23/01/2015

XII Conlab, Fevereiro 2015, Lisboa

Cabo Verde País de Mentira (2011) e Muvimentu Coc$ (2013) foram dois trabalhos participativos com os GPI e Wolf Gang respectivamente, integrado num projecto etnográfico de maior amplitude desenvolvido no contexto urbano cabo-verdiano desde 2007, focando as questões infanto-juvenis, gangues de rua, cultura hip-hop e criminalidade organizada. 

A comunicação intitulada "Quando o campo nos coloca atrás das câmaras". Rap, cultura visual e intervenção no espaço público (Praia, Cabo Verde), a ser apresentada no XII Congresso Luso-Afro-Brasileiro, é uma primeira reflexão sobre a legitimidade da intervenção pública do pesquisador e a utilização do conhecimento científico para fins de auto-consciencialização política dos jovens com quem se vai interagindo no processo de pesquisa. Fará parte do GT 59 intitulado Entre pesquisar e fazer: práticas artísticas, metodologia e crítica social nos estudos sobre juventudes, de Lorenzo Bordonaro e Frank Marcon. 

O programa preliminar do Congresso poderá ser consultado aqui.

[Na imagem FCSH-UNL, sede do XII Conlab]

20/01/2015

Da MK 20 J '10 à Marxa Cabral '15

Decorria o ano de 2010, quando o jovem artista e activista Dudú Rodrigues, com então 21 anos de idade, líder da Associação DjuntArti, movido pelo espírito empreendedor e inovador, antes desses chavões entrarem na agenda pública nacional, organizou a primeira manifestação cultural informal em homenagem a Amílcar Cabral, que veria a ser o embrião da Marxa Cabral continuada pelo movimento Korrenti Ativizta.

Tenho para mim que num dia como hoje, longe dos discursos oficiais carregados de hipocrisia, é nossa obrigação prestar tributo aos jovens heróis que continuaram o seu legado. Concordando com Kaya, LBC e Chullage, Cabral somos todos nós... vídeo das reuniões de preparação da primeira Marxa aqui, clip da marcha aqui e espectáculos de rap, b-boy, graffiti e teatro na Praça Alexandre Albuquerque, Plateau aqui.

Rap kriol(u): o pan-africanismo de Cabral na música de intervenção juvenil na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde

[Na imagem panfleto de mobilização da "Manifestason Kultural 20 J", 2010]

18/01/2015

O fenómeno Tubarões Azuis

Para além do futebol, Can é o momento de afirmação patriótica, numa África assolada pelo genocídio nigeriano, calamidade social na Serra Leoa e surgimento dos pimeiros protestos anti-Charlie Hebdo (na Argélia e no Niger). É também palco da ostentação pornográfica do nacionalismo burguês (ou aburguesado) pós-colonial.

No entanto, o que realmente interessa nestas semanas é o orgulho nacional e a afirmação dos Tubarões Azuis enquanto potência do futebol africano, não obstante a fraca aposta em políticas públicas desportivas centralizadas no país de talentos desperdiçados.

Tubarões Azuis atacam Can 2015

[Na imagem Heldon e Ryan Mendes no Can, 2013]

14/01/2015

Liberdades, democracias e afins

Em Março de 2004 estava em Génova, três anos depois da Batalha de Génova. Os Soulfly tinham acabado de lançar Prophecy, o seu quarto álbum. O vídeo musical do single com o mesmo nome, gravado em 2003, tocava sem parar nos programas musicais da televisão italiana. Max Cavalera tinha levado para os Soulfly o espírito dos Sepultura. Prophecy, a primeira faixa do álbum, falava de uma suposta guerra tribal no milénio que acabara de entrar. 

Os últimos acontecimentos em Paris e Baga não tiram mérito à profecia de Cavalera, apenas a reconfigura. No entanto, acrescentam uma dimensão bélica à tese de Manuel Castells (ou Alain Touraine). A politização do sagrado leva indivíduos (irmãos Kouachi) e grupos (Boko Haram) a desconstruirem-se como sujeitos, tal como fizeram os Charlie desse mundo, incluindo os nossos. Tal como o Outro Perspectivado, a apropriação da identidade Charlie pode ser percebida como uma reprodução da cultura do macaco e do papagaio ou como um processo de fechamento dentro do que é conhecido contra a imprevisibilidade do desconhecido e do incontrolável. 

África é desconhecida e a política de desconhecimento (promovida pelos vários Charlie de ocasião) caracteriza-se, entre outros aspectos, por aquilo que Achille Mbembe chamou de "práticas de ocultação e negação". São as tais continuidades que reproduzimos inconscientemente (ou não), sendo nós, cabo-verdianos, imbuídos do imaginário ocidental de ver o nosso continente, ao ponto da nossa intelligentsia ver no intelectual africano um africanista.        

Quando parte de um povo encontra-se mentalmente escravizado, patenteado na esquizofrenia identitária que nos é característico, falar de liberdades e democracias, ainda mais num contexto de reprodução de uma política de ignorância, de uma missão civilizadora transvestido de voluntariado e de uma espécie de política de bondade protagonizada pelo neo-morgadismo "governamentalizado", soa-me estranho.

[Na imagem contracapa de Prophecy, 2004]