14/01/2015

Liberdades, democracias e afins

Em Março de 2004 estava em Génova, três anos depois da Batalha de Génova. Os Soulfly tinham acabado de lançar Prophecy, o seu quarto álbum. O vídeo musical do single com o mesmo nome, gravado em 2003, tocava sem parar nos programas musicais da televisão italiana. Max Cavalera tinha levado para os Soulfly o espírito dos Sepultura. Prophecy, a primeira faixa do álbum, falava de uma suposta guerra tribal no milénio que acabara de entrar. 

Os últimos acontecimentos em Paris e Baga não tiram mérito à profecia de Cavalera, apenas a reconfigura. No entanto, acrescentam uma dimensão bélica à tese de Manuel Castells (ou Alain Touraine). A politização do sagrado leva indivíduos (irmãos Kouachi) e grupos (Boko Haram) a desconstruirem-se como sujeitos, tal como fizeram os Charlie desse mundo, incluindo os nossos. Tal como o Outro Perspectivado, a apropriação da identidade Charlie pode ser percebida como uma reprodução da cultura do macaco e do papagaio ou como um processo de fechamento dentro do que é conhecido contra a imprevisibilidade do desconhecido e do incontrolável. 

África é desconhecida e a política de desconhecimento (promovida pelos vários Charlie de ocasião) caracteriza-se, entre outros aspectos, por aquilo que Achille Mbembe chamou de "práticas de ocultação e negação". São as tais continuidades que reproduzimos inconscientemente (ou não), sendo nós, cabo-verdianos, imbuídos do imaginário ocidental de ver o nosso continente, ao ponto da nossa intelligentsia ver no intelectual africano um africanista.        

Quando parte de um povo encontra-se mentalmente escravizado, patenteado na esquizofrenia identitária que nos é característico, falar de liberdades e democracias, ainda mais num contexto de reprodução de uma política de ignorância, de uma missão civilizadora transvestido de voluntariado e de uma espécie de política de bondade protagonizada pelo neo-morgadismo "governamentalizado", soa-me estranho.

[Na imagem contracapa de Prophecy, 2004]