30/12/2015

Obey | Subvert

Os partidos políticos, a CNE e agora o PR devem ter uma adoração secreta pelo avestruz. O que eu sei é que o país está de férias desde da semana passada e ao que parece assim continuará até Janeiro de 2017. Obviamente este calendário já começa a ser violado e a senhora Juíza, para variar, reproduzirá a cultura de olhar para o lado. Os jovens irão continuar a achar que os políticos encontram-se distantes da sua realidade e alcançando uma pitada de poder, serão acusados do mesmo por outros jovens. Sobre o ano de excepção que se avizinha relembro este e este artigo referente ao ano de excepção de 2011 (e semi-excepção de 2012), assim como esta penta dimensão de olhares sobre a eleição, o voto e os desafios pós-2011, publicado pelo extinto Pulsar.   

E assim como quem não quer nada, mais este anúncio governamental...   

[Na imagem Situacionismo Punk Britânico. Autor desconhecido]

21/12/2015

Em meu pais o crime compensa! Vergonha...

Do célebre funaná dos finais dos anos de 1980, salvo erro dos Finason, explorando a imaginação social do sucesso masculino da época: uma casa na Praínha e uma mulher na TACV, em parte alcançado pelo Zemas, a verdade é que desde os anos de 1990 ouço falar dos sucessivos buracos na dita companhia de bandeira nacional, especialista em produzir milionários que por lá passam como gestores. Desta vez, no entanto, a coisa parece ganhar repercussões mais graves e levanta o véu a um problema estruturante que é a forma como os sucessivos governos têm gerido a coisa pública a partir de uma política de compadrio, produzindo gestores super heróis que ocupam simultaneamente vários cargos, ditos de confiança político-partidária, bloqueando jovens com melhores qualificações e capacidade técnica. Os dois últimos casos, da integração dos camaradas Júlio Correia e Lívio Lopes na IUE e ARE respectivamente, é apenas mais um episódio da orgia institucional reinante no país. Ao invés de se centrar a discussão se a maioria destes gestores super heróis têm perfil para os cargos nomeados e/ou convidados, a discussão deveria ser colocado na relevância do currículum dos mesmos para os trabalhos a que são contratados. Indo por esse caminho, os escândalos seriam bem maiores e a criminalidade não só ganharia novas caras, como poderia ser renomeada.

[Imagem desviada da net]

20/12/2015

Da escravidão mental

Para lá da reprodução da cultura do macaco e do papagaio, esta nova invenção chama a atenção pela alta dose de ignorância espelhada na cultura powa swag. Ninguém é obrigado a conhecer o contexto histórico e social da construção do termo kopu leti, no entanto, não custa nada uma breve pesquisa para que se evite o oceano de disparates desfilado neste vídeo, protagonizado por um grupo de borda kafé. A palavra em si contêm dois significados: o primeiro que tem subjacente a ideia de raça, do privilégio branco e o segundo que tem subjacente a ideia de classe, consequência da primeira. Por outro lado, de ponto de vista da pesquisa em ciências sociais, é tudo muito fascinante, sobretudo a mudança de significado que a apropriação e redefinição do termo kopu leti poderá trazer ao mais ou menos politizado termo di guetu, popularizado pela geração thug.  

Este texto, em formato work in progress, poderá servir de introdução...

Adenda: a repercussão nas redes sociais.

14/12/2015

Da série "o país da moda"

Quando se soube que Cabo Verde foi retratado no filme Get Hard, com Will Ferrell e Kevin Hart, como um paraíso para criminosos, caiu o carmo e a trindade. Um ano antes, no livro Zero Zero Zero, Roberto Saviano tinha apresentado Cabo Verde como um paraíso para narcotraficantes. A constatação mais óbvia é de que há informações que não chegam à redacção da Reuters...

Lígia, Zé Pote e José Jorge passam fim de semana fora da prisão sem autorização

Adenda: e é ler a última parte desta outra notícia... e esta achega do Ministro da Justiça. Pena que para os jovens encarcerados por crimes menos graves, a maioria proletários da economia do crime, portanto, sem influência em certas esferas públicas, não tenham as mesmas oportunidades de que fala o senhor Ministro.   

[Imagem]

08/12/2015

Da série "novos tempos velhos discursos"

A história repete-se. Tal como no pós-11/09, a França "civilizada" volta a colocar a Frente Nacional, cara da extrema direita europeia, na ribalta política. No mês passado, o fundador e ex-presidente desse mesmo partido, expulso no entanto, afirmou publicamente que a solução para a salvação europeia e o mundo branco passa pelo extermínio dos africanos. Do outro lado do Atlântico Norte, na campanha das eleições primárias republicanas para a Casa Branca, Donald Trump promete a proibição da entrada dos muçulmanos nos EUA. A pergunta que fica: o que fazer com os milhões de muçulmanos norte-americanos (e brancos)?

Adenda: e uma semana depois, a França chocada derrota a Frente Nacional e apoia Sarkozy...

[Na imagem ilustração da execução de Atahualpa, o último Imperador Inca, em nome da civilização cristã. Autor desconhecido]

01/12/2015

3rd ISA Forum of Sociology

No próximo mês de Julho, sob o lema "The futures we want: global sociology and the struggles for a better world", acontecerá em Viena, Áustria, o Terceiro Fórum de Sociologia, organizado pela Associação Internacional de Sociologia, com a finalidade de promover um tipo de pesquisa empírica, teórica e normativa orientada para o futuro, capaz de lidar com os problemas e oportunidades que muitas vezes atravessam as tradicionais fronteiras políticas. Apresentarei neste Fórum, com Alexssandro Robalo, a comunicação intitulada "Netus di Cabral i rivoluson. Youths, indigenization process and political protest in Cape Verde", que integrará o Comité de Pesquisa sobre a sociologia da juventude, na sessão intitulada Youth and social justice in the global south: building alternative strategies to entrenched social inequalities.

Baseado na observação participante da manifestação de 30 de Março de 2015 contra o Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos e da ocupação do Ilhéu de Santa Maria contra a construção do Hotel-Casino no mesmo ano, pretendemos, por um lado, apresentar as motivações desses protestos e, por outro, discutir de forma exploratória a emergência dos movimentos juvenis surgidos em Cabo Verde nos últimos anos. A comunicação complementa a apresentada na Conferência Quarenta Anos de Independências, em Novembro último, em Lisboa, intitulada Jovens e protestos políticos num contexto de gestão de impossibilidades: discussão a partir do rap cabo-verdiano, ambos resultado de uma reflexão teórica-empírica mais ampla sobre as formas de participação social e política dos jovens em Cabo Verde.

As respectivas publicações serão o passo seguinte... 

[Na imagem cartaz do Fórum]

30/11/2015

(Re)lembrar Sandgrains


Isto dito em Paris, a propósito das vulnerabilidades dos Estados insulares, na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Isto dito pelo líder de um Governo de um Estado insular que assinou o pior acordo de pesca de um país africano com a União Europeia, ignorando as consequências sociais, económicas e ambientais negativas dessa irresponsabilidade política.

É voltar a ver Sandgrains...

[Na imagem cartaz do filme documentário, 2013]

27/11/2015

E assim continuamos...

A propósito desta notícia, Aquilino Varela escreve no seu mural de facebook o seguinte: "Denominar a situação periclitante em que se vive no Ensino Superior em Cabo Verde de dilemática constitui um tamanho eufemismo, Sr. Ministro Correia e Silva, Vossa Excelência, perante alguns nados-mortos que criou no Ensino Superior, das escórias que insiste em encomendar e contratar, dos silêncios e cumplicidades tidos, a continuar o macabro cenário que ensombra este subsistema, seguramente, será tido como um dos coveiros-mor do Ensino Superior em Cabo Verde. Só para lembrar, o Sr. Correia e Silva presidiu a primeira Comissão Instaladora para a Universidade de Cabo Verde, foi o primeiro Reitor desta Universidade, foi/é o primeiro Ministro de Ensino Superior, Ciência e Inovação de Cabo Verde, com poderes para inovar, regulamentar e fiscalizar esse subsistema. Tendo tido todas essas responsabilidades e poder de decisão, no Ensino Superior em Cabo Verde, os cidadãos cabo-verdianos devem, rapidamente, lhe exigir responsabilidades antes que a culpa morra solteira e o luto se venha impor". 

[Imagem de Misha Gordin]    

21/11/2015

Das continuidades coloniais...

Resquícios coloniais é quando, 40 anos depois das independências das ex-colónias portuguesas em África, numa conferência alusiva ao tema, organizado em Lisboa (subentende-se Metrópole), ouvir de um ex-embaixador do Brasil na CPLP, que os países pertencentes aos ditos Palop's são primitivos em matéria de democracia e direitos humanos (logo o Brasil cuja visão dos pobres, negros, mulheres e homossexuais é bem primitiva, sem falar da sua direita saudosista da ditadura militar). Mas, o maior dos cúmulos, é saber que esta é também a visão dos nossos poetas-pensadores (e de seus lacaios transformados em macacos e papagaios), pertencentes à corte de ensaístas, estes impostores transvestidos a intelectuais totais, vivendo como parasitas semiplagiadores dos trabalhos dos outros, praticando um tipo de filosofia sem sujeito, completamente distanciado da realidade social.

[Na imagem chegada da Coroa portuguesa ao Brasil. Autor desconhecido]

14/11/2015

A redefinição da violência

Desconfio sempre das análises positivistas e funcionalistas, sobretudo no que a violência diz respeito, no entanto, perante os últimos ataques de Paris, tenho a reconhecer que os conceitos bazar de violência, cerco urbano ou terceira geração de gangues desenvolvidos por John Sullivan fazem hoje todo o sentido. Contudo, o importante é lembrar que fenómenos como Estado Islâmico ou Boko Haram não nasceram ou desenvolveram do nada e em muitas partes do continente africano massacres do tipo acontecem semanalmente. Infelizmente, perante os últimos acontecimentos, as teorias de securitização ganharão ainda mais força a nível internacional, reforçando os sentimentos islamofóbicos e negrofóbicos.   

[Imagem do ataque de Boko Haram em Maidugari, Nigéria, Set/2015. Autor desconhecido] 

13/11/2015

Nós e a academia

O que ainda não entendo muito bem é o porquê das instituições universitárias cabo-verdianas teimarem em não divulgar publicamente nos seus sítios os curriculum vitae dos seus docentes e equipa directiva, já que o discurso oficial é qualidade e transparência.    

03/11/2015

Da série "o consenso é uma treta e seu promotor uma fraude"

Escreveu Ibn Khaldun, no século catorze, que um ciclo político fecha quando o luxo conseguido com a prosperidade de um povo desencadeia a corrupção e a decadência. Esta afirmação, dita quatro séculos antes das (re)elaborações teóricas dos chamados pais das ciências sociais, é hoje bem visível e sentida nas ilhas. O tal do "Fundão" é apenas uma pequena ilustração do "regabofe institucional" (também bem presente nas gestões camarárias) cabo-verdiano, conseguido graças à política de avestruz das instâncias internacionais com sede nesta nação gentrificada (segundo a perspectiva teórica de Pedro Marcelino). Como resultado, uma grande parte dos cabo-verdianos, sobretudo jovens, "querem ficar mas têm de partir"...         

[Na imagem slogan de campanha do MPD/2011, Mosteiros. Foto de RWL]

27/10/2015

Nós e a narcocultura


E também pode entrar em Cabo Verde em contentores de empresas legais. Isto porque nunca se teve a vontade política de se seguir minuciosamente o dinheiro não obstante o discurso pomposo de luta contra a lavagem de capital.  

26/10/2015

No future

Em qualquer país exemplo em África e arredores em matéria de democracia e boa governação, quando se vai à televisão pública, em horário nobre, desconstruir simultaneamente a política económica governamental e a política eleitoral do partido que o suporta, o resultado só poderá ser este... e, sobre o activismo juvenil pós-pós-moderno, saudades tenho do espírito dos anos de 1990.

[Imagem de Banksy]

24/10/2015

Estado da Nação

A incompetência (individual, colectiva e institucional) é actualmente o maior desafio em Cabo Verde, fruto de uma política de emprego (nos sectores públicos e privados) baseada na lógica dos quatro ismos: nepotismo, amiguismo, partidarismo e cricalismo (assumindo toda a conotação machista que este último termo encerra). Não sendo uma invenção actual, o que alguma literatura nacional (e sobre o território nacional) evidencia é que esta lógica de dominação advém do processo de formação da sociedade crioula, reproduzida ao longo dos tempos por determinados grupos e instituições sociais, que bem tem sabido reconverter os seus capitais consoante os contextos sócio-políticos. A despolitização (que convém não confundir com partidarização) e a consequente anestesia social que se observa hoje na sociedade cabo-verdiana é resultado desta lógica de dominação. Sendo assim, quando as contradições explodirem, rompem violentamente manifestações de conteúdos conservadores tais como o nacionalismo exacerbado, fundamentalismos culturais/religiosos entre outras (re)alienações colectivas ideológicas inimigas da liberdade individual. Nisto tudo e apesar da intensificação dos discursos ocultos e a sua visibilização pública pelas mãos de algumas manifestações culturais, entre os quais o rap, é notório o resquício ideológico de um Charles Kingsley no discurso de alguns "turistas revolucionários", o que poderá resultar no bloqueio de possíveis mobilizações sociais nos próximos tempos. Sem falar das evidentes contradições ideológicas que este facto acarreta. 

[Na imagem citação de Guy Debord grafitado algures pelo mundo. Autor desconhecido]

23/10/2015

Conferência Quarenta Anos de Independências no ISCTE-IUL

Em Novembro terá lugar em Lisboa a Conferência Quarenta Anos de Independências, onde apresentarei com Alexssandro Robalo a comunicação intitulada Jovens e protestos políticos num contexto de gestão de impossibilidades: discussão a partir do rap cabo-verdiano. Baseada em pesquisas efectuadas junto de rappers e activistas sociais, pretende-se, por um lado, relacionar o mal-estar social e a (re)emergência da reinvindicação da identidade africana por parte de jovens em situação de precariedade com o Estado Pós-Colonial cabo-verdiano e, por outro, inventariar os desafios e as perspectivas desses jovens face a Agenda de Transformação liderada pelo Governo de Cabo Verde. 

Programa completo aqui.

21/10/2015

Mesa redonda 'di finason ti rap'

Em Cabo Verde (e pelas cidades globais desse mundo), em matéria identitária, existe hoje duas tendências juvenis bem visíveis: a maioria, crioulizada (que para alguns significa ocidentalizada) e uma minoria, africanizada (que para alguns significa radicalizada). Ambas, cada uma à sua maneira, encontram-se em processo de indigenização. O rap cabo-verdiano, uma de entre várias ferramentas identitárias ao dispor dos jovens nesse processo, encontra-se igualmente em processo de indigenização. Neste evento, a minha comunicação busca discutir através do rap (e da juventude urbana glocalizada) as actuais dinâmicas e contradições da sociedade cabo-verdiana, tendo a dita "cultura tradicional" como pano de fundo.

"Do finason ao rap: Cabo Verde e as músicas de intervenção", parte de um artigo maior no prelo, publicado Abril último no Buala,   

[Na imagem geração powa swag. Foto de Exotrik]

18/10/2015

Liberdade Já!

Por cá o silêncio... dos manos e dos cotas. Sobretudo dos auto-intitulados guardiões da liberdade. Entretanto, em Angola, apesar do mediatismo do caso Luaty Beirão, outros jovens encontram-se em risco de vida, entre os quais Albano Bingobingo, torturado pelos guardas prisionais no seu nono dia de greve de fome. Hoje, Nós e os Outros faz todo o sentido...
   
[Imagem sacado no mural do facebook de LBC Soldjah]

11/10/2015

Vigília pela liberdade dos presos políticos em Angola

Em Maio deste ano, na comemoração da III Semana Académica de Relações Internacionais & Diplomacia do ISCJS, fui convidado a comentar o documentário televisivo Activate - Angola: Birth of a Movement, que retrata a luta dos "Revus", um mês antes da detenção dos seus principais protagonistas. Quase quatro meses depois desta posta, os jovens activistas angolanos continuam detidos. Por cá, no país dos "Charles da moda" e do "turismo revolucionário", no dia 13, terça-feira, espera-se solidariedade para com os "Revus". 

[Imagem de Maky Silva]

29/09/2015

Os novíssimos condenados da terra

Em todas as partes onde existem bairros ditos clandestinos habitados maioritariamente por migrantes, a sua população é estigmatizada e culpabilizada pelo todo o mal que ali acontece. Nas ilhas turísticas cabo-verdianas, o tráfico de droga, a prostituição e a exploração sexual infanto-juvenil, a gravidez na adolescência, o aumento da criminalidade, as doenças sexualmente transmissiveis e a higiene pública são problemas sociais que dizem ter surgido por causa dos "de fora", mais concretamente "badios", guineenses, senegaleses e nigerianos. Na Praia, antes dos deportados e da cena thug, os folk devils eram nigerianos. No entanto, é interessante notar que nestas ilhas, estas questões são costumeiramente dissociadas dos estrangeiros de origem europeia que gerem negócios obscuros, do banditismo político-partidário dos caciques locais e da extorsão institucional, sobretudo a policial.

[Na imagem Bairro da Barraca, Sal Rei, Boa Vista. Foto de RWL]

24/09/2015

Representar Zona Ponta, Praia, Cabo Verde

Publicado no Brasil, na obra colectiva sobre expressões artísticas urbanas organizado por Lígia Ferro, Otávio Raposo e Renata de Sá Gonçalves, o artigo Lógicas de desafiar a mudança nas "periferias" do espaço urbano em (i)mobilização: representar Zona Ponta, Praia, Cabo Verde, na sequência da minha participação no V Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, em Vila Real, Portugal, em 2013, onde apresentei uma comunicação intitulada Rap Kriol(u) e a pesquisa etnogáfica: lógicas de desafiar a mudança no espaço urbano em (i)mobilização. A partir das narrativas de Pex e Hélio Batalha, rappers de Ponta D'Água, pretendi, por um lado, analisar a emergência de um movimento contestatário na cidade da Praia e, por outro, através dà pesquisa etnográfica, alargar o marco compreensivo das realidades subalternas ignoradas nas ciências sociais cabo-verdianas e no sistema político instituído.

Descrição do livro aqui

[Na imagem capa da obra colectiva]

20/09/2015

Da ilusão do saber

Escreve Jean-Marc Ela que seria perigoso erguer um muro de silêncio em torno de intelectuais como Cheikh Anta Diop (ou de muitos outros intelectuais africanos), o que, naturalmente, é de esperar que aconteça nos meios que pensam ter chegado aos Himalaias do saber não tendo, por isso, nada mais a aprender com os contributos africanos. Infelizmente, nós por cá, (re)criamos meios destes, onde seres pensantes através da cabeça dos outros a sofrer do Efeito Dunning-Kruger vomitam analiticamente oceanos de nada.

[Na imagem La tête dans les étoiles by Oakoak, 2015]

13/09/2015

Da desorientação política ou uma forma subtil de reconhecer o fracasso político

Diz o Primeiro-Ministro, Doutor Honoris Causa, que "em Cabo Verde [..] tudo é partidarizado e estatizado, o que condiciona sobremaneira o desempenho individual e da administração pública e as relações entre o Estado, a sociedade civil e os cidadãos". Obviamente já existe um conjunto de trabalhos nas áreas da sociologia, ciência política e relações internacionais a denunciar esta situação, mas que por ter sido realizado por pesquisadores nacionais fora dos expedientes partidários e institucionais, não tem sido levado em conta. Contudo, quando se ouve os desabafos tardios do Primeiro-Ministro, complementados pelo novel discurso da Presidente do PAICV, o que fica é que a tão premiada boa governação foi na realidade uma má governação mais ou menos bem cosmetizada. 
        
[Na imagem Dhaslim by Oakoak, 2014]

09/09/2015

Sobre as Petra's crioulas e o neonativismo bacoco

Derek Pardue, antropólogo norte-americano e estudioso do rap crioulo radicado em Lisboa, afirmou no XII Conlab, que rappers como LBC ou Chullage representam a versão contemporânea da geração conhecida como Claridosos. Obviamente a comparação nada tem a ver com o conteúdo das ideias defendidas mas com a autonomia intelectual alcançada num contexto de contingências. 

Pensando no rap cabo-verdiano, o rap que se produz nas ilhas, o mais perto que podemos chegar (salvo algumas excepções) é a uma espécie de neonativismo bacoco que de vez em quanto é salvo por uma ou outra narrativa como o caso deste Mundo Frio de Pex, em parceria com DoggSon. 

De outro lado, temos as nossas Petra's László's, especialistas em ideias gerais e infectadas pela miopia analítica. Estas, pseudo-estrelas de uma pequena franja do universo facebook, caso despissem as teorias infra-facistas, pisassem um pouco mais o campo de confrontação empírica e pensassem pelas próprias cabeças, do teclado saía menos disparates. Em comparação às Petra's crioulas, os tais rappers neonativistas passam num ápice de bacocos a intelectuais. 

[Imagem]

30/08/2015

O século XXI e as migrações forçadas para a Europa

Enquanto que por aqui se continua a partidarizar tudo, inclusive a chuva, e retira-se do baú do circo eleitoral a tese da 'rua de frente' e 'rua de trás', ignorando a tese 'filhos de dentro' e 'filhos de fora', este mapa mostra uma parte da real dimensão da tragédia afro-asiática na Europa.  

Via Entre as Brumas da Memória

Adenda: para uma compreensão sociológica do fenómeno, sugiro a leitura de Human Rights Across National Borders, de autoria de António Pedro Dores.

18/08/2015

Da série "reprodução da esquizofrenia identitária"

Dizem os neolusotropicalistas que a questão racial é um falso problema no arquipélago. Contrapondo essa ideia, os afrocentristas e pan-africanistas apontam casos de discriminação racial e apresentam a media e as agências publicitárias nacionais como sendo os grandes divulgadores do privilégio branco em Cabo Verde. Para mim, do ponto de vista ideológico e académico, esta é actualmente uma das discussões mais interessantes no país e mais ela se torna quando constato que a Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania institucionalizou de forma inconsciente (ou mesmo subliminar), em 2013, o privilégio branco nos ilhéus através da edição do número 4 da colecção Cadernos de Cidadania, direccionado às crianças do Ensino Básico.   

[Na imagem protesto contra a brutalidade policial nos EUA, Nova Iorque, 2014]

13/08/2015

Silly season* berdiano

Hoje, através do jornal A Nação, fiquei a saber que sou juntamente com Rosário da Luz, o mais novo reforço do MPD, na qualidade de independente, na eleição legislativa que se aproxima. A brilhante conclusão desse jornalismo de "buteku" deve-se ao facto de ter participado, como académico, em algumas conferências promovidas pelo partido verde e ser uma das vozes mais críticas das políticas juvenis e de segurança interna praticadas pelo Governo. É que não custava nada um telefonema a confirmar a coisa antes de encher o papel. Curiosamente, ainda ontem, num Fórum sobre a juventude, na Assomada, uma parte do staff "juvenil" do Presidente da República, malta do MPD, acusou-me, juntamente com Rony Moreira, de estar a defender a abolição do Estado e dos partidos políticos. Afinal. sou anarquista... 

Para se entender a nossa imprensa escrita aconselho este meu artigo, recentemente publicado pelo CEI-IUL. No entanto, o mais interessante é que isto vem reforçar a tese que tenho defendido, parcialmente publicada neste e neste espaço, em 2012 e 2014 respectivamente, suportada por um aturado trabalho de campo. 

*Conceito anglo-saxónico que se caracteriza pela falta de notícias importantes e sérias, em que os media são tomados de assalto pela falta de assunto e por uma maior incidência de temas inúteis e mais ou menos estúpidos.

[Imagem]

10/08/2015

Pelo Direito de Resistência (Art. 19, CRCV)

Hoje, 10 de Agosto, o governo angolano ameaça os jovens democratas através do seu jornal oficial. Hoje, 10 de Agosto, o braço armado do governo cabo-verdiano ameaça os jovens activistas através de um dos seus jornais oficiais. Hoje, 10 de Agosto, recebo de um colega este dossier do Boitempo sobre violência policial.

[Na imagem cartoon apresentado na edição de hoje do Jornal de Angola]

06/08/2015

Korrenti ativizta e as políticas de ocupação

Processo contestatário bem ou mal conduzido, o que interessa é que a acção directa do Korrenti Ativizta demonstrou a incoerência ideológica de alguns e colocou o empreendimento do Chow no centro do debate público. Coisa aliás que a comunicação social deveria já ter promovido há algum tempo, até porque, o povo não foi ouvido num assunto que irá transformar por completo a paisagem e o quotidiano da cidade capital. Para além disso, obriga a discutir o bloqueio de um outro projecto, quanto a mim mais sustentável, cujo memorando de entendimento tinha sido assinado depois de milhares de contos gastos em estudos solicitados. Este vir agora todo emotivo falar de afugentar investidores quando conhece bem os meandros do outro projecto, que certamente irá custar aos nossos bolsos milhares de contos em indemnizações é, no mínimo, politicamente muito amador. Fora os rasgos ditatoriais que deixa transparecer. Pelo menos lembrou que Djéu é um espaço público (e de facto ainda é) e, portanto, qualquer cidadão ou grupo pode lá estar o tempo que bem entender. Acampar ou manifestar no espaço público, que eu saiba, ainda não foi proibido, a não ser que regressamos aos tempos da velha senhora e esqueceram de me avisar.

O que ninguém se lembra é que o movimento Korrenti não só nasceu nos corredores do poder institucional como foi por ela legitimada. A sua política de ocupação teve início em 2013, como resultado dos desencontros entre as promessas políticas e práticas governativas e as consecutivas falhas na execução de políticas sociais inclusivas, tanto a nível local como nacional. A primeira ocupação, o Pelourinho, no bairro Achada Grande Frente, foi protegido pelo Ministério da Cultura e, no ano passado, depois da ocupação do antigo balneário e esplanada do bairro Lém Ferreira, rebaptizado como Finka Pé, viu o trabalho comunitário desenvolvido reconhecido pela Câmara Municipal da Praia, com o qual, através da Associação Pelourinho, em que a Korrenti diz ser braço político, assinou um protocolo de parceria, prometendo financiar com cinquenta mil escudos mensais os projectos comunitários nesses dois bairros.

O movimento foi criado em Janeiro de 2013, na sequência da política de pacificação referida aqui, inspirado, por um lado, pela visão do Cabral enquanto ícone e, por outro, pelo Fora do Eixo. Este último possibilitado pelo intercâmbio promovido pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde que levou ao Brasil o agora seu líder e trouxe para Cabo Verde uma dezena de activistas do Fora do Eixo. Através do Projecto Sementi, mãe biológica do movimento, ganharam o último Prémio Nacional dos Direitos Humanos, na categoria Combate à Violência e Promoção da Cultura da Paz, prémio esse financiado pelo Escritório Regional da UNESCO situado em Dakar. Em 2014 foram financiados pelo Ministério da Administração Interna no âmbito da Campanha Nacional de Entrega de Armas e foram escolhidos pela ONU como um dos grupos acolhedores das acções da ONG brasileira AfroRaggae na Praia. Nestes dois anos em actividade fizeram parcerias com inúmeras ONG's e instituições públicas cabo-verdianas dos quais receberam menções de reconhecimento, e um suposto financiamento da Embaixada dos Estados Unidos da América a um dos seus projectos.

Pode-se concordar ou não com a ocupação e reivindicação do movimento mas ela e tão legítima e democrática como qualquer outra e pensar que este assunto é um falso problema é não ter mesmo nenhuma noção da realidade que nos rodeia. Mas o mais preocupante de tudo é a apropriação por parte da dita sociedade civil do termo agentes bloqueadores do desenvolvimento, que mais faz lembrar os anos de 1980.

[Imagem da ocupação do Djeu de Santa Maria, Praia]

03/08/2015

Da dessincronização do país

Hoje, em conversa com um amigo, ficou patente que enquanto Zemas faz o discurso de transformação na inauguração do Data Center da Achada Grande Frente, na Escola Básica do Lavadouro a degradação é marca registada, a ELECTRA não tem capacidade sequer de colocar um contador de electricidade num apartamento e os TACV é aquela lenga-lenga de sempre. O que fica é que daqui a uns 10 ou 15 anos, quando se falar de criminalidade organizada, tanto a situação como a oposição hão-de se lembrar do dia em que estenderam o tapete vermelho a uma das máfias mais perigosas do mundo.

[Na imagem parte da obra Mind Devour de Sebastian Eriksson, 2011]

01/08/2015

Estado da Nação by Gol Wayne

O novo mixtape de Gol Wayne resume nas músicas "Escravatura Moderna" e "País D'Hipocresia" o real Estado da Nação. Quanto a mim, o melhor álbum de rap feito em Cabo Verde este ano.  

Download aqui. Vídeo promocional aqui.

[Na imagem Escravatura Moderna de Gol Wayne]

30/07/2015

Do optimismo trágico... parte II

Em Janeiro de 2015 a arquitecta Andréia Mossab esteve no extinto Ciclo de Seminários de Investigação, no ISCJS, e o assunto do Djéu surgiu como mais um exemplo de aberrações megalómanas apresentadas naquele que um dia foi sonhado como o Japão de África.

Sobre o casino em si, experiências outras mostram que será direccionado para as excentricidades dos endinheirados asiáticos e europeus e mais um espaço de masturbação simbólica para a classe dos novíssimos ricos cabo-verdianos. Igualmente mostram que existe fortes probabilidades de este vir a ser mais uma lavandaria do crime organizado internacional. Mas sobre este assunto recomendo a leitura de, entre outros, Lydia Cacho e Misha Glenny.

Por detrás da oportunidade de criação de mais subempregos e do glamour da maquete em riba, o certo é que relatórios do tipo, em matéria de escravatura laboral e sexual, no futuro, será bem mais duro para Cabo Verde (ler a partir da página 109). Em relação ao pessoal que agora despertou, mais "désobéissance civile" se faz favor e atenção que esta posta foi escrita já lá vai quase dois meses.

Adenda: Espaço Público da RCV, em Fevereiro último.

[Na imagem maquete do projecto do senhor Chow roubado algures no facebook]

22/07/2015

Artigos publicados na Africa Media Review e CEI-IUL

Publicado na Africa Media Review o artigo "As questões dos Direitos Humanos na imprensa escrita cabo-verdiana entre 2008 e 2009: os casos dos jornais A Semana e Expresso das Ilhas", escrito em 2011, complemento deste outro, produzidos a partir do projecto de pesquisa comparativa sobre a cobertura das questões dos Direitos Humanos pela imprensa escrita em Moçambique, Angola, Guiné Bissau e Cabo Verde, financiado pelo CODESRIA, entre 2011 e 2012. No mesmo dia em que o CEI-IUL publica o ebook "Media freedom and right to information in Africa", editado por Luca Bussotti, Miguel de Barros e Tilo Grätz, contendo o artigo "A imprensa escrita e a cobertura dos conflitos entre gangues de rua em Cabo Verde", base da minha apresentação no 5th European Conference on African Studies, em 2013, em Lisboa.      

[Na imagem capa do ebook Media Freedom and Right to Information in Africa, 2015]

20/07/2015

Sobre as formas de corrupção.cv

No DL do último sábado alguém questionou se o financiamento público do Ministério da Juventude e das outras coisas às ONG's e associações comunitárias, baseados em critérios sem nenhuma transparência, não é uma forma de corrupção. Evidentemente que é, ainda mais quando se sabe que as instituições ditas de sociedade civil beneficiadas tendem a votar amarelo. Igualmente, corrupção é uma empresa com objectivos privados, utilizar guardas municipais pagos pelo nosso bolso, na fiscalização e cobrança de multas no seu Parque de Estacionamento.        

[Na imagem 'Marcha Primeiro de Maio'. Foto de José Ferreira, 2015]

12/07/2015

Do optimismo trágico

Em 2009 também estávamos preparados e hoje é aquilo que se sabe... e sobre a construção deste empreendimento, convém ter-se em consideração o resultado da soma casinos, ilhas turísticas e empresários asiáticos (e aqui entra as tríadas chinesas) descrito pela litertura especializada... por enquanto, temos o Guinness World Record da cachupa... daqui a uns anos a malta estará interessada em ler "Escravas do Poder" de Lydia Cacho e os mais destemidos dissertarão sobre a tese nexos político-criminais de Misha Glenny.    

[Imagem de Banksy]

01/07/2015

Este post também tem a ver com a cena dos 40 anos da continuidade colonial

Diz o Lonely Planet que o crime violento está em crescimento na Praia e alerta aos turistas a terem cuidado no Mindelo. No entanto, o Foreigh & Commonwealth Office atribui Cabo Verde com um baixo risco de atentado terrorista mas alerta os britânicos sobre os roubos nas ilhas. Provavelmente alguém do executivo virá com o discurso disto ser obra dos concorrentes no sector turístico (como fizeram depois da reportagem da TV francesa no ano passado) e o senhor da PN do Mindelo virá com a conversa de que os dados estatísticos a seu dispor dizem outra coisa.

Sobre o enquadramento teórico da delinquência colectiva em Cabo Verde, o artigo "Gangues, novíssimas guerras e (sub)cultura da violência/delinquência" poderá servir de introdução ao debate. 

[Na imagem primeira página do Expresso das Ilhas de hoje]

28/06/2015

E assim estamos...

"E é bom que se saiba, meus queridos amigos, que as próprias universidades, que deviam ser, por definição, centros de PRODUÇÃO e estímulo do conhecimento, estão a afastar aqueles que produzem alguma coisa, apostando, estranhamente, na cultura da mediocridade e da bajulação mais tosca. É o país-dos-vira-bostas, diria o outro!" - Casimiro de Pina, no seu mural do facebook.

[Na imagem capa do single The Beautiful People de Marilyn Manson, 1996]

22/06/2015

"Os acordos de pesca estão a matar o nosso mar"... parte II

O que pouco se sabe é que a tripulação de uma parte dos barcos europeus que têm feito pirataria nos mares de Cabo Verde, legitimados pelo governo que morre de amor pela terra (e pelo seus bolsos), é na sua maioria imigrantes cabo-verdianos a trabalhar no sector marítimo em Espanha. Contudo, convém não se esquecer da pirataria chinesa e japonesa.

Uma parte das consequências desta política de extração está retratada no Sandgrains.  

21/06/2015

"Revus" detidos em Luanda

Activate Angola: Birth of a Movement retrata o papel do Movimento Revolucionário Angolano nos protestos de rua de 2011, em Luanda, o ano que Slavoj Zizek disse termos sonhado perigosamente em duas direcções. O rap e o ativismo pelos direitos humanos em Angola - partes 1 e 2, de Susan de Oliveira, faz a leitura académica do movimento...


18/06/2015

Artigo sobre violência urbana na Praia publicada em Madrid

Em 2011 participei num simpósio interdisciplinar sobre violência urbana na América Latina e África, em Monte Verità, na Suiça, promovido pela Universidade de Zurique, onde tive a oportunidade de conhecer e trocar impressões com alguns pesos pesados do estudo da violência urbana na América Central e do Sul, nomeadamente Marco Lara Klahr, Roberto Briceño-León e Alba Zaluar. O artigo "Thugs: violência urbana tribalizada", na semana passada publicado na obra colectiva "Violencia urbana, los jóvenes y la droga: América Latina/África", coordenado por Martín Lienhard, teve como base a minha comunicação no simpósio.

O índice e a introdução do livro aqui e aqui.

[Na imagem flyer de lançamento do livro]

12/06/2015

Os três cabrais e o pós-cabralismo

A partir deste texto do Abel Djassi Amado, poderia enquadrar este desabafo da seguinte forma: devido ao conflito pós-ideológico na representação de Cabral enquanto fraude e ícone, o melhor será matar o ícone e valorizar apenas o teórico-ideológico. Quanto ao fraude, nada a fazer...

11/06/2015

6th ECAS, Julho 2015, Paris

"Collective mobilisations in Africa. Contestation, resistance, revolt" será o tema do 6th European Conference On African Studies deste ano. Terá lugar em Paris, na Universidade Sorbonne, durante os dias 8 e 10 de Julho. Com Otávio Raposo coordenarei o painel "Art and culture as a platform of mobilisation of the african youth and african descent", cujo objectivo é debater perquisas que tenham como objecto de estudo expressões artísticas e/ou culturas urbanas protagonizadas por africanos (ou seus descendentes) nas suas múltiplas conexões com os movimentos sociais que transformaram cidades em todo o mundo em palcos de resistência. África do Sul, Senegal, Nigéria, Cabo Verde, Brasil e Itália serão os contextos debatidos no painel.

Adenda: programa completo aqui.

[Na imagem uma das fotos de apresentação do evento]

08/06/2015

Quando as trincheiras simbólicas começam a deixar de ser simbólicas

Sobre este assunto já existe um corpus teórico-empírico explicativo bastande inovador e consistente, embora constantemente ignorada pela intelligentsia local. O perigo da reconstrução das trincheiras simbólicas é que pouco a pouco deixam de ser simbólicas, ainda mais quando a referência social e política é o Estado-gangster, aqui tomado segundo a concepção de Lysander Spooner.

05/06/2015

'Salvemos a Praia'

Em 2006, um grupo de cidadãos criaram um movimento de contestação a partir de uma petição intitulada 'Salvemos o ilhéu de Santa Maria', abraçado por arquitectos e professores universitários, contra a construção do projecto dado à estampa hoje no A Voz. Foi a primeira petição entregue na Assembleia Nacional desde que o decreto-lei 3/2003 instituiu que as petições sejam assinadas por pelo menos 300 pessoas para terem efeito legal. Na altura, a acção do grupo acabou por travar o negócio, retomado agora, acreditando neste semanário, em forma de uma ilha artificial, autêntica aberração, ainda mais porque o ilhéu funcionaria como uma espécie de Estado de Excepção, onde o Estado de Cabo Verde não teria qualquer domínio legal. Isto depois do bloqueio feito a um outro projecto, o da marina da Praia, mais integrador e sustentável, não obstante a assinatura do memorando de entendimento. Bloqueio este com o conluio da municipalidade local. O certo é que a corrupção anda solta na democracia tida como modelo em África e arredores e urge movimentos de cidadania fora dos formatos "elevadores sociais" ou "ejaculações sociais precoces"...

[Na imagem primeira página do A Voz de hoje]

04/06/2015

Dia de reflexão sobre a violência sexual de crianças e adolescentes

Sobre a questão da violência sexual contra crianças e adolescentes, o primeiro ponto a ter em conta, num dia dito de reflexão, é que no caso cabo-verdiano, ela não é um problema psicológico mas uma questão social que tem sido reproduzido historicamente. A maioria dos casos não configura pedofilia (o que não quer dizer que não haja casos desses) apesar de 42% dos casos denunciados ao ICCA, no triénio 2012-14, ter como vítima crianças na faixa etária das 6 a 12 anos. O segundo é que a solução não está no aumento das penas mas sim tornar eficiente a articulação entre as instituições com missão em agir nestas situações e as leis já existentes, já que a negligência institucional, mais concretamente a judicial, tem sido o maior inimigo das vítimas e um bloqueio para que haja mais denúncias. O terceiro é que, a nível nacional, não há dados estatísticos que apontam para aumento de casos (inclusive os dados estatísticos de 2014 apontam para uma diminuição brusca na Praia). O que tem aumentado são as denúncias, com maior incidência nos centros urbanos onde existe delegações do ICCA. O quarto é que fala-se muito de abuso sexual da população infanto-juvenil e esquece-se da exploração sexual. Não são a mesma coisa e este último não pode ser dissassociado do fenómeno sexo transaccional, correspondente ao termo "pixingaria" popularizado nos anos de 1990 na Praia ou mais recentemente "café", popuarizado no Mindelo.

[Na imagem o cartaz do workshop promovido hoje pela ACRIDES] 

03/06/2015

Artigo sobre a questão dos direitos humanos na imprensa escrita cabo-verdiana publicada pelo CODESRIA

Publicada pelo CODESRIA a obra colectiva "A ciência ao serviço do desenvolvimento? Experiências de países africanos falantes de língua oficial portuguesa", organizada por Teresa Cruz e Silva e Isabel Maria Casimiro, com prefácio de Alcinda Honwana, na sequência da 13ª Assembleia Geral do CODESRIA, em 2011, na cidade marroquina de Rabat. O artigo "Uma análise da cobertura dos mídia sobre questões dos Direitos Humanos em Cabo Verde (2008-2009) a partir dos jornais 'a Semana', 'Expresso das Ilhas' e 'a Nação'", é resultado parcial do projecto "Mídia, Direiros Humanos e a (des)construção da opinião pública: uma análise comparada da cobertura dos meios de comunicação social sobre questões de Direitos Humanos nos PALOP", financiado pelo CODESRIA, entre 2011 e 2012. A apresentação em Rabat acabou por originar, para além deste, o artigo "As questões dos Direitos Humanos na imprensa escrita cabo-verdiana entre 2008-2009: os casos dos jornais 'a Semana' e 'Expresso das Ilhas'", que ainda se encontra no prelo, na Africa Media Review.

[Na imagem capa do livro]

02/06/2015

Nós não somos uma sociedade violenta. Apenas temos alguns episódios de violência

E o que dizer quando os dados estatísticos apontam que das 516 violações sexuais ocorridas na cidade da Praia, entre os anos de 2010 e 2014, 387 tiveram como vítimas pessoas com idade inferior a 15 anos, 15 das quais crianças do sexo masculino? Que os casos de abuso sexual de crianças e adolescentes denunciados em Cabo Verde, entre os anos de 2012 e 2014, tiveram como vítimas crianças com idade inferior a 12 anos, com maior incidência na faixa etária dos 6 a 12 anos (46%)? Que 7 % destas vítimas estão na faixa etária dos 0 a 5 anos e 42% na faixa etária dos 13 a 15 anos (42%)?

Violência contra crianças e adolescentes é uma das maiores preocupações do país.