidos, espancados e Kromo foi baleado à queima roupa (primeiras imagens dos detidos). Impressionante é o número de jovens negros espancados nas esquadras da PSP de Lisboa, sobretudo na linha Amadora-Sintra. Sem falar dos jovens negros assassinados pela polícia (documentário da PG sobre a violência policial e racismo em Portugal). Os cinco continuam arbitrariamente detidos e ainda não foram ouvidos. Talvez amanhã ou só segunda... 

Na terra dizem que somos uma Nação Global. Se somos mesmo isso, estão estes problemas são também nossos. Os imigrantes cabo-verdianos espalhados pelo mundo não podem continuar a ser olhados apenas como eleitores e "mandadoris di dinheru pa tera". Nem sequer faz seis meses que a ministra da questão juvenil e afins, nova chefe do partido amarelo, esteve na Kova M caçando votos. Visitou o Moínho... mas também é verdade que não se pode esperar grande coisa de um Governo que ignorou o terrorismo contra o bairro da Santa Filomena, colocando-se ao lado dos agressores e pior, ignora e violenta os cabo-verdianos, sobretudo os jovens, na sua própria terra. Onde estão os Charlie Hebdo de Janeiro? E os Mídias da terra? Os activistas crioulos, sobretudo o pessoal ligado ao rap, têm de começar a perceber que esses problemas são globais e lutar contra eles só é possível ultrapassando o quintal mental de cada um. O lema Unidade e Luta que tanto se apregoa só faz sentido quando pensado de forma global ou então não se percebeu nada da teoria cabralista. De facto a luta tem de continuar...

Adenda: amanhã serão apresentados ao Juiz no Tribunal de Sintra (Portela de Sintra) pelas 9h00.

[Imagem de autor desconhecido]

05/02/2015

Kromo e LBC detidos, espancados e baleados pela PSP

Na segunda-feira última, Derek Pardue falava no XII Conlab do lugar contemporâneo dos negros portugueses (ou dos imigrantes descendentes de cabo-verdianos) em Portugal, da continuidade colonial da sua condição social... Kromo e LBC, entre outros, foram um dos exemplos apontados enquanto jovens que lutam para a afirmação dos negros em Portugal e nas palavras de Pardue, a geração que substitui com o rap a escrita dos Claridosos. Guetto Aljazeera é sintomático e mostra que o problema é global. Na terça-feira, também no XII Conlab, Kromo apresentou de forma soberba um trabalho colaborativo com Susana Sardo, da Universidade de Aveiro, sobre a construção de lugares da memória nas músicas da Cova da Moura (Kova M). Ambos são activistas da Plataforma Gueto, movimento social negro português que luta para a melhoria das condições de vida da população oprimida na sociedade pós-colonial portuguesa.

Um polícia foi ferido e uma carrinha danificada é o lead da noticia televisiva do Correio da Manhã (CdM). O que o jornalismo racista do CdM não fala é que os moradores da Kova M foram à esquadra devido ao histórico assassino da PSP em relação aos negros (relembrar Kuko e Musso). Kromo e LbC são um dos cinco jovens detidos arbitrariamente sobre a acusação de invasão de esquadra e os procedimentos normais da polícia em situações do tipo que fala o jornalista do CdM é o espancamento dos detidos e o facto de Kromo ter sido baleado na perna. De momento encontra-se na sala de operação do Hospital Amadora-Sintra e LBC, fisicamente maltratado, encontra-se no mesmo hospital a receber tratamento depois de espancado pelos delinquentes de farda. 

O que vale é que Tudu Pobri É Un Soldjah e que contra o negrofobia portuguesa o punho fica sempre em cima. Afinal Nós Ki Nasi Omi Ki ta Mori Omi e Si Ka Ten Justisa Ka Ten Paz.

Adenda: a versão da Kova M no Público.

[Imagem]

03/02/2015

Reflexões avulsas (do XII Conlab), cap. 2

No V Congresso da APA, em 2013, Miguel Vale de Almeida chamava a atenção dos pesquisadores para a necessidade de serem politicamente mais activos. Neste do AICSHLP, Boaventura Sousa Santos chama a atenção para a necessidade de uma maior intervenção pública do pesquisador. Se para o primeiro essa participação activa deverá ser na oposição partidária, para o segundo é articulado com os movimentos sociais. Para lá dos discursos académicos politicamente engajados, sobretudo no contexto actualmente vivido, infelizmente a tendência desses grandes encontros científicos tem sido a sua mercantilização orientada pela lógica do capitalismo académico.

02/02/2015

Reflexões avulsas (do XII Conlab)

Na Mesa Redonda de abertura do XII Conlab, entre outras coisas, Boaventura de Sousa Santos tocou num ponto crucial: a investigação social africana continua a ser produzida na sua esmagadora maioria em centros de investigação do Norte (Brasil incluído), por investigadores não africanos (ou africanistas). Para lá das conspirações europeistas, que segundo Achille Mbembe é marca característica do discurso nacionalista pós-colonial, reproduzido também pela nossa juventude, essa ausência, olhando para Cabo Verde, poderá ser igualmente pensada a partir do vazio em matéria de políticas de incentivo à produção académica, não obstante a proliferação do ensino superior.

Neste artigo de opinião (p. 22-23), Luca Bussotti, reflectindo sobre o caso moçambicano, toca em alguns pontos essenciais que bem servem para retratar o nosso caso. Lá como cá, a produção académica dos investigadores termina, na prática e salvo raríssimas excepções (para ser mui optimista), com a defesa do doutoramento (ou mestrado). Não existem centros de investigação dignos desse nome (e há os iluminados que confundem centros de investigação com agências de consultorias) e as universidades, lá como cá, não elaboraram mecanismos capazes de fomentar produção científica dos seus docentes, apesar dos discursos cheios de nada em momentos institucionais solenes. Não existem fundos para participar em congressos internacionais (onde surgem várias oportunidades de pesquisas transnacionais) ou, como aponta Bussotti, nos contratos dos docentes não existem cláusulas que os obriga a publicar pelo menos um artigo científico por ano. Contudo, em alguns casos, exige-se no contrato que o docente identifique a instituição a que pertence em encontros e publicações, embora depois não se tenha o interesse ou a competência em capitalizar essas participações...

Nesta comunicação, que em parte acabou por consolidar um mal-estar institucional, ou neste artigo de opinião, publicado no início de 2014, exponho friamente estas questões.

[Na imagem Mesa Redonda de abertura do Congresso no Auditório da Reitoria da UNL]